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A “evolução egoísta” e como escapar de suas armadilhas

O instinto de sobrevivência que trouxe a humanidade ao estágio de desenvolvimento atual, gerou também o individualismo que ameaça a vida como a conhecemos.

12 de junho de 2013 · 8 anos atrás
  • Suzana Padua

    Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreen...

Cultura consumista: Blok M, um gigantesco complexo de shopping centers localizado no sul de Jacarta, na Indonésia.
Cultura consumista: Blok M, um gigantesco complexo de shopping centers localizado no sul de Jacarta, na Indonésia.

Com novas demandas surgindo a cada dia, o uso dos recursos naturais extraídos para suprir o consumo crescente do qual grande parte da economia mundial depende tem chegado a limites inusitados. As agressões socioambientais e a insustentabilidade em todos os campos das atividades humanas aparecem de inúmeras formas, algumas com graves consequências para a sobrevivência de espécies, inclusive a nossa. O cenário fica ainda mais grave quando percebemos que todo o direcionamento deste “progresso” não objetiva melhorar a vida das pessoas, como indicam dados recentes sobre a intensificação da concentração de renda; uma massa de desprivilegiados vem aumentando exponencialmente nos últimos 20 anos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, país que trabalha com estatísticas em quase todas as áreas, essa realidade é marcada pelo fato de apenas 1% dos mais ricos conterem hoje 24% da riqueza nacional. Internacionalmente, esta realidade não é tão diferente, pois apenas 20% da população do planeta consome 80% dos recursos disponíveis. Nesse cenário, a maioria das pessoas não usufrui do bem estar gerado, porém sofre os efeitos da devastação ambiental que resultam da extração dos recursos e dos dejetos produzidos insustentavelmente, o que comumente implica em condições de vida indignas e perda de valores civilizatórios.

A ilusão do ter como base para o ser mostra a espécie humana é insaciável e leva à insustentabilidade da vida no planeta. O que é preciso mudar, e como mudar?

A mídia não ajuda muito a transformar a realidade, pois depende do sistema estabelecido para garantir lucros e poder junto aos mais privilegiados e, assim, as decisões sobre o que é divulgado ficam muitas vezes comprometidas. Ademais, a forma com que as notícias são expostas leva muitos a se sentirem impotentes diante das graves questões que emergem a cada dia.

A educação pode ajudar, mas a maioria dos sistemas educacionais ainda se baseia em modelos antigos, repetindo padrões tradicionais de transmitir conhecimentos, sem o estímulo necessário para que o indivíduo se engaje em causas que visem melhorias coletivas. A educação ambiental surgiu para preencher esse tipo de lacuna, percebida nas décadas de 1970-80, e passou a incluir valores e participação em suas bases conceituais, além, é claro, de reconhecer o poder do conhecimento, que reforça conteúdos sólidos para direcionar as mudanças que se pretende em prol de um mundo mais equilibrado, harmônico e sustentável. Mas, as iniciativas de reverter o cenário parecem ainda incipientes frente aos desafios que emergem e que nos levam a refletir sobre os processos vivenciados e aqueles que devem acontecer para transformar a realidade.

Leonard Boff, no livro Saber Cuidar, sugere o cuidado como um caminho para mudanças. Cuidar significa tecer laços de afetividade, pois só se cuida do que se ama. Aprender a amar o planeta é parte do que precisa acontecer. Cuidar, segundo ele, exige um novo modo de ser: “O cuidado entra na natureza e na constituição do ser humano”. Ele conclui seu texto com a seguinte invocação:

Que o cuidado aflore em todos os âmbitos, que penetre na atmosfera humana e que prevaleça em todas as relações! O cuidado salvará a vida, fará justiça ao empobrecido e resgatará a Terra como pátria e mátria de todos.

De fato, em um ambiente onde a ética prevaleça haverá espaço para que todas as espécies vivam dignamente, sem que nenhuma chegue a riscos de extinção, ou sem que sofram interferências por causas não naturais em seus processos evolutivos. Os resultados destrutivos do que se observa no planeta hoje, no entanto, derivam da ação humana, espécie que se diz a mais inteligente de todas as demais encontradas no planeta.

A evolução egoísta

(…) a evolução como vem ocorrendo trouxe a humanidade ao patamar atual de “progresso”, mas doravante também poderá levar à sua derrocada

Claudio Padua tem afirmado em suas palestras que a postura, os comportamentos e os impulsos que ajudaram a trazer a humanidade ao estágio de desenvolvimento em que se encontra hoje, são exatamente os que ameaçam a continuidade da vida como a conhecemos. Isso porque o instinto de sobrevivência, fundamental para o enfrentamento de situações adversas, contribuiu para firmar um processo egoísta na evolução que foi benéfico até certo ponto. Este drive nos ajudou a ultrapassar barreiras, a conquistar desafios e atingir grandes vitórias. Mas também nos levou a comportamentos individualistas e autocentrados, nos quais predomina o imediatismo, ou visões de curto prazo.

Outro aspecto que Padua enfatiza como fundamental à reflexão do dilema atual é a diversidade cultural, que sempre contribuiu para a busca de soluções e conhecimentos múltiplos. Todavia, com a divisão de grupos, regiões e nações as decisões se tornam autocentradas e tendendo sempre a proteger interesses próprios, e não o que pode beneficiar o planeta. Este tem sido o cenário das disputas na ONU, por exemplo, que exige consenso em suas decisões, e por isso raramente consegue eficácia na solução de questões que afetam a todos. Segundo Padua, novamente esta característica ajudou a humanidade no passado a se estabelecer como uma espécie dominante, mas agora pode ameaçar sua estabilidade e o que está por vir.

O fato é que a evolução como vem ocorrendo trouxe a humanidade ao patamar atual de “progresso”, mas doravante também poderá levar à sua derrocada. O planeta não mais comporta que cada indivíduo, cada tribo, cada nação pense apenas em si.

Darwin já havia chamado a atenção para o egoísmo perigoso presente na espécie humana em sua obra A Origem do Homem, publicada em 1871. Ao refletir sobre a evolução da moralidade humana, concluiu que o comportamento moral não trazia vantagens. Pelo contrário, o indivíduo lucraria mais desobedecendo as regras impostas para agir em benefício próprio ao defender o que era de seu interesse.

O ápice dessa linha de pensamento talvez tenha sido Richard Dawkins que, em 1976, publicou O Gene Egoísta. Levantou muitas controvérsias, mas suscitou discussões interessantes ao propor uma nova visão sobre a evolução. Responsabilizou o gene pelo direcionamento do ser em evolução e concluiu que somos uma “máquina de sobrevivência”. Ou seja, o homem é um ser autômato a serviço dos genes ou máquinas biológicas, o que, segundo ele, acontece com todos os seres vivos, da bactéria ao mais renomado cientista. As críticas ao seu trabalho foram muitas, mas sua provocação chamou atenção além da biologia.

Recuperando o sentido coletivo

Há muito que o ser humano se vê como centro da vida, o que ajudou a fazer com que deixe de perceber a teia de elementos da qual depende. Sigmund Freud compreendeu os dilemas que forçaram a humanidade a reconhecer sua humilde posição no mundo:

No decurso do tempo, a humanidade teve de aguentar, das mãos da ciência, duas grandes ofensas de seu ingênuo amor-próprio. A primeira foi quando percebeu que a Terra não era o centro do Universo, mas apenas um pontinho num sistema de magnitude dificilmente compreensível… A segunda quando a pesquisa biológica roubou-lhe o privilégio de ter sido criada especialmente, e relegou o homem a descendente do mundo animal.

Em contraposição a esses pensadores, Boff defende que foi a cooperação que ajudou a humanidade a evoluir: “Não foi a luta pela sobrevivência dos mais fortes que garantiu a persistência da vida e dos indivíduos até os dias de hoje, mas a cooperação e a coexistência entre eles”.

A meu ver, devemos buscar e estimular todas as formas possíveis que ajudem a tocar o ser humano profundamente, para que acorde, perceba seu potencial transformador

Essas visões divergentes estimulam uma reflexão sobre o que é preciso acontecer para que a vida humana siga seu curso natural. Claudio Padua defende que é preciso se instaurar uma total mudança paradigmática que priorize a coletividade, a vida planetária. Se a visão de mundo que vem predominando há milênios continuar doravante, as perdas serão irreversíveis para a nossa sobrevivência. O planeta seguirá seu curso, mesmo que diferente do que o conhecemos, mas Padua acredita que a espécie humana corre o risco de não mais estar aqui para registrar as mudanças que ajudou a provocar.

A meu ver, devemos buscar e estimular todas as formas possíveis que ajudem a tocar o ser humano profundamente, para que acorde, perceba seu potencial transformador e, assim, passe a focar nas transformações das realidades indesejadas, construindo outras que tenham por base valores como cooperação, generosidade, amor e celebração da vida e sua diversidade. Resta saber o que queremos para o futuro para que passemos a agir em uma direção mais sustentável e ética com a vida. Como os processos atuais estão mais e mais acelerados, as consequências se dão em espaços de tempo cada vez menores. Há, portanto, uma urgência na busca de caminhos alternativos.

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