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O Brasil precisa se manter uma economia competitiva

Após encontros com Dilma, China e Estados Unidos disputam o lugar para ser o maior cliente das riquezas naturais do país. Isso é boa notícia. Mas até quando?

2 de maio de 2011 · 10 anos atrás
Com os Estados Unidos e a China competindo para garantir suas reservas de recursos naturais, o Brasil é hoje uma das nações mais competitivas do mundo. No entanto, manutenção dessa competitividade é o principal desafio para a presidente Dilma Rousseff, ao mesmo tempo que ela intensifica seus esforços para suprir as crescentes demandas dessas potências mundiais.

Durante sua recente viagem ao Brasil, o presidente dos Estado Unidos, Barack Obama, elogiou o “crescimento extraordinário” do país nos últimos anos. Apesar dos acordos firmados ficarem aquém do esperado pela presidente Rousseff, o presidente Barack Obama sugeriu que os EUA poderiam se tornar “um cliente importante” para o Brasil – referindo-se especialmente aos campos de petróleo recém-descobertos. “Num momento em que somos lembrados de quão facilmente a instabilidade em outras partes do mundo podem afetar o preço do petróleo, os Estados Unidos saúdam o potencial de uma nova e estável fonte de energia”, disse ele.

Mas os Estados Unidos enfrentam uma forte concorrência. Após a viagem de Obama, a presidente Rousseff partiu para a China e conseguiu garantir bilhões de dólares em investimentos. Em entrevista à Reuters, André Nassar diretor do think tank paulista Icone, disse que o governo comunista da China está livre das restrições que Obama tem com o Congresso americano com a concessão de concessões comerciais e também vê mais benefícios para o Brasil por ser um crucial fornecedor de alimentos e metais para a economia da China. “O Brasil oferece segurança alimentar. Eles precisam e querem que esta relação funcione”, disse ele.

 

Muitas nações não veem a necessidade de proteger seus ativos ecológicos num momento em que estão colhendo os benefícios econômicos a partir deles.Mas, na verdade, as questões ambientais irão rapidamente começar a sobrecarregar a economia brasileira.
Essa dependência crescente foi construída anos a fio. A China tem sido um grande consumidor nos setores agrícola e de mineração do Brasil. Após a crise financeira de 2008, a China foi capaz de assumir a liderança, reforçando seus laços econômicos com o Brasil. Segundo a Forbes, na esteira da crise, o interesse da China nas exportações brasileiras de recursos naturais aumentou dramaticamente. As importações chinesas do Brasil aumentaram de US $ 8,4 bilhões em 2006 para US $ 30,8 bilhões em 2010 – e consiste principalmente de minério de ferro, soja e petróleo bruto. Isso marcou uma transição chave, a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil e causou uma mudança significativa nas exportações dos recursos naturais brasileiros. Em troca, o Brasil obteve vários empréstimos a longo prazo da China, que têm sido cruciais para o crescimento da sua infraestrutura.

Para um presidente que tem o desenvolvimento uma prioridade, esse tipo de financiamento é um grande golpe para Rousseff. Os benefícios econômicos de ter duas superpotências competindo pelos recursos do Brasil são óbvios – mas, ainda assim, esses benefícios são de curto prazo, caso os recursos financeiros não sejam destinados para a construção de uma economia sustentável.

A chave para a competitividade a longo prazo não está em quantos acordos Rousseff pode garantir hoje, mas se o Brasil pode gerir eficazmente os seus recursos – um dos pilares de seu atual boom econômico. A China fez novos investimentos de 30 bilhões de dólares focados nos setores de energia e mineração brasileiros – ambos não são baseados em recursos renováveis. Ao mesmo tempo, a presidente Rousseff tem sido agressiva na promoção dos biocombustíveis do país. Que efeitos o crescimento dos biocombustíveis terão sobre outros usos da terra, como a agricultura e a silvicultura? Esta é uma questão crucial já que a China, os EUA e outros países continuam com uma demanda crescente das exportações agrícolas, florestais e pastagens do Brasil. Um setor econômico não pode ser encarado sem considerar o efeito cascata sobre outras commodities baseadas no solo.

Muitas nações não veem a necessidade de proteger seus ativos ecológicos num momento em que estão colhendo os benefícios econômicos a partir deles. Mas, na verdade, as questões ambientais irão rapidamente começar a sobrecarregar a economia do país, aumentando a sua dependência alimentar, dependência energética, e como resultado, um rápido aumento da dívida nacional. Esta dinâmica já pode ser observada ao se ler as notícias recentes de outras partes do planeta.

Como um credor ecológico, isto pode parecer uma realidade muito distante para o Brasil. A China e os Estados Unidos podem continuar a cortejar Dilma com seus acordos e investimentos, uma vez que a economia do Brasil continua a crescer. Mas sem um balanço ecológico e com um rápido aumento nas exportações, pode ser que em prazo não muito longo o Brasil ocupe o outro lado da mesa de negociação. Daí, questão é saber se terá o mesmo poder de compra que os EUA e China têm no momento.

Jennifer Mitchell é o vice-presidente de Assuntos Externos, da Global Footprint Network, um “think tank” internacional que trabalha para promover a sustentabilidade por meio da utilização da Pegada Ecológica, uma ferramenta de contabilização dos recursos naturais, que mede o que temos, o quanto nós usamos e quem usa o que. Seu email é [email protected]. Para saber mais sobre Global Footprint Network, visite www.footprintnetwork.org.

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