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Marina, morena Marina, você encantou…

A economia, a melhoria social, e o desenvolvimento só são possíveis se integrados a um caminho de sustentabilidade.

14 de outubro de 2010 · 11 anos atrás
  • Suzana Padua

    Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreen...

Marina brilhou. Em meio a um cenário de podridão e baixaria, eis que desponta uma luz no fim do túnel. A bem dizer no início do túnel, porque sua trajetória está apenas se iniciando rumo à presidência do Brasil. Oxalá!

Por conta de sua postura ética e valores alinhados à sustentabilidade planetária, apresentou um programa moderno de governo, aliás a única candidata a ter programa. Os demais ignoram temas relevantes como este, e mudam de opinião sobre outros, muitas vezes imitando as posições de Marina para ver se conquistam os votos de seus eleitores do primeiro turno. Seguem orientações de marqueteiros que tentam adivinhar o que o povo quer ouvir. Mas, se levarmos em conta o tempo mínimo de sua exposição na mídia, Marina teve um resultado extraordinário, obtendo 1/5 dos votos dos eleitores brasileiros. Ficou claro que enquanto os outros lutam por um programa de poder, Marina expõe um programa para o país, com base em uma visão ampla do que somos internamente e do que representamos na esfera global.

Marina defende um desenvolvimento com base na proteção das riquezas socioambientais que caracterizam a nossa nação, sem deixar de lado as necessidades sociais e os anseios empresariais. Ela compreende que sustentabilidade nunca foi tão crucial para qualquer avanço, seja social, econômico ou ambiental, principalmente quando o planeta dá sinais de não suportar as pressões do modelo de desenvolvimento adotado pela maioria da humanidade. Essas preocupações não faziam parte das pautas dos tomadores de decisão de outrora, mesmo uma outrora recente, e seus concorrentes têm os ignorado, apesar do avalanche de notícias publicadas no Brasil e no mundo sobre temas que apontam para a urgência de se mudar o paradigma desenvolvimentista. Pensam velho. Queiram eles ou não, a sustentabilidade será a base para qualquer avanço significativo de longa duração para a humanidade. Para Marina a economia, a melhoria social, e o desenvolvimento só são possíveis se integrados a um caminho de sustentabilidade. Isto porque, ou se pensa nos limites e usos responsáveis dos recursos naturais, ou todos nós dançaremos juntos, mas não ao ritmo de toadas promissoras.

Cercou-se de gente de alto nível com experiência nas mais diversas áreas do conhecimento e se dispôs a ouvir, coisa rara no meio político. Defende investimentos em setores que podem gerar a produção de conhecimentos, de tecnologias e continuamente pondera sobre os cuidados de como se deve progredir.

Marina trouxe esperança. Mostrou ser possível uma outra via de se fazer política no Brasil. Suas idéias, expostas com lucidez e coerência, são embelezadas por metáforas sobre a infância, passagens importantes da vida, trechos bíblicos e literários, ou alusões à natureza, e sempre imbuídas de valores éticos. Esta tem sido sua grande força – o que a destaca de seus concorrentes. Marina anseia levar o Brasil a um outro patamar. Com esta amostra de liderança que nos ofertou, talvez não perceba a extensão de sua responsabilidade de ser cada vez mais exemplo do que é ser correto, consistente com os valores que tem, e com o alinhamento de pensar na nação antes de em si própria.

As pressões, sem dúvida, são enormes, pois afinal das contas, dependendo de para qual lado penderem seus eleitores será selado o destino dos próximos quatro anos de governo brasileiro. A opção do Parido Verde não deve estar fácil, pois a sedução é grande com ofertas de cargos, ministérios e outras regalias. São cantos das sereias… Muitos já se posicionaram em favor de um ou da outra candidata. Mas, não Marina, que está exigindo de ambos posturas que favoreçam o Brasil. São mais de 40 condições para apoio no segundo turno, como relata o Estado de S.Paulo no dia 9 de outubro: transparência e ética; educação; segurança pública; mudanças climáticas; energia e infraestrutura; saúde; proteção dos biomas; gasto público e reforma tributária; e, diversidade socioambiental e cultural.

Estas condições, no mínimo, exigirão uma reflexão sobre temas que os dois finalistas não abordaram, ou o fizeram com superficialidade. Chegar a um segundo turno foi uma conquista de Marina e agora suas condições de apoio aos finalistas podem ajudar a trazer questões importantes à mesa das prioridades. Podem também ajudar a seus eleitores a fazer uma escolha mais consciente, com base nas respostas ou compromissos que forem assumidos e, posteriormente, cobrar o que foi prometido.

O tempo dirá quem vai ganhar, mas como escreveu Miriam Leitão em sua coluna “Nova Rodada” do Jornal O Globo de 5/10/2010: “Obrigada, Marina, por ter dado ao Brasil mais uma chance de discutir e pensar; por ter mostrado que um presidente, mesmo popular, não garante a eleição em primeiro turno; por ter tornado a conversa mais inteligente com seus semitons, entre o vermelho e o azul; por ter elevado a agenda ambiental ao ponto de encontro de outros grandes temas nacionais” . Dias depois, Miriam Leitão cuidadosamente descreveu as diferenças de posturas entre Dilma Roussef e Marina Silva ao longo dos anos, em outra coluna de O Globo, “Trilhas Opostas” de 7/10/2010: . Vale a pena relembrar momentos decisivos que mostraram a pouca preocupação, chegando a um grande desrespeito com as questões ambientais de uma, versus o empenho da outra em trazer o tema como central ao cenário político brasileiro.

A alternância de poder pode ser salutar para o Brasil. Outras nações, cujas rédeas têm ficado nas mesmas mãos por muito tempo mostram abusos e riscos à própria democracia. O que é bom para a população e para o país deve ser lembrado continuamente, e cabe a um bom governante estimular o amadurecimento dos processos participativos e emancipatórios que levem cada vez mais a escolhas conscientes. Não vejo em nenhum dos dois candidatos características de liderança desse calibre, mas espero que o futuro nos traga novos caminhos.

Com Marina como candidata, pela primeira vez em minha vida tive prazer em votar. Acredito que o processo eleitoral de 2010 passará à história brasileira como exemplo de que é possível se pensar em algo bom para a sociedade e bom para o meio ambiente. A responsabilidade da pessoa que assumir a presidência do Brasil é enorme. Com nosso tamanho continental habitado por riquezas naturais ímpares, o Brasil tem um papel de liderar modelos. Modelos estes que só são possíveis com alguém no comando que comungue desse pensar. Ainda não foi dessa vez, mas as sementes lançadas agora germinarão em 2014, quando minha alegria será celebrada ao elegermos Marina presidente do Brasil. Comecei torcendo por essa idéia em maio de 2008, e a reforcei em agosto de 2009 (colunas no O Eco). Continuarei empenhada até que esta idéia se concretize!

OBS: Esta matéria reflete minha opinião pessoal, e não representa a posição do IPÊ, de ((o))eco, ou de qualquer outra instituição da qual faço parte.

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