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Um ruralista diferente provoca os verdes

Um ruralista divide o ambientalismo e pode mudar a cara da agricultura nos Estados Unidos, tornando-a mais sustentável e sem driblar a produção de biocombustíveis.

25 de fevereiro de 2009 · 13 anos atrás
  • Sérgio Abranches

    Mestre em Sociologia pela UnB e PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell

Ele foi abandonado ao nascer em um orfanato católico em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, há 58 anos. Adotado por um agente imobiliário e de seguros e sua mulher, pôde estudar no Hamilton College, em Clinton, estado de Nova Iorque, onde recebeu o diploma de Direito, e na Escola de Direito de Albany, capital do estado, onde obteve o doutorado na mesma área. Casou-se e mudou-se para a cidade natal da mulher, Mount Pleasant, em Iowa.

Foi prefeito de Mount Pleasant, senador estadual por duas vezes e, aos 32 anos, foi eleito o primeiro governador Democrata de Iowa, em 1998. Em 2002, se reelegeu. Iowa faz parte do “cinturão do milho”. Seus principais produtos são milho e soja e é um dos maiores produtores de etanol de milho do país. Em 2006, anunciou que concorreria às primárias do Partido Democrata para a candidatura à Presidência da República, mas retirou-se em fevereiro de 2007. Faz parte do pequeno grupo de políticos que usaram intensamente em suas campanhas as redes de interação social, o YouTube, a blogosfera e todos os recursos novos disponíveis na webesfera. Apoiou Hillary Clinton nas primárias.

Durante sua campanha para governador, defendeu a visão de fazer de Iowa a “capital mundial da comida”. Presidiu a “coalizão de governadores pelo etanol”. Seria visto no Brasil, com razão, como uma liderança ruralista. Lá, era chamado pelos ambientalistas de porta-voz dos transgênicos.

Secretário de Obama

Hoje, Tom Vilsack é o secretário de Agricultura do governo Obama e quer aumentar o percentual de etanol misturado à gasolina, como parte do programa de recuperação econômica e para apoiar a indústria de biocombustíveis, profundamente abalada pela crise. Estima-se que houve uma queda de 21% da produção, por causa da redução da demanda. Atualmente, o percentual de mistura é de 10,2% de etanol e a idéia é ir a 15% ou 20%. No Brasil, só para comparar, é de 20% a 25%. Ele está discutindo essa elevação com a EPA, a agência ambiental federal que controla os padrões de uso do biocombustível. Se a mistura nos Estados Unidos passasse a 20%, garantiria uma demanda adicional de quase 57 milhões litros, suficiente para salvar a indústria, dizem os produtores.

Os ambientalistas não gostaram nada. Mas não é consenso. Vilsack dividia a turma mesmo antes de ser nomeado secretário por Obama. Desde que assumiu o cargo, defende o etanol, mas adota também medidas de proteção aos orgânicos. Os ativistas a favor da agricultura sustentável, principalmente os que querem “comida sustentável”, viram nele um adversário. Mas ele pede para ser julgado por seus atos. Em entrevista recente, disse que “alimentação sempre foi uma questão significativa” em sua vida. Sua mãe adotiva teve sérios problemas com álcool e drogas e ele foi uma criança obesa. “Lutei a vida toda com comida, por causa do meu peso e não quero que as crianças passem pelo que passei”, disse. Não consegui saber quanto está pesando hoje. Mas pelas fotos e vídeos, parece ter vencido em definitivo a ameaça da obesidade.

Essa preocupação com a qualidade da alimentação o levou a implementar durante seu governo em Iowa um programa especial de nutrição para mulheres, crianças e bebês, e um plano abrangente de nutrição e atividade física para as escolas do estado. Agora, está propondo rotulação mais restritiva dos alimentos, inclusive o chamado “rótulo de país de origem”, para identificar claramente a origem de cada animal ou produto alimentar. Está comprando problemas com o Canadá e o México (leia-se Nafta), que são contra o rótulo de origem.

O ativista da “comida sustentável” e autor de vários best-sellers sobre o assunto, Michael Pollan, começou criticando Vilsack, mas agora se diz “cautelosamente otimista” com a defesa que o secretário de Agricultura tem feito do consumo de comida localmente produzida e sua sugestão de reduzir os subsídios agrícolas e usar os recursos para um fundo de conservação. Mas a Associação dos Consumidores Orgânicos acha que Obama e Vilsack estão do lado dos transgênicos e do etanol nada sustentável de milho.

Ambientalistas lembram que Vilsack tem apoiado vários movimentos para mudar a política de assistência governamental à agricultura, para transferir dinheiro dos grandes produtores para a conservação, a nutrição, o desenvolvimento das áreas rurais e a pesquisa energética. Vilsack sempre defendeu programas para apoiar o plantio direto e a redução de fertilizantes e defensivos agrícolas no campo. John Crabtree, do blog Rural América, foi perguntar a ele sobre as preocupações dos ambientalistas com seu apoio à biotecnologia e ameaças à agricultura orgânica.

“Ele revelou suas prioridades para proteção de produtores orgânicos: rotulação para dar aos consumidores voz mais forte no mercado e criar oportunidades para os produtores desenvolverem mercados de alto valor para seus produtos e regras estritas de confinamento; distâncias mínimas, transporte e processamento seguros para proteger culturas orgânicas da contaminação por transgênicos”, relatou.

Conta que Vilsack também defendeu a aplicação do princípio da precaução na aprovação de novas biotecnologias, transferindo para os proponentes o ônus da prova de que eles não apresentam riscos para produtos orgânicos. O blogger, reconhecido como defensor da agricultura sustentável, acabou dando um crédito de confiança ao novo secretário.

Biocombustíveis dividem

Mas uma coalizão de ambientalistas não quer nem ouvir falar em ajudar os biocombustíveis. Querem que sua produção seja reduzida progressivamente até ser abandonada. Nela estão ongs como Clean Air Task Force, Environmental Working Group e Amigos da Terra. “Há um número considerável de objeções sobre a forma como o etanol é produzido atualmente e temos que responder a essas objeções”, responde Vilsack.

Uma forma de fazê-lo, diz, é acelerando significativamente a pesquisa, para nos permitir termos produtos alimentares mais eficientes do que temos hoje e, ao mesmo tempo, promovendo produtos de segunda e terceira geração que podem ser mais benéficos na perspectiva da mudança climática. Defensor da biotecnologia, o que ele está querendo dizer é que há transgênicos do bem e transgênicos do mal. Os primeiros aumentam a capacidade de produção sob estresse climático, eliminam a necessidade de fertilizantes e defensivos. Os outros, fazem o contrário, induzem maior uso de defensivos e são altamente contagiosos. Ele está falando também das centenas de milhares de dólares que o governo está injetando na pesquisa de biocombustíveis de segunda e de terceira gerações.

Outra objeção de ambientalistas é de que a ajuda ao etanol de milho pode não incentivar uma transição para biocombustíveis mais avançados. Mas Vilsack, associações de produtores de etanol e outros grupos ambientalistas argumentam que a eficiência do etanol está aumentando. Perto de 25% dos produtores de soja e 20% dos produtores de milho hoje usam o cultivo direto, argumentam. A melhoria da gestão agrícola está contribuindo, também, para reduzir o consumo de água e nutrientes, melhorar o uso do solo, e controle de efluentes nas águas.

É o que se lê, por exemplo, em relatório recém-publicado pelo Sierra Club, tradicional ong ambientalista da Califórnia, e o World Resources Institute (WRI), uma ativa ong ambiental muito envolvida na mudança do padrão energético global. O estudo se chama Escolhas Inteligentes para os Biocombustíveis. A Associação para os Combustíveis Renováveis, diz que “não se pode negar os avanços concretos dos produtores de etanol, para aumentar a segurança energética do país, mitigar os impactos no clima e criar centenas de milhares de empregos e bilhões de dólares em oportunidade econômica”.

Nenhum ambientalista defende o etanol de milho como sustentável ou passível de se tornar sustentável. Mas muitos argumentam que os produtores podem migrar para o etanol celulósico, usando insumos de sua própria cultura ou, melhor ainda, combinando a cultura de milho (a ser dedicada integralmente à alimentação animal e humana) e culturas energéticas mais eficientes e produtivas para a produção do etanol avançado de segunda geração.

Ambientalistas x ambientalistas

Tom Vilsack se meteu em um campo minado, sob fogo cruzado. Realmente, sua história de relacionamento com a agricultura tradicional e a biotecnologia gera muita desconfiança nos ambientalistas. Por outro lado, ele tem uma agenda como secretário de Agricultura que, pela primeira vez, atende a várias das demandas de ambientalistas. Esse é o campo minado, o de sua própria biografia política. É, no máximo, um ruralista diferente. O fogo cruzado vem do ambientalismo, que está cada vez mais dividido, entre os que querem mais limites ao crescimento e menos tecnologia e os que consideram vital usar mais ciência e tecnologia para assegurar padrões de bem-estar e de seguranças climática, alimentar e energética.

O estudo do Sierra Club e do WRI faz a apologia dos “biocombustíveis avançados”, de origem celulósica, também conhecidos como de segunda geração, e não condena os produtores de hoje. Reconhece que “existem vários modos bem conhecidos para reduzir a pegada ecológica de biocombustíveis de primeira e segunda geração. Durante o estágio de plantio, eles incluem minimizar o uso de fertilizantes químicos e pesticidas e evitar o uso de terras frágeis”. A conclusão geral é de que é possível a produção sustentável de biocombustíveis. Também chamam atenção para o fato de que devemos ir além dos biocombustíveis, usando outras tecnologias, inclusive veículos híbridos e elétricos (tipo carrega-na-tomada) alimentados com energia de fonte eólica ou solar.

A divisão entre os ambientalistas “minimalistas” e os “tecno-ambientalistas” não está presente apenas no debate sobre os biocombustíveis. Está clara na discussão sobre o uso de biotecnologia para produzir alimentos ou alimentos sintéticos para alimentar a população humana que deve chegar a 9 bilhões, numa trajetória otimista, em 2050, sem aumentar as emissões de carbono. Está na polêmica sobre o uso da energia nuclear como substituto rápido das termelétricas a carvão.

É uma velha briga, entre verdes “naturalistas” e “tecnológicos”. Eu não tenho muita dúvida. Só haverá um futuro sustentável para a Amazônia, para o Brasil e para o mundo, com o uso intensivo de ciência e tecnologia, que permita o desenvolvimento e o bem-estar num padrão de produção de baixo carbono.

Se é isso que Vilsack está buscando, ele está no caminho certo.

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