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Pedal no Cerrado

Estudante pôs em prática os sonhos pedalando do Paraná ao Piauí, conhecendo as belezas e as mazelas do Cerrado. A conservação seria melhor se todos tivessem essa experiência.

26 de novembro de 2007 · 14 anos atrás
  • Reuber Brandão

    Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservaçã...

Ë inacreditável como a escala do tempo muda rapidamente. Não percebemos como os anos vão passando e de repente há coisas que só fazem sentido quando somos jovens estudantes. Depois de profissionais, perdidos em meio a vários compromissos, sentimos até uma pontinha de inveja de tudo aquilo que pode ser experimentado quando se está na universidade. Entre tantas coisas, uma é a liberdade de fazer o que realmente faz sentido. Há um ano, um aluno da engenharia florestal da Universidade Federal do Paraná (UFPR) decidiu trancar a faculdade por dois semestres para percorrer várias unidades de conservação do Cerrado, até alcançar o Parque Nacional da Serra das Confusões já na Caatinga, tudo de bicicleta.

Planeja daqui, planeja de lá. E lá estava o Ruddy organizando sua viagem. Sua única companheira seria a fiel Vitória, a bicicleta, pois a namorada ficaria em Curitiba. Assim, os planos foram colocados dia a dia no papel. Quanto tempo levaria e quanto teria que pedalar, como alcançaria o sonho de chegar até o Parque Nacional da Serra das Confusões. Um lugar distante, muito distante, principalmente quando se tem 23 anos e se vive em Curitiba.

Neste percurso, do Paraná até o Piauí, passaria por uma das regiões mais conservadas do Cerrado, mas também teria a oportunidade de vivenciar tudo o que tem sido consumido do Cerrado pelas mais diversas atividades. Não demorou muito para os relatos sobre a degradação do Cerrado ocuparem seu diário. A cada quilômetro novas descobertas e paisagens, descritas com a emoção de quem vivencia aquilo pela primeira vez, arrebatado por um amor intenso como apenas os mais jovens podem sentir. O espanto para aquele desconhecido, a surpresa para os fatos que se tornam evidência, o rompante de quem ainda sonha em salvar o mundo.

Como era de se esperar o Cerrado logo encantou. Aqui há algo que fascina. Talvez as formas torcidas, a vastidão do horizonte, os dias quentes, a falta de chuva, a terra inundada. Talvez seja porque a imensidão do céu permite sonhar mais. Talvez seja a cor dos entardeceres, ou quem sabe o cheiro do ar. Porque para quem não sabe, o Cerrado tem cheiros distintos. Na verdade não tem nada mais delicioso do que sentir o cheiro da chuva, das primeiras gotas de água caindo na terra sedenta após a longa seca. Cheiro que lembra mudança de tempo, nova estação, renovação, cheiro de coisa nova de algo já experimentado.

Mas vamos deixar o cheiro de chuva para lá. Em menos de sete meses foram percorridos 8.884 km, dos quais 6.032 km sobre a bicicleta (1.580 km em asfalto), 100 km de carona, 484 km a pé, 8 km de burro e 2.260 km de veículo, junto com as equipes das unidades por onde passou. Cruzou cerca de 200 localidades, entre cidades, distritos e povoados, nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí. Visitou 39 unidades de conservação. Destas, 24 foram alvos de análise de situação de manejo. Chegou à conclusão que nenhuma consegue atingir totalmente seus objetivos de criação. Na maioria dos casos, os motivos vão além da vontade política dos tomadores de decisão, da falta de prioridades dos governos, da falta de pessoal, de recursos financeiros e de instrumentos adequados de planejamento. Muitas vezes, segundo Ruddy, o que falta é um eficiente sistema de gestão, clareza sobre missão, planejamentos estratégicos, definição de metas, empenho dos gestores.

Tudo isso deve tornar-se um dia um livro de viagem. Mas o que se pode imaginar enquanto este livro não chega é o privilégio, a emoção e o prazer por fazer uma viagem desta. De ver e experimentar os prazeres do Cerrado, mas também tomar contato com muita degradação na forma de caça, corte, queima, pastagem, soja, gado, erosão.

Uma viagem desta também é um excelente exercício de cidadania. É poder experimentar as relações humanas. É esta experiência que despenca entre as chuvas fortes de São Paulo e os dias escaldantes do Tocantins. Conhecer lugares, pessoas, lições esquecidas no tempo.

Experiências como estas deveriam ser obrigatórias na formação de nossos jovens estudantes. Na verdade, deveríamos fazer com que nossos jovens acadêmicos parassem um ano o dia-a-dia de sala de aula da academia e fossem ver o que é a vida real no campo. Um estágio para a vida. Que conhecessem o mundo ao vivo. Que vivenciassem. Assim desenvolveríamos pessoas mais responsáveis, mais reais, mais vibrantes, mais vivas e, quem sabe, mais antenadas ao mundo real. Precisamos de gente assim para a conservação e para o país. As universidades podem preparar o conceitual, o teórico, o básico. Mas somente vivendo, experimentando, exercendo a realidade, é que formaremos profissionais mais aptos para atuar em conservação.

O pior de tudo é que há um monte de universidades e faculdades das áreas ambientais onde as aulas práticas são raras ou quase inexistentes. A proliferação de cursos capengas, conduzidos por professores desestimulados (quando não humilhados), que recebem alunos já com base deficiente do ensino médio, não irá mudar a realidade das pessoas e das regiões onde estão inseridos. Muito menos a realidade do Cerrado. Cursos assim são os cemitérios dos sonhos de alunos e de professores.

Sem estímulo, sem investimento nos alunos, sem amor próprio, sem ânimo, não há possibilidade de vivenciar nada ou quase nada em conservação. Assim, são formados recursos humanos de escola, que podem ter boas notas (ou não), que podem ter uma formação acadêmica razoável (quase certamente não), mas sem nenhuma sensibilidade e preparo para viver e trabalhar no campo.

Por outro lado, nada mais decepcionante para um professor engajado que alunos desinteressados, apáticos, distantes. Nada pior para o futuro da biodiversidade a formação de uma massa amorfa de portadores de diploma ávidos por concursos públicos, mas incapazes de sentirem a conservação em suas mentes e corações. Que estudam em instituições construídas sobre o solo do Cerrado, mas não sentem absolutamente nada por este lugar.

Assim, nos deparamos com um quadro de falta de profissionais para atuar no campo, justamente onde há maior carência de pessoal. A maior parte dos profissionais não está disposta a trocar o ar condicionado do shopping pela sombra do pequizeiro. Sofrem quando tem que morar no interior ou, quando vão para uma área mais distante, buscam desesperadamente despencarem de lá, pois não agüentam viver nas condições locais. E por que esta agonia? Porque enquanto estavam nas universidades não experimentaram o Cerrado nem vivenciaram seus sonhos. Portanto, mesmo os que querem contribuir com seu esforço, não sabem se conseguirão dar conta do recado, pois não têm nenhuma referência ou meta. Mas, quem não tem coragem de experimentar, nunca sentirá o gostinho da vivência dentro de uma área de Cerrado, das manhãs frias, dos sons do mato, do privilégio da natureza, do milagre da maior savana da América do Sul.

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