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Selva de Pedra

Cada vez mais o mercado procura em seus funcionários características comuns em quem pratica esportes radicais: segurança para enfrentar situações adversas.

12 de maio de 2006 · 15 anos atrás

Imagine o seguinte cenário: você está a quinze dias planejando e preparando uma apresentação comercial da empresa em que trabalha para executivos de uma multinacional que está avaliando a possibilidade de investir no mercado brasileiro. Seu chefe deixou bem claro quando lhe designou essa tarefa – “é a sua grande oportunidade”. Na véspera está tudo arrumado. Apresentação pronta, equipamentos testados e reservados, terno passado e despertador programado. Cada minuto do dia seguinte foi meticulosamente planejado e não haveria o que dar errado se não fosse aquele pequeno pico de luz durante a madrugada.

Agora você acorda atrasado e prepara às pressas um café da manhã eficiente o bastante para que você não desmaie na primeira esquina. Enquanto isso, veste o terno, arruma a bolsa e…pasta de dente na gravata da sorte! Sai de casa praguejando e quando entra no carro suspira e lembra-se: “o cd com a apresentação!!!” Consegue chegar com cinco minutos de antecedência para o início da reunião, quando seu chefe informa que o vice-presidente da multinacional estará presente e que por isso talvez você tenha que responder perguntas técnicas em inglês. Não demonstrando sinal algum de nervosismo você entra na sala e inicia os procedimentos, quando percebe que o cd não está funcionando. Onde está o backup?

Esse cenário faz parte da rotina de incontáveis profissionais desse novo mercado, cada vez mais veloz, dinâmico e difícil de ser planejado. Executivos se encontram constantemente em situações sob pressão que exigem, além das competências do cargo, inteligência emocional, agilidade, auto-controle e capacidade de racionalizar mesmo com todas as adversidades. São rotinas que fazem com que as decisões se assemelhem, cada vez mais, com questões de “vida ou morte”, lembrando muito a rotina e o processo de administração das adversidades naturalmente exigidos dos praticantes de esportes outdoor.

Atentas a essas novas exigências do mercado, empresas que prestam consultoria em Recursos Humanos vêm oferecendo um novo tipo de treinamento de executivos chamado Outdoor Training ou Treinamento Vivencial. O treinamento consiste em programas e metodologias para executivos, simulando uma rotina de tomada de decisões em ambientes muitas vezes imprevisíveis e sob pressão. Neste sentido, não há nada melhor para trazer à tona habilidades e reflexos do que tirar essas pessoas das suas zonas de conforto às quais elas estão habituadas, e propor situações que exijam respostas semelhantes, porém sob realidades diferentes.

Neste momento entram em cena atividades inspiradas nas rotinas de esportistas outdoor. Nos treinamentos vivenciais, apesar da segurança ser um fator de prioridade máxima, os treinandos são expostos a exercícios como orientação, rafting, trekking, corrida de aventura e vela oceânica, dentre outros. Aqui, todos têm as mesmas oportunidades, independente do nível hierárquico na empresa. A metodologia é baseada no Action Learning de Team Building. Esse nome lindo significa um esforço de ações em equipe para solucionar as provações às quais eles são submetidos.

Erroneamente, é comum imaginar que esse treinamento é uma forma de identificar perfis dos profissionais que participam, expondo-os a uma avaliação de comportamentos. Mas a proposta do outdoor training é muito mais valiosa e construtiva. Ela explora o auto-conhecimento dos profissionais, despertando e incentivando instintos de liderança, gerenciamento de riscos, instinto participativo na tomada de decisões, trabalho em equipe, otimização de recursos, comunicação e, principalmente, quebra de paradigmas. Segundo Thomaz Brandolin, idealizador e sócio diretor da Avanti Consultores, avaliar a competência do executivo não é a proposta deste treinamento, pois “são resultados não mensuráveis. O RH e/ou gestor observa a atuação dos participantes – como atua (estilo) liderando ou sendo liderado por outros, como se comunica/expressa suas idéias e angústias, como planeja, administra tempo e ansiedade etc. Se ele é “bom” ou não depende do cargo que atua, função e responsabilidade etc.” O objetivo é auxiliar no auto-desenvolvimento desses profissionais, pois “ao participar de uma atividade de superação de limites físicos e emocionais, o participante tem a sensação de vitória, elevação da auto-estima, euforia e a percepção de que uma situação aparentemente impossível é, na realidade, possível de ser superada.” Quem pratica uma atividade outdoor com freqüência reconhece esses sentimentos imediatamente.

Outra vantagem deste treinamento, é que os resultados são imediatos, pois são conseqüências diretas das decisões tomadas pelo grupo no momento em que a adversidade é encarada. Além disso, a retenção do aprendizado pelos profissionais é muito maior do que em treinamentos convencionais, visto que a dinâmica das atividades é marcante para quem não está familiarizado com essa rotina de desafios extremos, utilizando a aventura como meio para o aprendizado.

Agora, atenção. O outdoor training é uma metodologia de treinamento que envolve uma série de procedimentos e responsabilidades para com os participantes. As empresas especializadas são formadas por equipes multidisciplinares especialistas em estudos das organizações, psicologia e educação executiva, que acumulam experiência, conhecimento e tecnologia para auxiliar no auto-desenvolvimento dos clientes. Após as atividades, os resultados são analisados e um relatório de comentários e sugestões é meticulosamente trabalhado, garantindo a absorção e continuidade do conhecimento adquirido. Como em toda proposta boa e inovadora, diversos “aventureiros” vêm oferecendo serviços semelhantes no mercado, porém sem nenhuma técnica ou preocupação educacional. A metodologia dos aproveitadores de situações é simples: jogar os profissionais em situações extremas sem qualquer apoio além da segurança física e “ver o que acontece”. O resultado é a geração de traumas difíceis de serem reparados no futuro e uma frustração óbvia com o serviço prestado, desacreditando as empresas sérias do setor e ameaçando este mercado.´

Saindo um pouco desta selva de pedra que é o mundo corporativo (do qual faço parte nos dias úteis), fico cada vez mais satisfeita com os benefícios agregados que a prática de uma atividade outdoor me trouxe. Se você é um praticante, tente relembrar como era a sua postura em algumas situações antes e avalie o “depois” de ter ingressado nesse mundo outdoor. Não tenho a pretensão de identificar resultados com a mesma profundidade que uma consultoria especializada o faria, mas consigo ver, por exemplo, que hoje lido com mais tranqüilidade em situações de desafio ou sob pressão que antes me deixavam desesperada (algumas pessoas me dizem que isso é porque “quem escala tende a ser hippie”, mas quem me vir durante a semana dificilmente me confundiria com uma…). Apesar de ter me especializado em planejamento estratégico, sei que hoje essa minha habilidade ganhou um diferencial que antes eu não identificava, que é olhar mais para fora do problema na hora de buscar soluções (na faculdade eles dizem isso também, só não explicam como funciona).

Portanto, aproveite! A boa notícia é que além de ter a satisfação de ser apaixonado pelo seu esporte outdoor e colher todas as maravilhas que ele proporciona sem que você tenha pedido por isso, você hoje pode estar mais preparado para a dinâmica deste mercado corporativo que muita gente por aí. Você pode ainda estar levando um pedacinho desta realização para o seu dia-a-dia profissional. E o mais interessante: o mercado pode estar procurando justamente gente como você. Podia ser melhor?

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