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Reunião

Departamento ultramarino de Reunião, da França, abriga um dos mais ameaçados ecossistemas insulares do mundo. Criação de parque único protege toda a área.

24 de junho de 2005 · 16 anos atrás

Existem no mundo 34 “hotspots”. Os “hotspots” são áreas de excepcional biodiversidade e elevadas taxas de endemismo que encontram-se seriamente ameaçadas de desaparecimento (todos os “hotspots” já perderam mais do que 75% da sua cobertura original). Mesmo somadas, as três dezenas e meia de “hotspots” ocupam apenas 2,3% da superfície da Terra, mas são habitat para 75%dos mamíferos e aves mais ameaçados de extinção do planeta, bem como para 50% da flora e 40% das espécies vertebradas já catalogadas pela ciência. Para ser classificado como “hotspot” um ecossistema precisa abrigar no mínimo 1.500 espécies florísticas endêmicas, o que equivale a 0,5 % do total identificado no mundo. Há dois “hotspots no Brasil: o Cerrado e a Mata Atlântica”.

Dentre todos os países do mundo, a França é o que abriga maior quantidade de “hotspots”, nem tanto por seu território europeu mas pelas ilhas que conquistou ao longo dos séculos e manteve submetidos a Paris até os dias de hoje. São “hotspots”, a Polinésia francesa (Taiti, Moorea, Bora Bora e ilhas associadas), os territórios insulares caribenhos de Guadalupe, Martinica e São Martinho, a Nova Caledônia , a ilha de Mayotte no Oceano índico, a própria bacia mediterrânea do território europeu da França e o departamento ultramarino de Reunião.

Reunião, assim como Maurício e Rodrigues, é uma ilha vulcânica integrante do arquipélago das Mascarenhas, próximo a Madasgacar. Com uma área de 2.512 km2, é produto de uma estrondosa explosão vulcânica, ocorrida há pouco menos de 3 milhões de anos. Como resultado, elevaram-se em alto mar dois enormes vulcões em forma de cone, cujas lavas escorreram em convergência, unindo-os em uma só ilha pela. Um deles, o Piton de Neiges (foto), com 3069 m de altitude, é o ponto culminante do Oceano Índico.

Uma vez que jamais esteve ligada a nenhum continente, a Ilha de Reunião tem uma flora e fauna únicas. Seu ecossistema foi formado a partir de espécies que migraram de Madasgacar ou das ilhas geologicamente mais antigas das Mascarenhas. Uma vez aí estabelecidas em novas condições, essas espécies evoluíram para formar novas espécies e sub-espécies que hoje não podem ser encontradas em nenhum outro lugar do mundo. De fato, o endemismo de Reunião é muito mais marcante do que de outras ilhas vulcânicas em situações semelhantes (três vezes maior do que o do Havaí e cinco vezes maior do que o de Galápagos).

Sem contar os musgos e liquéns que ainda não foram catalogados, a flora de Reunião conta com 904 espécies endêmicas das Mascarenhas. Delas 160 só existem na Ilha francesa, 50 das quais estão ameaçadas de extinção. Entre a fauna, há 20 espécies de moluscos que só existem em Reunião. Entre os 33 passáros que pairam sobre os céus reunioneses, 50% são endêmicos. As duas únicas espécies de reptéis encontradas em Reunião não existem em nenhuma outra parte do mundo. Também entre os insetos e coleópteros o endemismo de 39% é um os mais altos do mundo.

Esse espetacular ecossistema está, entretanto, seriamente ameaçado de extinção. Em apenas 350 anos após a chegada do homem, as férteis regiões costeiras de Reunião foram completamente antropomorfizadas e degradadas. No processo, graças a introdução de predadores exóticos e à caça indiscriminada, quase metade das cerca de 70 espécies vertebradas endêmicas, já desapareceram da ilha. Das cinco espécies de mamíferos existentes quando do início da colonização, só restaram duas. As demais estão extintas. Entre os diversos sub-ecossistemas da parte inferior da ilha, alguns já estã irreversivelmente degradados. Esse é o caso da vegetação semi-árida de baixa altitude, que subsiste em meros 1% de sua superfície original.

Nas altas regiões acima da cota 500, contudo, há algo que preservar. Ali, 30% da superfície ainda retêm significativos fragmentos de espécies nativas. Pode parecer pouco, mas comparada aos 2% que restauram em Rodrigues e aos 5% que ainda estão de pé em Maurício, as outras duas ilhas das Mascarenhas, Reunião está bem conservada. Ao todo, são 75 mil hectares de florestas que ainda estão de pé, 40 mil deles em estado primário.

Para impedir que este magnífico patrimônio continue a ser devastado, desde o princípio deste milênio, ambientalistas de Reunião têm liderado um movimento com vistas à proteção em um só Parque Nacional de todo o ecossistema nativo remanescente. O Parque incluirá não sómente as florestas mas também os outros ecossistemas significativos de Reunião, bem como as terras quentes e estéreis do vulcão Piton de la Fournaise, de 2632 metros de altitude, que ainda está ativo. Ao todo, o novo Parque terá uma área de 107 mil hectares, equivalentes a aproximadamente 40% da ilha. Entre os anos 2000 e 2003 foram discutidas diretrizes e feitas diversas consultas públicas. Em 2004, o Primeiro Ministro da França encampou a idéia e oficializou o projeto de criação do Parque Nacional da Reunião. Em 2004, foi iniciada a elaboração do plano de manejo, cuja conclusão este ano, finalmente propiciará o decreto de criação do Parque em 2006.

Quase uma unanimidade entre os cerca de um milhão de habitantes da ilha, o Parque, no entanto, não vai ser de fácil implantação. A área que ocupa é uma sopa de espécies nativas, temperada por rebanhos de cabras e vacas e por vastas plantações de pinheiros. Há hoje, no ecossistema de Reunião mais espécies exóticas naturalizadas –cerca de mil- do que espécies nativas das Mascarenhas. Cerca de meia centena já se tornaram invasoras. Duas dúzias delas são reconhecidas como as mais agressivas do planeta. Entre as espécies exóticas que ameaçam a área proposta para virar Parque Nacional estão a goiabeira brasileira (psidium cattleianum), o tabaco-boi o (clidemia hirta), o cervo de Java, o rato europeu e o merlo da ilha Maurício.

Outros problemas que persistem são a extração ilegal do palmito nativo e a caça indiscriminada de um dos poucos mamíferos endêmicos do “hotspot”, o tangue. A caça ao pequeno roedor, apesar de rigorosamente regulamentada, segue sendo feita ilegalmente por meio de armadilhas. Para estancar a matança, campanhas de conscientização do público têm estimulado denúncias às autoridades. Em março, quando o colunista visitava a Ilha, ao investigar uma destas denúncias, a polícia apreendeu mais de 30 tangues recém abatidos e prontos para serem comercializados.

Mesmo com tantos obstáculos a vencer, Patrick Meguell, pousadeiro da vila montanhosa de Hellboug está otimista: “com os fundos da União Européia, havemos de ser bem sucedidos!”.

É possível. Com 100 funcionários de carreira e 650 terceirizados, o Parque tem mais chance de sucesso que suas contrapartes brasileiras de tamanho equivalente. Com efeito, é possível ver o dinheiro da União Européia por toda parte. As estradas e trilhas estão bem mantidas, os planos de manejo estão atualizados e a fiscalização é presente.

Para disciplinar os cerca de 80 mil excursionistas que caminham todos os anos pelos quase mil quilomêtros de trilhas do Parque, foram criadas duas rotas de longo curso, a GRR (1) de 60 km, e a GRR2, de 135 km.

Foi a forma encontrada pelo Office National des Fôrets-ONF, órgão que cuidará da área até que o Parque até seja formalmente implantado, para paulatinamente reduzir a quantidade de trilhas que causem impacto ao meio ambiente.

Como explica Michel Escure engenheiro florestal do Office National des Fôrets-ONF, as GRs são as grandes vedetes de Reunião. “Ficaram prontas em um dia; no dia seguinte, todo mundo só quer percorrê-las. Do ponto de vista do manejo é ótimo. Sabe-se que o público vai onde está a GR. Assim, para proteger áreas sensíveis, basta direcionar o traçado da GR para evitar passar por elas e colocá-las atravessando áreas que possam absorver maior impacto”. Mesmo causando pouca degradação, as GRs passam por vales espetaculares, cachoeiras que se despencam de centenas de metros, florestas verdejantes e sobem em ambos os vulcões da ilha.

O governo francês tem apostado nas GRs para ajudar a implantar o Parque. Se por um lado, chamam atenção dos 80 mil caminhantes que as percorrem anualmente para a importância do ecossistema reunionês, por outro criam uma alternativa econômica à agro-pecuária tradicionalmente praticada pelas populações radicadas há mais de um século no interior do futuro Parque. Para organizar o fluxo de excursionistas pelos 200 km das duas GRs, foi criada uma associação de pousadeiros, representada em Saint Denis capital de Reunião pela de Maison de la Montagne Lá, há uma equipe à disposição dos turistas-caminhantes que ajuda a planejar os itinerários e reservar acomodação.

Estamos falando de belas pousadas, com aquecimento, camas confortáveis, e lautas refeições. Tudo incentivado pelo Governo francês que dá pequenos empréstimos para facilitar a conversão de casas de agricultores e pastoralistas só alcançáveis por trilhas ou por helicóptero em pequenas pousadas a serviço do desenvolvimento sustentável. Entre as melhorias subsidiadas pelo Estado está a implantação de painéis de energia solar em cada nova pousada ao longo da GR. Com isso, as populações tradicionais passam a ter acesso a geladeira e luz elétrica; recebem melhor o turista e não dependem mais de lenha para gerar energia. O objetivo final é que os serviços ecoturísticos substituam as atividades agro-pastoris hoje praticadas pelos cerca de 900 habitantes do Parque. Analogamente, espera-se que a atividade turística compense economicamente a perda finaceira advinda do término da exploração madereira de espécies nativas e exóticas, ainda praticada pesadamente, apesar da proximidade da data de implantação do Parque (foto).

Como declarou Michel Escure: criar um Parque Nacional é uma coisa; implementá-lo é outra. Com tantas pesoas morando na área designada para ser Parque e a profusão de espécies exóticas em toda Reunião, será um grande desafio tirar o nome Parque Nacional do papel e transformá-lo em realidade. Ainda assim, o projeto do Parque é uma iniciativa louvável: antes um Parque imperfeito do que nada. Se a tarefa é árdua, não é impossível, e se o empreendimento é tardio, ainda vem a tempo de produzir resultados relevantes e duradouros do ponto de vista da conservação. O esforço é justificado; afinal a Reunião é um dos dez ecosssitemas insulares mais ameaçados do mundo.

(1) Grand randoné reunionais (Trilha de longo curso reunionesa).

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