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Vanuatu, um paraíso sitiado

Pequeno paraíso no Pacífico Sul formado por 83 ilhas, Vanuatu resistiu até a passagem da II Guerra Mundial. Hoje, enfrenta sua herança em terra e se beneficia dela no mar.

13 de agosto de 2004 · 17 anos atrás

Vanuatu é um país. Um pouco fora do radar do Brasil e do mundo, mas ainda assim um belo país. Fica no Pacífico Sul, mais precisamente, na Melanésia, entre as ilhas Fiji e a Austrália. Antes da independência, que veio em 1980, era conhecido pelo nome europeizante de Novas Hébridas. Seu território de 12.336 mil quilômetros quadrados, espalha-se por 83 ilhas.

Sua economia é pobre. Vive basicamente de copra, cacau, gado e turismo. Sua natureza, por outro lado, é rica. Muito rica. Em terra, as ilhas estão cobertas por exuberante floresta tropical marcada por elevadas taxas de endemismo. No mar, Vanuatu encerra uma das mais ricas comunidades coralíneas de todo o planeta. Em uma realidade mundial em que a indústria do turismo – especialmente o ecoturismo- cresce a taxas anuais sempre mais elevadas do que a economia como um todo, era de se esperar que os 175 mil habitantes de Vanuatu tivessem um belo futuro à sua frente.

Infelizmente, esse talvez não seja o caso. Embora a atividade ecoturística em Vanuatu esteja cada dia mais forte graças a responsáveis e consistentes investimentos em infraestrutura e divulgação, seu principal atrativo- a natureza marinha- está em perigo.

A ameaça, diferentemente da floresta local, não é endêmica, mas tem raízes exóticas. Nem sempre Vanuatu esteve fora do radar. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu de base para as forças armadas americanas, que a partir do arquipélago montaram sua plataforma militar contra o avanço japonês no Pacífico Sul. Em apenas 3 meses levaram para lá 100 mil soldados e marinheiros. Revolucionaram a economia local, em especial a da Ilha de Espiritu Santu, a maior do país. Construíram aeroportos, estradas, hospitais, galpões, até cinemas. O lugar virou um pequeno Estados Unidos nos Mares do Sul. Um dos americanos que ali serviu durante o conflito, o escritor James Mitchener, registrou esse momento para a posteridade no belo livro “Tales of the South Pacific”.

Encantou-se com o lugar. Não era para menos. A floresta úmida de Vanuatu, que ainda hoje cobre cerca de 75% do território total do país, enfeitiçaria qualquer um. Apesar de sua insularidade, ela abriga mais de 1500 espécies vegetais, entre as quais são dignas de nota os 250 tipos de samambaias e as 148 variedades de orquídeas, das quais duas dezenas são endêmicas. Também é nativa da região a Banyan, uma árvore fabulosa, cuja copa chega a ter 70 metros de diâmetro.

O panorama subaquático não é menos variado. Vanuatu é considerado um dos maiores santuários de coral do mundo. Em um rápido mergulho, é possível ver mais de 300 espécies de corais com diferentes formas e cores. Golfinhos, tartarugas, peixes-boi e cerca de 450 tipos de peixes fazem deste fabuloso fundo coralíneo sua casa e completam a cena.

Assim, não surpreende que Vanuatu atraia mergulhadores do mundo inteiro. Na pauta do turismo receptivo, o mergulho é um dos maiores geradores de renda.

Um dos locais mais procurados para essa prática chama-se One Million Dollar Point: maravilhoso sob o prisma turístico; um crime sob o aspecto ecológico. Explica-se: ao final da Segunda Guerra Mundial, os americanos se viram às voltas com enormes quantidades de material bélico estacionado na distante ilha de Espiritu Santu, repentinamente sem uso futuro. Repatriar esse material não fazia sentido, pois além de ser operação caríssima, terminado o conflito, a necessidade para tanto armamento também cessara. Tentou-se então vender o equipamento, sobretudo os jipes e caminhões, aos colonos de Vanuatu. Os preços eram baixos para os padrões dos Estados Unidos, ainda assim proibitivos para a população local, que recusou a oferta. Sem ter conseguido vendê-lo (a opção de doá-lo a um povo que ajudou o esforço de guerra americano nunca foi seriamente considerada) e sem ter interesse em transportá-lo de volta para os Estados Unidos, o exército optou pela solução mais simples: “varrer a sujeira para baixo do tapete”. Antes da partida das forças militares, tratores dirigidos por soldados empurraram todo o material bélico para dentro do mar. No processo destruiu-se grandes seções de coral.

Crime ecológico? Com certeza, mas de positivas conseqüências econômicas: de maneira um tanto bizarra, o lugar é hoje um dos mais concorridos à prática do mergulho. Nadadores subaquáticos dos diversos continentes visitam Vanuatu todos os anos para mergulhar entre tanques de guerra, caminhões, capacetes, jipes, fuzis, canhões e outros artefatos bélicos. O coral, resistente, já começa a crescer novamente junto e sobre os objetos naufragados. Seria belo se não fosse trágico.

Mas, se os corais resistiram ao exército norte americano, tudo indica que não serão capazes de vencer as emissões de CO 2 dos principais complexos industriais do planeta. Pesquisadores australianos calculam que, mantido o padrão de aumento de temperatura dos oceanos, causado pelo efeito estufa, os corais começarão a perder cor e variedade a partir de 2015. Em 2050, apenas 5% do coral do mundo estará vivo. Buscam-se soluções. A saída para o aquecimento global não pode ser encontrada no âmbito exclusivo de Vanuatu. Ela depende da redução das emissões de CO2 na atmosfera, algo acordado internacionalmente, ainda que de forma mínima, no âmbito do Protocolo de Quioto, que, diga-se de passagem, ainda não foi ratificado pelo maior poluidor mundial, os Estados Unidos.

Mortos os corais, sobra a floresta. A Segunda Guerra Mundial, contudo, não trouxe apenas soldados americanos. Com eles, veio também a American Vine, uma trepadeira nativa do sul dos Estados Unidos, introduzida para prover camuflagem contra os eventuais ataques da aviação japonesa. De rápido crescimento, a American Vine adaptou-se muito bem ao paraíso dos Mares do Sul. Bem demais.

Hoje camufla a floresta nativa de Vanuatu. Um rápido sobrevôo da principal ilha do arquipélago, Efate, dá a real dimensão do problema. Vastas áreas da floresta de baixada encontram-se completamente encobertas pela erva exótica. Rouba-lhe a luz do sol e parte dos nutrientes. Especialistas temem que em menos de duas décadas toda a vegetação de Efate esteja completamente coberta. A seguir, a floresta natural de Vanuatu começará a morrer sufocada.

Na corrida para salvar sua biodiversidade, o Governo de Vanuatu faz o que pode. Com apoio financeiro da agência alemã Global Environmental Facility-GEF, foi recentemente implantada a primeira unidade de conservação do país, a Vathe Conservation Area. É pouco, ainda faltam dinheiro e técnicos; não há recursos. Também não há americanos. Os EUA que tantos soldados tiveram em Vanuatu, hoje sequer têm ali uma Embaixada.

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