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Ecoparto

Num país em que 80% dos partos ainda são por cesárea, cresce outra forma de ter filhos. Seguir as regras da mãe natureza não é privilégio de índio e bicho-grilo.

21 de março de 2006 · 15 anos atrás

Ao todo, foram quase nove horas de trabalho. Trabalho árduo, sem trégua para o cafezinho. A empreitada que trouxe ao mundo Danilo, hoje com 1 ano e 2 meses, foi longa. A mãe, a enfermeira-obstetra Laetitia Plaisant, resolveu que seu primeiro filho nasceria em casa – sem médico, sem bisturi, sem luzes brancas, sem cheiro de éter. E assim foi, com a ajuda do marido, da parteira Heloisa Lessa, que tem 15 anos de experiência no assunto, e algumas bacias de água.

Durante as horas intermináveis em que Danilo teimava em continuar no conforto do útero, Laetitia administrava sua dor. Não conseguia se deitar. As únicas posições em que encontrava algum alívio eram de cócoras ou sentada. Cada vez que tentava se recostar na cama, punha-se correndo de joelhos, instintivamente. Depois que o bebê, enfim, deu o ar de sua graça, o mistério foi solucionado: o cordão umbilical de Laetitia era muito mais curto do que o normal. “Acocorada ou sentada, portanto encolhida sobre mim mesma, eu, por instinto, diminuía a distância entre o ponto em que o cordão se ligava à placenta e o umbiguinho do Dani. A natureza é sábia”, lembra.

A cena acima parece coisa do tempo da vovó. E, de fato, é: coisa do tempo das nossas avós e bisavós. Quem me relatou a cena foi Laetitia, a protagonista. Encontrei esta figura corajosa numa conferência sobre a humanização do parto. Os defensores do parto natural, aquele em que simplesmente seguimos as regras e o relógio da natureza, afirmam que este deveria ser um evento médico somente nas situações de risco. “Para que cada vez menos se recorra à intervenção cirúrgica, a mulher deve tomar posse de seu parto, saber que seu corpo é perfeito para gerar e dar à luz uma criança”, diz Ana Cristina Duarte, que há quatro anos trabalha como “doula”, uma espécie de enfermeira especializada em acompanhar a mãe nos últimos meses da gestação e no momento do parto.

Olhando para as estatísticas, parece mesmo que a mulher brasileira esqueceu como é que se fazia antigamente. E olha que eu, até ter acesso às informações seguintes, seria a primeira a dizer não ao “ecoparto”. Nos hospitais privados país afora, a taxa de cesarianas chega a 80%, sendo que a porcentagem recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 15%. A desproporção entre cesariana e parto normal causa ainda mais arrepios se os números forem comparados a outros países, como o Japão, onde apenas 5% dos partos são cirúrgicos, a Inglaterra, onde as cesarianas ficam em apenas 8%, e os Estados Unidos, onde a taxa é de 25%.

O relógio e o bolso

Por que parir virou sinônimo de bisturi? A explicação é simples: os médicos apostam na cesariana para controlar o tempo — e a conta bancária. Mesmo sendo considerada mais arriscada, a cesárea é a preferida de boa parte dos obstetras por ser bem mais rápida do que o parto normal ou natural — e com o mesmo custo. “O trabalho do parto vaginal pode demorar oito, nove, dez horas. Já a cesárea leva uma hora. E o médico recebe o mesmo valor pelos dois”, afirmou Thomas Gollop, professor da USP e médico no hospital Albert Einstein em reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo. Se por um lado o médico tem pressa, nós não somos vítimas da correria alheia. Somos parceiras de corrida, já que também embarcamos na onda do controle do tempo.

Nós, homens e mulheres, fomos criados para acreditar que médico é sinônimo de segurança e conforto. E parto natural, ao menos para mim, até ontem, era coisa de quem diz não aos avanços e comodidades da medicina moderna, de quem se permite sentir dor em pleno século 21. E mais: marcando a data do nascimento podemos nos dar ao luxo de escolher o signo da criança, marcar as férias do marido e etc. Enfim, a surpresa era toda pretensiosa e previamente calculada.

O parto humanizado tem algumas características que o diferenciam do parto normal praticado nos hospitais e maternidades. Nas casas de parto ou em casa, quem opta por um parto humanizado pode caminhar, comer, beber, tomar banho e receber massagens. A posição do parto, seja na água, deitada ou de cócoras é escolhida pela mãe. Acompanhantes podem estar presentes em qualquer momento. Enfermeiras e parteiras acompanham o pré-natal e todo o parto. Após o nascimento, o bebê não é separado da mãe, não leva tapinha na bunda, não fica pendurando de cabeça pra baixo nem é abruptamente levado para longe do canto onde viveu por 9 meses.

Enfim, parto humanizado é parto natural, sem dramas e intervenções médicas, salas de cirurgia, holofotes, soro e etc. Parto humanizado é o que um parto jamais deveria ter deixado de ser: coisa de mãe e filho. Administrar a dor e o medo faz parte do processo. Aliás, lidar com medo e dor, pra quem vive num país como o nosso, é sopa!

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