Bananal à americana

Marcos Sá Corrêa
Marcos Sá Corrêa

Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

quarta-feira, 1 setembro 2004 18:46

Se tudo der certo, este texto provavelmente será, quando crescer, uma nota de pé de página na coluna que Maria Tereza Pádua fez aqui neste site sobre os estragos que os índios andam fazendo na Ilha do Bananal. Por enquanto, ele pretende no máximo marcar a coincidência que associa as queimadas do Araguaia à história contada pelo fotógrafo americano Robert Glenn Ketchum sobre o parque estadual de Wood-Tikchik, no Alasca.

Trata-se, segundo Ketchum, de um dos lugares selvagens mais espetaculares do mundo. E ele não é um paisagista qualquer, mas um fotógrafo que considera sua câmera um instrumento de conservação da natureza e suas viagens, o roteiro de um programa ambiental. De quebra, fotografa muito bem, como se pode constatar em seus livros sobre o Alasca, nas reportagens que volta e meia falam de seu trabalho na revista Outdoor Photographer ou, para quem não quer esperar tanto, na página que ele mantém neste endereço da internet: http://www.robertglennketchum.com/Pages/Photographs/PhotoMain.htm.

Wood-Tikchick, o assunto de seu último livro, é o maior parque estadual dos Estados Unidos. Seu nome, meio americano, meio indígena, combina em sua mistura de sotaques o Lago Wood com os lagos Tikchick. E seu território, maior que o estado de Washington, tem mais de um dono. É em parte terra pública e em parte, reserva indígena. Ou pior: pelo Ato de Concessão de Demandas Nativas de 1971, boa parte daquele filé do Alasca foi repartido entre aldeias e federações indígenas.

Presumia-se, na época, que essas lugares ficariam nas mãos de famílias nativas. Mas os jovens tinham outras idéias, segundo Ketchum. Saíram para fazer universidade fora e, diplomados, mudaram-se para as cidades onde os empregos eram melhores e a vida mais animada. Na aldeia, ficaram os mais velhos, lidando a duras penas com a concorrência internacional ao salmão que eles sempre pescaram nos rios gelados do Alasca.

De produto nobre e raro, o peixe virou um bicho mais ou menos comum, que se cria em fazendas chilenas e freqüenta sem muita cerimônia os sanduíches de qualquer boteco ao redor do mundo. Em compensação, com a mudança do mercado, os moradores de Wood-Tikchick passaram a encontrar, na porta de casa, o mais natural dos motivos para lotear as reservas que o governo deu para eles. Ou seja, começaram a ser visitados por empresários, propondo negócios imobiliários.

Ketchum lembra que a região é muito atraente para quem pretende investir em mineração, petróleo e gás. Ou seja, nos negócios mais poluentes do planeta. A grande liquidação de Wood-Tikchick ainda é só uma ameaça. O parque está cercado por campanhas de ambientalistas, que procuram urgentemente uma saída para a enrascada econômica em que o salmão meteu os modos de vida tradicionais do Alasca. Na pior das hipóteses, encontrando alternativas menos agressivas que a pura e simples venda das terras ao primeiro interessado. Por exemplo, o eco-turismo. Na melhor das hipóteses, levantando doações para comprar eles mesmos as fatias de reserva, antes que um aventureiro qualquer o faça.

Daí, os livros que Ketchum vem fazendo há cinco anos. Ele é um ativista desse esforço dos caras-pálidas para garantir o futuro de Wood-Tikchick. Ele espera, com sua fotografia, atrair turistas para lá. O lugar, pelo que se vê nas imagens, é mesmo de uma beleza espantosa e selvagem. Tem poucas estradas. Absoluta falta de acomodações. Longos invernos gelados. Curtos verões. Mas, sobretudo, como os índios, tem pressa.

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