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Novo ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Araújo. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

Escolhido para ser novo ministro das Relações Exteriores no governo Bolsonaro, o diplomata Ernerto Araújo considera as mudanças climáticas ‘uma ideologia’ criada pela ‘esquerda’. O novo chanceler foi anunciado na quarta-feira (14) para comandar o Itamaraty. É a primeira vez que o cargo será assumido por um cético climático.

Em um blog mantido por Araújo, ele afirma que a defesa das mudanças climáticas é uma “tática global servindo para justificar o aumento do poder regulador dos Estados”. Segundo o diplomata, essa tática impõe restrições econômicas e políticas sobre os Estados nacionais, “bem como para sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e favorecer o crescimento da China", diz um trecho do texto.

“O climatismo é basicamente uma tática globalista de instilar o medo para obter mais poder. O climatismo diz: “Você aí, você vai destruir o planeta. Sua única opção é me entregar tudo, me entregar a condução de sua vida e do seu pensamento, sua liberdade e seus direitos individuais. Eu direi se você pode andar de carro, se você pode acender a luz, se você pode ter filhos, em quem você pode votar, o que pode ser ensinado nas escolas. Somente assim salvaremos o planeta. Se você vier com questionamentos, com dados diferentes dos dados oficiais que eu controlo, eu te chamarei de climate denier e te jogarei na masmorra intelectual. Valeu?”, escreveu Araújo.

Ainda segundo o novo chanceler, a causa ambiental nasceu de um “movimento conservador por excelência”, mas que foi sequestrado pela esquerda, que a ‘perverteu’.

Contestação

Em nota, o Observatório do Clima, coalizão que reúne organizações brasileiras que discutem mudanças climáticas, afirmou que a nomeação de Ernesto Araújo contraria “uma longa tradição da política externa brasileira”.

"A diplomacia brasileira tem na defesa do multilateralismo um de seus pilares e, nos últimos 46 anos, vem se valendo do multilateralismo para projetar o Brasil na cena internacional em um dos poucos espaços nos quais o país é líder nato: a agenda ambiental".

Leia a nota do Observatório do Clima na íntegra

É estarrecedora a escolha do embaixador Ernesto Araújo como ministro de Relações Exteriores. Sua nomeação contraria uma longa tradição da política externa brasileira e traz o risco de tornar o Brasil um anão diplomático e um pária global. O radicalismo ideológico manifesto nos escritos do futuro ministro cria, ainda, uma ameaça para o planeta, ao negar a mudança do clima e, presumivelmente, os esforços internacionais para combatê-la.

Araújo tem expressado posições fortes contra a globalização e contra o multilateralismo. Em nome dessa ideologia, e contrariando as evidências mais rasteiras, chama em seu blog Metapolítica 17 o combate à mudança climática de perversão da esquerda. Invoca uma teoria conspiratória segundo a qual existe um projeto “globalista” de transferir o poder do Ocidente para a China (uma contradição em termos). Parte desse grande complô seria o “climatismo”, que é como ele chama o esforço mundial para reduzir emissões de carbono – empreendido por líderes de todas as faixas do espectro político e com base em décadas de conhecimento científico acumulado.

Tal pensamento, caso prevaleça sobre o ofício do chanceler, será prejudicial ao Itamaraty e ao papel do Brasil no mundo. A diplomacia brasileira tem na defesa do multilateralismo um de seus pilares e, nos últimos 46 anos, vem se valendo do multilateralismo para projetar o Brasil na cena internacional em um dos poucos espaços nos quais o país é líder nato: a agenda ambiental.

O Itamaraty foi o primeiro ministério a entender como o patrimônio natural brasileiro é um dos ativos mais importantes dos tempos modernos. O Brasil foi protagonista na Conferência de Estocolmo, em 1972; foi berço das grandes convenções de ambiente e desenvolvimento sustentável da ONU e da Agenda 21, em 1992; liderou na defesa dos países em desenvolvimento no Protocolo de Kyoto, em 1997; foi o parteiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em 2012; e negociador fundamental do Acordo de Paris, em 2015. Agora, está escalado para sediar a próxima conferência do clima, a COP25, em 2019.

Abdicar essa liderança em nome de uma ideologia de tons paranoicos contrariaria diretamente o interesse nacional, que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, prometeu colocar “acima de tudo” em sua campanha. Sendo o Brasil o sétimo maior emissor de gases efeito estufa do planeta, também poria em risco enormes porções da população global – inclusive no Ocidente, como demonstram os recentes incêndios florestais na Califórnia – num momento em que a melhor ciência nos diz que temos apenas 12 anos para prevenir os piores efeitos da crise do clima.

Resta esperar que o cargo e suas responsabilidades tornem o chanceler Ernesto Araújo muito diferente do blogueiro Ernesto Araújo.

 

Saiba Mais

Nota Observatório do Clima - Escolha de Ernesto Araújo para chanceler põe em risco liderança ambiental brasileira

Sequestrar e perverter - Blog Metapolítica 17 - Ernerto Araújo

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