Palmilhando
Pelas trilhas do Brasil e do mundo, Pedro da Cunha e Menezes conta as últimas novidades de manejo em unidades de conservação e dá dicas sobre destinos de viagens de aventura.

O ponto culminante da Holanda e o Rei que pode virar Rainha

Pedro Cunha e Menezes
quinta-feira, 11 agosto 2011 16:08

 

No norte da Europa existe uma pequenina nação cujo nome oficial é “Países Baixos”. Trata-se de um lugar aprazível (ainda que frio), de gente bonita, alto índice de desenvolvimento e um futebol tri-quase campeão do mundo. O nome não é desprovido de razão. Cerca de 20% do seu território estão abaixo do nível do mar, em terras que foram subtraídas aos oceanos por meio de um elaborado sistema de canais e diques.

Ser montanhista na Holanda é mais ou menos como se meter a esquiador no Brasil. É necessário ter grana e disposição para viajar ao estrangeiro. A maioria dos trilheiros flamengos vai aos Alpes, alguns buscam a Ásia, uns poucos se deslocam até o Caribe. Só esses últimos poderão assinar seu nome no livro de cume do ponto mais alto de seu próprio país. Isso mesmo, o ponto culminante do Reino dos Países Baixos fica em uma ilha das Caraíbas, mais precisamente em Saba, que juntamente com Santo Eustáquio e São Martinho forma um dos dois conjuntos de territórios neerlandeses na América, conhecido como “3S” (o outro conjunto é formado pela tríade Aruba, Bonaire e Curaçao: o ABC.

E os sabões (ou seriam os sabidos?) não se fazem de rogados. Transformaram esse pico em um dos maiores atrativos da ilha. Aliás, não somente o o Monte Scenery e os seus 877 metros de altitude, mas praticamente toda a rica natureza de Saba, acima e abaixo d´água, é hoje a principal provedora local de emprego e randa.

Saba é uma ilhota vulcânica de apenas 13 km² e 1.500 habitantes. A parte saborosa que está acima do nível do mar é o topo de um enorme vulcão adormecido, mas ainda jovem. Ainda não houve tempo para que a ação erosiva dos elementos esculpisse nele praias e vales profundos. Saba caracteriza-se pelas suas formas abruptas. Ali a terra encontra-se com o mar em falésias de até 100 metros altura. Há escassez de água doce corrente e poucas áreas planas onde seja possível arar ou construir habitações. Grande parte da ilha é formada por encostas que, em sua maioria, têm até 60º de declive.

Por isso mesmo tudo é difícil em Saba. A sua geografia impôs-lhe um processo de desenvolvimento muito mais vagaroso que o do mundo em geral. Sem rios que possibilitassem a construção de barragens ou grandes espaços para a edificação de uma usina térmica, Saba teve que esperar até a década de 1960 para poder iluminar suas casas e escritórios com luz elétrica, mesmo assim apenas durante a noite. Somente em 1970, a eletricidade passou a ser fornecida 24h por dia.

A primeira e única rodovia do território, conhecida localmente como “A Estrada Impossível” só foi construída em 1943. Até então considerava-se fora de questão conectar o norte e o sul de Saba com uma via carroçável. Apesar disso, como o atracadouro da ilha é muito pequeno e bastante suscetível a qualquer mar um pouco mais revolto, ainda demorou mais quatro anos até que o primeiro carro desembarcasse na ilha, o que só ocorreu em 1947.

Já, o primeiro avião pousou em 1959. O aeroporto local, cuja pista tem curtos 400 metros de extensão, é o menor aeródromo comercial do mundo (veja aqui ou aqui). Aterrissar em Saba é a primeira aventura de quem visita a ilha. Da janela da aeronave é impossível ficar calmo. Ao leigo parece que, na pior das hipóteses, o avião vai se espatifar contra os contrafortes rochosos sabáticos. No melhor dos casos, o passageiro prepara-se para nadar, pois parece impossível que o avião consiga terminar o pouso dentro da pista, sem acabar dentro d´água.

Embora Saba tenha sido avistada por Cristóvão Colombo em 1493 e, como tal, incorporada ao império espanhol, sua colonização só começou em 1640, quando a Holanda, então em guerra contra Madrid, enviou um punhado de agricultores à ilha.

Daquele ano até até a década de 1920, todos os gêneros importados e exportados eram transportados por trabalhadores do cais, no nível do mar, até as pequenas vilas na parte alta de Saba, por trilhas íngremes e escorregadias. Em 1925, o governo introduziu jegues cujo lombo passou a fazer essa tarefa árdua. Hoje esse complexo de 14 trilhas abertas pelos colonos desde o princípio da ocupação européia ainda é usado como meio de ligação entre os diversos pontos de Saba, formando uma rede viária sui generis. Com a criação da Saba Conservation Foundation, em 1987, essas picadas históricas foram recuperadas com recursos doados pelo WWF da Suíça. Hoje, as trilhas estão em estado impecável, pois sua manuntenção é assegurada por um pedágio de US$ 3, pagos pelos turistas para percorrê-las. Os caminhos percorrem a totalidade de Saba e são uma marca registrada da Ilha, cujo relevo proporciona vistas de tirar o fôlego (infelizmente vou ficar devendo fotografias ao leitor, pois perdi minha câmera com as fotos da parte terrestre dessa viagem).

Trilhar os caminhos sabichões é um dos grandes prazeres da ilha. Embora seja pequena, Saba abriga 60 espécies de pássaros e uma espécie endêmica de lagarto, o anole (Anolis sabanus) além de várias espécies de fauna e flora endêmicas do Caribe. Diferentemente do arquipélago “ABC” que é muito seco, o “3S” caracteriza-se por uma vegetação luxuriante e com grande bio-diversidade, ainda que seriamente impactada por uma profusão de exóticas invasoras, introduzidas pelos colonizadores.

Enquanto a Saba Conservation Foundation se esforça para lidar com o impacto das espécies exóticas, há uma parte do território onde sua presença ainda não se faz sentir. Trata-se do Parque Nacional Muriel Thissell, que tem 43 hectares doados em 1998 pela companhia mineradora McNish Sulphur, antiga proprietária do pedaço de terra. A empresa adquiriu aquela parcela da ilha em 1875 para extrair enxofre de suas encostas, mas a dificuldade de transporte do minério logo tornou o empreendimento pouco rentável, e a extração foi abandonada em 1915. Embora pequeno, o Parque abriga em bom estado de conservação todos os seis tipos de vegetação que ocorrem naturalmente em Saba e merece uma visita.

O Monte Scenery, que afinal é o topo da Holanda, também vale a pena de sua subida. Trata-se de cabritada para gente grande, posto que é bastante íngreme. Mas já foi pior. Até quarenta anos atrás era uma picada erodida e escorregadia. Em 1967, seus trechos mais inclinados foram pavimentados com 1064 degraus. Quem os galga até o alto tem direito a receber um certificado de “Conquista do Cume do Reino da Holanda”, concedido pela Saba Conservation Foundation.

Dito isso tudo, é imperativo avisar que a atração rainha de Saba não está acima do mar, mas abaixo dele. Com efeito o ponto culminante da natureza sábia é seu Parque Nacional Marinho. O Parque Marinho de Saba envolve completamente a ilha, somando uma superfície de 1.300 hectares e uma profundidade máxima de 60 metros. Foi proclamado em 1987. Pesquisadores holandeses indentificaram que Saba tem a maior biodiversidade marinha do Caribe, que ademais de uma míriade de corais grudados a paredões de até 300 metros de profundidade, pináculos e túneis de lava, inclui mais de duzentas espécies de peixes, duas das quais endêmicas. Em um mergulho normal o visitante verá também duas espécies de tartarugas e outras tantas de arraias, além de moréias, barracudas e cinco espécies de tubarões, que incluem o martelo e o tubarão baleia. Como não existem rios permanentes em Saba e nem sequer um mililitro de esgoto é descarregado no mar, a água é muito limpa. A visibilidade costuma exceder os 20 metros, o que torna o mergulho em Saba, a a jóia da coroa local.

Além de ser proibido lançar âncora dentro do Parque (os barcos de mergulho contam com diversas bóias fixas onde podem ser amarrados), os instrutores das duas únicas agências de mergulho locais zelam para que nenhum turista danifique ou toque nos corais.

Mergulhar em Saba, apesar do isolamento da Ilha, é muito seguro. Em 1990, o governo neerlandês doou á Administração do Território uma câmera hiperbárica de recompressão. Além disso, emergências médicas estão bem cobertas. Depois do turismo, a segunda grande fonte de recursos externos da ilha provém de uma faculdade de medicina, ali instalada em 1992 para a ensino curricular dos primeiros cinco semestres a aspirantes a médicos estrangeiros, sobretudo norte-americanos e canadenses. Essa aglomeração de doutores e quase-doutores soma 300 pessoas entre professores e estudantes, o que equivale a um quinto da população sabedoura.

Desde 1993, o Parque Nacional Marinho de Saba alcançou a autosuficiência financeira e não depende mais de nenhum centavo dos cofres governamentais. Os US$ 4 cobrados por cada mergulho recreativo, somados à taxa ambiental de US$ 1 por dia de estada nos hotéis da ilha, aos recursos provenientes da venda de lembranças e camisetas com o logotipo da unidade de conservação e às doações de visitantes e grupos ambientalistas têm sido, desde então, suficientes para sustentar os custos de administração e manejo.

O mergulho começou a ser explorado comercialmente na ilha em 1980. Rapidamente tornou-se um dos principais motores da economia sábada. Com efeito, Saba é hoje considerada um dos principais destinos de turismo subaquático do mundo. Quem visita o território precisa fazer reserva com antecedência pois, somente com mergulhadores, seus poucos hotéis e quinze restaurantes costumam ficar lotados o ano inteiro.

Tanta dependência das riquezas naturais para o bem estar ilhéu, põem a Saba Conservation Foundation sob imensa pressão para bem administrar o meio ambiente local. Além da manutenção das trilhas e do manejo das espécies exóticas terrestres, a Fundação é reponsável pela fiscalização do Parque Marinho, onde coíbe a pesca e a ancoragem ilegais, além de patrocinar pesquisas, censos populacionais das espécies e de monitorar a temperatura da água e a saúde dos corais. No momento, a maior preocupação de seus funcionários é com o Peixe Leão Vermelho do indo-pacífico (Pterois volitans).

Desde 2010 o “Lion Fish”, nome pelo qual o peixe é conhecido localmente, começou a aparecer nas águas do Caribe. Acredita-se que tenha vindo junto com o lastro de navios provenientes de portos do Oceano Pacífico. Primeiramente o peixe foi observado na Flórida, mas logo começou a descer. Ainda em 2010 chegou às costas das Bahamas, de Cuba e da República Dominicana e, no início desse ano, sem ser convidado, adentrou o Parque Marinho de Saba.

Quando atingem a idade adulta os peixes leão não têm predadores nas águas caribenhas. Por outro lado, essa espécie exótica se alimenta de larvas e espécimes jovens de peixes nativos, cujo habitat é o ambiente coralíneo . Sua voracidade é impressionante. Por isso mesmo representa séria ameaça à sobrevivência de algumas espécies locais.

Todos os meses a fêmea do peixe-leão expele até 30 mil ovos, que são carregados pelas correntes marítimas, causando a rápida expansão do território dessa espécie. Em Saba há um grande esforço para evitar a proliferação desse novo e indesejado habitante. Além de criar uma equipe de guardas-parques mergulhadores especialmente focados na tarefa de encontrar e eliminar todos os peixes-leão existentes no parque, o governo forneceu arpões de ar comprimido para que os mergulhadores e dive-masters da ilha também participem nesse hercúleo esforço de pesca. Assim que um desses peixes é localizado, imediatamente Governo e emprseas de mergulho somam esforços para fisgá-lo.Não há dia sem que dois ou três deles sejam retirados das águas sabinas.

Não se trata de uma atitude preconceituosa mas, considerando que na ilha a preservação da biodiversidade se confunde com a geração de emprego e renda, ninguém quer que o leão passe de rei dos animais à rainha de Sabah.

 

 

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