Palmilhando
Pelas trilhas do Brasil e do mundo, Pedro da Cunha e Menezes conta as últimas novidades de manejo em unidades de conservação e dá dicas sobre destinos de viagens de aventura.

Cabo da Boa Esperança: a natureza e os naufrágios

Pedro Cunha e Menezes*
sexta-feira, 3 junho 2011 15:42

A caminhada entre Kommetjie e Silvermine pede uma alvorada junto com o sol. Caso contrário há o risco de que a empreitada termine no escuro. O trajeto é longo e pesado. São19 km percorridos em quase 8 horas de pé na trilha .

Logo ao sairmos do abrigo, damos de cara com o farol de Slangkop, um dos muitos existentes na Península. A região é um cemitério de navios. Desde que o caminho marítimo para as Índias foi desbravado em 1488 por Bartolomeu Dias, centenas de embarcações naufragaram no litoral de Cape Town, que acabou ficando conhecido pelos marujos como Cabo das Tormentas.

Cinco desses navios podem ser vistos junto ao próprio Cabo. Os restos retorcidos de outro, a barca BOS 400, podem ser observados sobre as rochas de Karbonkelberg, também bem próxima à cidade e acessível por trilha, mas fora do trajeto da Horikwaggo.

Na região de Kommetjie, o último naufrágio ocorreu em 26 de maio de 1900. Naquele dia o comandante do navio holandês Kakapo confundiu Chapman´s Peak, cujo cume é parte da Hoerikwago, com Cape Point e mudou a rota de seu barco em direção a leste cedo demais. Em vez de dobrar o Cabo da Boa Esperança, invadiu a praia de Noordehoek a velocidade máxima, encalhando para todo o sempre. Após o acidente, uma fogueira passou a iluminar as noites de Kommetjie até 1918, quando o farol de Slankop foi erigido para evitar futuros acidentes.

O caminho de hoje, que atravessa todos os 5,5 km da praia de Noordhoek, passa junto aos destroços do Kakapo.Antes de lá chegar, entretanto, nos faz pisar sobre cerca de dois quilômetros de uma passarela de madeira, construída para proteger a frágil vegetação de dunas e de banhados, ambas extremamente ameaçadas na África Meridional.

Copie o código e cole em sua página pessoal:

A plataforma , que concentra todo o pisoteio dos excursionistas sobre ela própria ao tempo em que permite o crescimento de plantas sob seu madeirame, principia praticamente na saída do abrigo. A seguir avança sobre um costão de pedra junto ao mar, até depositar os caminhantes nas finas areias de Noordhoek. Neste trecho, o Parque é democrático: montanhistas, surfistas, cachorros com seus donos, e cavaleiros dividem o pedaço.

Pois é, por incrível que pareça, em seu Plano de Manejo, o zoneamento do Parque Nacional da Montanha da Mesa.designou cinco áreas onde é permitido o passeio a cavalo. Equinos em um Parque Nacional? Espécies exóticas! Como isso é possível?

O Plano de Manejo da Montanha da Mesa reconhece que há impactos advindos da atividade equestre, tais como: erosão e/ou compactação do solo, causando danos à vegetação por pisoteamento. Também admite impactos de convívio, sobretudo no que se refere a aconflitos de uso entre cavaleiros e caminhantes. O mesmo documento, contudo, não considera nenhum desses impactos suficientemente grande para justificar a interdição de uma atividade que atrai cerca de 800 usuários frequentes e que, por meio de duas empresas de equos-turismo, vem gerando emprego e renda às comunidades do entorno desde 1974.

Como no caso das mountain bikes, sobre o quê ainda vou escrever outra coluna mais elaborada, o Parque Nacional da Montanha da Mesa considera que melhor do que proibir é manejar. Assim, a escolha do solo sobre o qual as cavalgadas são permitidas é fundamental. Nesse sentido, e aqui vai uma lição para os Parques brasileiros, o Plano de Manejo considera que “A maioria dos problemas de erosão nas trilhas do PARNA da Montanha da Mesa tem menos origem no tipo do usuário (excursionista, cavaleiro ou mountain biker) e mais origem no mau planejamento do traçado das trilhas ou na falta de sua manutenção. Trilhas que atravessam áreas úmidas, solos facilmente erosíveis, encostas muito íngremes, ou áreas com vegetação frágil sofrerão erosão acentuada independente do tipo de usuário”. 

Assim, a escolha das trilhas onde a atividade equestre é permitida recai sobre traçados com solo pouco erosível e com traçado bem desenhado, que além de ser razoavelmente nivelado deve ter largura suficiente para que dois cavalos possam se cruzar em direções opostas sem sair do caminho. Além disso, essas trilhas devem dispor de boa sinalização e gozar de manutenção frequente.

Minha experiência prática aponta para conclusões semelhantes, tanto na Serra da Bocaina que já percorri muitas vezes a cavalo, quanto no Parque Nacional da Floresta Tijuca. Neste último a equitação era permitida até algumas décadas atrás. Seu mais famoso ex-diretor, Raymundo Ottoni de Castro Maya, percorria suas trilhas a cavalo e chegou a autorizar a Sociedade Hípica Brasileira a manter uma sub-sede próximo ao Açude da Solidão. Quando fui diretor da Tijuca há cerca de dez anos, levei dois cavaleiros de outrora para almoçar comigo na Floresta. Maurício Memória e meu tio, José Manuel Lutz da Cunha e Menezes, tinham muita história para contar. Haviam sido amigos de Castro Maya e conheciam as fofocas de uma Floresta de antanho que eu tinha interesse em resgatar e deixar registrada. Após o papo, a pedido deles, fomos dar uma volta nas picadas que conheciam de cima do lombo de suas montarias. Ambos se regozijaram com o reencontro com a Mata Atlântica fabricada por Archer, mas concordaram em seu espanto relativo à excessiva erosão das trilhas: “isso não havia naquele tempo. Os caminhos eram uma beleza”. Estranho não é caro leitor? É que na época deles havia cavalos, mas também havia manejo!

Mas e o estrume dos equinos? Estudos feitos na África do Sul apontam para o fato de que os dejetos sólidos do cavalo podem ser dispersores de sementes de espécies exóticas até quatro dias depois do consumo pelo animal. Por outro lado, não existe nenhum caso comprovado de introdução de espécies exóticas no Parque da Montanha da Mesa por esse meio. Ainda assim, trata-se de problema manejável, por meio da obrigatoriedade do uso de fraldões pelas montarias.

Bom, mas já falei demais de cavalos.É hora de voltar à Hoerikwaggo. Terminado o longo périplo pelas areias de Noordhoek, chegamos à base de Chapman´s Peak. Agora vamos sair do nível do mar e ascender até 420 metros de altitude em um ataque só. É hora para dar um tchibum e se refrescar.

A subida para Chapman´s peak, mescla degraus e trechos em zigue-zague pensados para mitigar a erosão. Enquanto isso, esplêndidas vistas de Hout Bay e Noordhoek Beach enganam o cansaço e estimulam frequentes paradas para apreciar  a obra divina.

Ao chegar ao topo de Chapman´s Peak vem a decepção. Há que descer para….subir mais de novo. E tome morro acima! Só depois de topar a cumeeira de Noordehoek com 689 metros acima do nível do mar é que nossas pernas exaustas ganham o direito de acompanhar a força da gravidade enquanto nos levam ao abrigo de Silvermine.

São mais uma hora e meia de dureza nos músculos, temperada por um panorama belíssimo. Quando finalmente chegamo à Represa de Silvermine o dia já vai querendo se fazer noite. É só o tempo de um mergulhão merecido antes de caminharmos os últimos dez minutos até o abrigo.

Na coluna que vem conto sobre a represa de Silvermine, a remoção de exóticas da Floresta de Tokai e a chegada a Orangekloof.

*Com participação de Sandra e Ivan Amaral

{iarelatednews articleid=”25027,24980,24967,24961″}

 

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.