Carta de uma senhora indignada com bicicletas

((o))eco
quinta-feira, 22 dezembro 2011 2:00

A Velhinha de Higienópolis não acredita em nada e nem em ninguém. Ao contrário de uma prima distante de Taubaté, que ficou famosa por acreditar em tudo e que morreu em 2005, a Velhinha de Higienópolis nunca se deixou enrolar. Ela é tão desconfiada que, na padaria, sempre abre o saquinho para conferir se todos os pãezinhos que pediu estão lá. Quando o porteiro dá bom dia, às vezes, nem responde, de olho nas intenções do homem. Ela não vota por não acreditar em nenhum político. Até vai nas reuniões de condomínio, mas só para questionar o síndico. “Por que pintaram a parede de branco? A tinta estava mais barata? Posso ver a nota? O senhor é amigo do pintor?” A Velhinha de Higienópolis não conta a idade para ninguém e nunca se casou por não acreditar no amor.

Em 2011, a Velhinha de Higienópolis comprou um computador para começar a ler as notícias na internet por não acreditar nas TVs e nos jornais. Em nenhum deles. Acha os jornalistas todos iguais, uns mentirosos. Todos. Mas ela também não gostou muito dos blogs e nem das redes sociais. Na semana passada, recebeu um cartão virtual da neta, que nem abriu, achando que a menina havia enviado um vírus para invadir seu computador. Anda preocupada com o rumo do mundo e incomodada com essa troca de mensagens de esperança que circulam nesta época do ano. Depois de ler os votos de boas festas do vadebike.org e do grupo Pedala Manaus, ela decidiu escrever para o Outras Vias. A Velhinha de Higienópolis está indignada com as bicicletas e o Outras Vias, democraticamente, abre espaço para sua manifestação. O que, claro, ela duvidou que aconteceria.

Segue na íntegra a mensagem da Velhinha de Higienópolis, que pediu para não ter o nome divulgado por desconfiar de vocês todos.

“São Paulo, 22 de dezembro de 2011

Bicicleteiros de São Paulo,

É com grande consternação que escrevo. São Paulo é uma cidade falida e todos sabem disso. É tanto trânsito e falta de segurança, que, já faz tempo, nenhuma pessoa de bem pode andar tranquila na rua. Não tem solução, e todos sabem. O povo já acostumou com essa ideia de que não há o que fazer e é por isso que vivemos com tranquilidade. Quando as pessoas começam a sonhar, elas tentam transformar a cidade e isso é que é o mais perigoso. São Paulo, meus queridos, não tem jeito.

Andei lendo o que o senhor, seu Santini, e seus colegas no portal ((o)) eco andam escrevendo e quero criticá-los. Duvido que o senhor vá publicar minhas palavras, mas, ainda assim, gostaria de manifestar minha indignação. Sou contra vocês e todos os outros blogueiros que insistem em escrever, filmar, gravar e propagar ideias desta maneira descontrolada. Se tivesse o e-mail da sua mãe, escreveria para ela. Ao defender bicicletas, ao defender “ecocidades”, ao defender florestas e preservação da natureza, os senhores estão só atrasando o progresso do Brasil. É isso mesmo. É preciso ordem e não ficar pensando nessas besteiras de animaizinhos e plantinhas, dando esperanças falsas para a população de que é possível avançar sem destruir a natureza. Viver bem é ser rico, ter um monte de bens, poder gastar, poder gastar sem pensar muito (grifo da autora). Preocupação com sacolinha de plástico, com reciclagem, com consumo de luz, faça-me o favor. Sempre foi assim e agora vocês querem agora mudar isso. Deveriam ser proibidos de escrever. Se fossem outros tempos em que as coisas eram mais sérias no Brasil, certamente seriam censurados.

Veja o caso de São Paulo. A cidade é poluída, suja e feia. Não adianta querer mudar isso. O que os governantes precisam fazer é garantir que tudo continue funcionando como sempre funcionou. A gente sabe a fórmula. Quando o trânsito fica insuportável, é só construir viadutos e pontes, cavar túneis, alargar avenidas. Tudo bem que, depois de um tempo, os congestionamentos ficam até piores – outro dia eu levei duas horas e meia presa no trânsito na Marginal Tietê, mesmo com aquelas onze faixas que fizeram de cada lado do rio. Mas é assim mesmo, essas coisas não têm solução. São Paulo é uma cidade rica e, para continuar se desenvolvendo, precisamos continuar asfaltando, ampliando as avenidas, abrindo espaço para mais carros. Abrir espaço para quem tem dinheiro e poder, só assim os ricos continuarão vivendo aqui. Deveriam proibir os pedestres e aumentar a velocidade nas ruas. Aí sim o trânsito ia fluir. Se a poluição ficar muito ruim, a gente instala filtros nas casas e nos carros. Se alagar por conta da impermeabilização excessiva, sempre dá para abrir mais piscinões. 

O que não dá é para ficar com essa ideia de poeta de que dá para caminhar nas ruas. De bicicleta é pior ainda. É perigoso, menino. Se fosse só você e mais um grupinho, eu nem gastaria meu tempo escrevendo. Mas, não contentes em ficar para lá e para cá com essas bicicletas coloridas, iludindo as pessoas de que dá para ser feliz e ter uma vida saudável em São Paulo, vocês ainda começaram a criar associações e cobrar o poder público. Que absurdo! E o pior é que as prefeituras, não só de São Paulo, mas de várias cidades do Brasil, começaram a construir ciclorrotas, a diminuir a velocidade do trânsito, fazer campanhas de respeito aos pedestres. Logo mais vão querer crianças brincando nas ruas de novo. Aqui não é a Europa!

Tudo bem que não deixaram de priorizar os carros, que a maior parte do dinheiro continua sendo investido em avenidas e obras parecidas. Mas, se vocês continuarem chamando a atenção para isso, logo mais vão querer que, em vez de túneis, comecem a cavar metrôs. Falaram até em uma estação em Higienópolis! Absurdo!!! O que vocês querem? Mais ônibus? Que a gente que tem dinheiro deixe de andar de carro e passe a viver mais na cidade? E a nossa segurança? Eu vou ter que ter contato com outras pessoas? E se tentarem me enganar na hora de pagar a passagem? Eu, hein.

Menino, juízo. 

Velhinha de Higienópolis”

* O desenho é uma ilustração feita pelo amigo Valdinei Calvento a partir de fatos reais. A Velhinha de Higienópolis naturalmente não aceitou posar para uma foto. Clique aqui para ver mais do trabalho deste artista.

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