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Albatroz-errante (Diomedea exulans). Foto: Fabio Olmos.

Frentes frias vindas da Antártica, queda na temperatura e ressacas são marcas do inverno no litoral sul-sudeste. Elas não trazem apenas boas ondas para os surfistas, mas também alegria para os observadores de aves: algumas das aves marinhas mais impressionantes são mais fáceis de encontrar nessa época.

Albatrozes são os maiores dentre os Procellariiformes, um grupo de pelo menos 120 espécies que inclui pardelas, faigões, painhos, almas-de-mestres, petréis, cagarras e outros (os nomes em inglês podem ser exóticos como mollymawk, fulmar e prion). Radicalmente adaptados para a vida em alto mar, aves deste grupo realizam migrações em escalas difíceis de compreender e têm superpoderes como um olfato hiper sensível e a capacidade de mergulhar a dezenas de metros de profundidade com a mesma facilidade com que voam.

Os fósseis de Procellariiformes mais antigos datam do final do Cretáceo ou início do Paleoceno (~64 milhões de anos), a mesma época em que um asteroide do tamanho do Texas deu início à cadeia de eventos que extinguiu os dinossauros não-aves. É sempre bom lembrar que as aves são os dinos que sobreviveram e observadores de aves são, na verdade, observadores de dinossauros.

Existem 22 espécies de albatrozes e 10 já foram documentadas em águas brasileiras. Somos um grande ponto de encontro de visitantes de ilhas remotas. Aqui recebemos Albratrozes-de-sobrancelha (Thalassarche melanophris) das Falklands, Albatrozes-de-nariz-amarelo (T. chlororhynchos) de Tristan da Cunha e Nightingale, Albatrozes-de-tristão (Diomedea dabbenena) de Gough, Albatrozes-reais (D. epomophora) e Albatrozes-de-coroa-branca (T. steadi) das ilhas subantárticas da Nova Zelândia e Albatrozes-errantes (Diomedea exulans) da South Georgia.

Uma mãe Albatroz-errante alimenta seu filhote na South Georgia. Foto: Fabio Olmos.

Algumas, como o Albatroz-errante e o Albatroz-real, estão entre as maiores aves voadoras, com envergaduras que comumente ultrapassam os 3 m, com o maior Errante registrado chegando a 3,7 m. Mesmo as espécies menorzinhas não são exatamente passarinhos, já que os “pequenos” Albatrozes-de-nariz-amarelo têm uns 2 m de envergadura. Esses monstros contrastam com seus primos, as Almas-de-mestre (Oceanites oceanicus), do tamanho de um sabiá.

Essas grandes asas são utilizadas para uma forma muito eficiente e econômica de voo chamada de planeio dinâmico (veja aqui) que permite que essas aves voem milhares (e milhares) de quilômetros durante semanas com muito pouco gasto de energia.

Esse superpoder faz com que um albatroz sair para o trabalho ou dar um rolezinho para relaxar tenha um significado especial.

Albatrozes-errantes em descanso reprodutivo podem voar ao redor da Antártica três vezes (uma distância de 120 mil km) em um ano. E Errantes com ninhos na South Georgia podem ficar até duas semanas fora procurando alimento, cobrindo entre 9 e 11 mil km antes de voltar para casa.

As estratégias de vida destas aves também são radicais. Albatrozes são exemplos extremos de estrategistas k. Ao contrário de muita gente que é estrategista r e produz filhos aos montes sem investir na sua criação e deixando que os mesmos se virem ou os outros se virem com eles, albatrozes investem na qualidade, combinando cuidado com provas extremas.

Infância radical

O Albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos) é a espécie mais fácil de observar no Brasil. Este albatroz nidifica nas ilhas Tristan da Cunha, Nightingale, Gough e Innaccessible. Foto: Fabio Olmos.

Para começar, albatrozes têm vidas longas, o que significa tempo para que um casal produza descendentes suficientes para se reporem na população. Wisdom, uma Albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis) que nidifica na ilha de Midway, tem 67 anos e continua criando seus bebês. E Grandma, uma Albatroz-real-do-norte (Diomedea sanfordi), provavelmente tinha 62 anos quando seu último filhote, Button, nasceu. Ao contrário de nós, míseros mamíferos, albatrozes não mostram sinais de senescência.

Segundo, albatrozes estabelecem relações de longa duração, o que significa famílias estáveis e filhos bem criados. Afinal, criar filhos da forma certa em ambientes hostis é trabalho duro que precisa ser compartilhado. Albatrozes levam 6-15 anos para atingir a maturidade sexual e têm namoros longuíssimos que incluem participar de bailes e festas para conhecer quem está solteiro. Depois que um casal se forma e cria os primeiros filhotes com sucesso podem ser literalmente décadas e décadas até que a morte os separe.

O que vale tanto para casais hétero como para casais homossexuais. Sim, há albatrozes gays que formam famílias felizes e dão um nó na cabeça de quem acha que a Natureza espelha a mente de seu Querido Líder homofóbico.

O Albatroz-errante é um exemplo da maratona para criar um filho. A incubação, dividida pelos pais, dura 11 semanas e o filho único levará outras 40 semanas até deixar o ninho. Durante esses meses os pais irão primeiro se revezar em turnos de até duas semanas no ninho, durante as quais ficam em jejum cuidando do ovo ou do filhote pequeno.

O Albatroz-de-sobrancelha (Thalassarche melanophris) é mais comum nas águas mais frias da costa sul do Brasil. A maioria provém de colônias nas Falklands. Foto: Fabio Olmos.

Conforme o bebê cresce e pode ficar sozinho, ambos os pais podem buscar alimento para que o filhote cresça, acumule gordura e possa deixar o ninho para viver por conta própria. O que significa que quando o filhote chega a determinada idade e peso os pais o abandonam para que enfrente o desafio final. Se você achou sua adolescência dura, pense de novo.

Sozinho, o filhote deve finalizar a muda das penas e se exercitar. E sozinho deverá voar para o mar e encontrar alimento, guiado apenas por algoritmos mentais transmitidos geneticamente. Serão pelo menos cinco anos em alto-mar antes de voltar à ilha natal para começar a conhecer a galera e namorar.

Muita coisa pode dar errado quando albatrozes & primos estão criando seus filhotes. Aves carnudas sentadas por semanas sobre ovos suculentos são um alvo fácil e não é por acaso que albatrozes buscam ilhas sem mamíferos predadores para formar suas colônias. Infelizmente, a chegada de humanos e seus pets representa o apocalipse para muitas espécies de albatrozes, pardelas, petréis e seus primos.

Existem umas 360 espécies de aves marinhas. Pelo menos 110 são hoje consideradas globalmente ameaçadas de extinção, o que as torna o grupo de aves mais ameaçado. E há muitas populações locais em risco de extinção local.

Das 140 espécies de Procellariiformes, 64 estão globalmente ameaçadas. Poucos grupos de aves estão em situação tão precária.

O Albatroz-de-cabeça-cinza (Thalassarche chrysostoma) nidifica em ilhas fora do extremo sul do Chile e ilhas subantárticas como a South Geórgia. É um visitante muito raro no Brasil. Foto: Fabio Olmos.

Humanos têm uma longa história de exterminar essas aves. Ninhais que literalmente cobriam ilhas em todo o mundo foram transformados em pilhas de ossos por povos pré-industriais como os polinésios. Essa tradição de extermínio durou até a pouco tempo, com milhões de albatrozes e outras aves mortas durante o século 19 e início do século 20 para fornecer penas para travesseiros e edredons.

Humanos por si só são um desastre, mas nunca estão sozinhos. Cães, gatos, porcos, ratos e camundongos trazidos introduzidos nas ilhas perpetuam o legado de destruição. População após população, espécie após espécie, foi eliminada por nossos pets.

Aqui no Brasil, as pardelas-de-asa-larga (Puffinus lherminieri), um parente menorzinho dos albatrozes, só nidificam em Fernando de Noronha, onde estão à beira da extinção (se é que ainda existem) graças aos gatos e ratos que infestam o arquipélago. Em outro parque nacional marinho, Abrolhos, ratos também ameaçam levar os Rabos-de-palha-de-bico-vermelho (Phaethon aethereus) a um fim sangrento.

A erradicação dessas pragas é rotina em montes de países que levam sua conservação a sério (p. ex. veja aqui e aqui), felizmente, foram dados os primeiros passos tanto em Noronha como em Abrolhos.

Torcemos para que esse trabalho culmine na erradicação total. E ilhas seguras para as aves.

Perigo em Alto Mar

O Albatroz-de-coroa-branca (Thalassarche steadi) é um raro visitante vindo de ilhas ao sul da Nova Zelândia. Foto: Fabio Olmos.

O período após o jovem albatroz deixar o ninho, quando tem que se virar sozinho e aprender a encontrar alimento enquanto tem reservas de gordura, é uma prova dura e 50% dos jovens morrem. O mar, especialmente o Oceano Austral dos Roaring Forties e Furious Fifties, não é um ambiente fácil de viver. No dia a dia estas aves surfam ventos com força de furacão ao longo da crista de ondas com vários andares de altura buscando alimento que nem sempre é fácil de encontrar ou apanhar.

Albatrozes alimentam-se de lulas – muitas encontradas boiando mortas ou moribundas após a desova –, peixes, krill, ovos de peixes-voadores e quase toda a proteína que encontram. Não irão desperdiçar os pedacinhos de focas despedaçadas por orcas e podem se juntar a parentes como os hilários Petréis-gigantes (Macronectes spp.) para aproveitar uma baleia ou elefante-marinho mortos.

Esse oportunismo faz com que albatrozes e seus parentes petréis, pardelas & cia rapidamente aprendam que barcos de pesca oferecem oportunidades para um almoço na forma de descartes ou iscas roubadas de anzóis.

Obviamente esse almoço tem um preço.

É possível saber a posição de um organismo na cadeia alimentar através de uma técnica chamada análise de isótopos estáveis. Resumindo muito, se você é vegetariano radical os átomos que te compõem terão uma assinatura diferente de alguém que come vegetarianos, que é diferente do superpredador quem come carnívoros. Essa assinatura permite saber onde você está na teia do quem-come-quem.

O Albatroz-real-do-sul (Diomedea epomophora) é outro visitante vindo da Nova Zelândia, mais comum na plataforma continental fora do Rio Grande do Sul. Foto: Fabio Olmos.

Uma prova do absurdo impacto dos humanos sobre os oceanos do mundo é fornecida pelos estudos com isótopos estáveis que mostram que tubarões são um item importante da dieta de albatrozes, petréis e pardelas. Obviamente essas aves não pescam tubarões. Somos nós que os matamos aos milhões e jogamos seus restos ao em quantidade suficiente para mudar a ecologia de toda uma comunidade de aves.

Sem mencionar todo o ecossistema marinho.

A pesca por si só compete com as aves por alimento e temos visto declínios brutais de populações de aves e mamíferos marinhos que somavam milhões – como na costa do Peru e Chile - porquê mineramos seu alimento para fazer ração animal, ômega 3 e adubo.

O setor pesqueiro, que é brutalmente subsidiado, já levou ao declínio, algumas vezes irreversível, de 1/3 das espécies da fauna marinha de interesse comercial e 90% dos estoques pesqueiros estão sobreexplorados ou no limite. Algumas espécies, como tubarões, atuns e peixes-de-bico, viram suas populações colapsarem em 90% ou mais desde 1950, ano bem distante de representar mares intocados.

O fato de chamarem esses animais de “recurso pesqueiro” mostra a mentalidade por trás de seu uso e abuso. E vale lembrar que o colapso de populações de espécies como meros, peixes-serra, garoupas, e o esquecido cação-quati (se é que ainda existe) se deve em boa parte à pesca artesanal.

Outro visitante neozelandês é o Albatroz-real-do-norte (Diomedea sanfordi). Foto: Fabio Olmos.

Albatrozes e outras aves marinhas também tentam apanhar as lulas e peixes usados como iscas pelos barcos espinheleiros que capturam tubarões, atuns, peixes de bico e dourados, com resultados fatais. É comum que as aves acabem fisgadas e se afoguem. Além disso, aves morrem em colisões com cabos usados por barcos de arrasto e afogadas em redes de espera.

A “mortalidade incidental” (esses termos educados...) é a principal causa do declínio catastrófico de várias populações de albatrozes & cia, além de outras aves marinhas que não ocorrem por aqui como murres, puffins e auks.

Estima-se que, hoje, um mínimo de 300 mil aves marinhas são mortas por barcos espinheleiros a cada ano em todo o mundo, e essa é a razão principal para que 23 espécies estejam ameaçadas de extinção.

Há muito tempo pesquisadores têm estimado a mortalidade de albatrozes e petréis causada pela frota espinheleira trabalhando no Brasil. O Projeto Albatroz, ONG que atua junto com o setor pesqueiro e o governo na pesquisa e implementação de medidas para reduzir esta mortalidade, estima que 3.300 aves foram mortas em 2013 e 4.600 em 2014.

Isso poderia ser evitado com a adoção de medidas que minimizam a probabilidade das aves serem capturadas, algo que é bastante pesquisado pelo Projeto Albatroz. Essas medidas podem ser simples como a adoção de pesos adequados nas linhas de pesca e são teoricamente obrigatórias graças a instruções normativas que regulam a pesca com espinhel.

O Albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena) hoje têm uma única população significativa na ilha Gough, onde filhotes são comidos vivos por camundongos introduzidos. Um dos albatrozes mais ameaçados, é uma das vítimas dos espinhéis brasileiros. Foto: Fabio Olmos.

A questão é saber, lá no marzão a centenas de milhas da costa, se os pescadores realmente as usam. Medidas de controle que comprovem a adoção de boas práticas e um sistema de certificação são necessários.

O Brasil explora a fauna marinha de maneira que pode ser classificada, de modo educado, como predatória e irresponsável. Hoje, sem estatísticas pesqueiras dignas de confiança, sequer sabemos quantos pescadores existem, quanto mais o que eles pescam e matam. Somos um ótimo exemplo da tragédia dos comuns subsidiada pelos impostos que, para começar, permitem que pescadores predatórios comprem diesel barato.

Subsidiada também por você, caro leitor, que compra espécies ameaçadas ou cuja pesca ameaça outras espécies. Peixes como cações, mecas, marlins, atuns, atuns, garoupas, chernes, vermelhos e caranhas.

Aqui em São Paulo, onde há leis “ecológicas” como as que proíbem alimentar pombos em praças e o abate de javalis, aqueles peixes ameaçados de extinção podem ser facilmente encontrados no CEAGESP e nos mercados. Que tal algum legislador melhor orientado mirar nisso?

Se não há quem compre, não há quem mate. O mar agradece.

Veja antes que acabe

Encontrar um albatroz em alto-mar é uma experiência que muitos classificam no gradiente entre Mística e PQP Extreme. O grande (e casca grossa) pesquisador Robert Cushman Murphy escreveu “eu agora pertenço a um culto mais elevado dentre os mortais pois eu vi o albatroz” depois de ver seu primeiro Albatroz-errante. Aposto que ficou com os olhos cheios d’água. Quem já viu sabe como é.

O Piau-de-costas-claras (Phoebetria palpebrata) nidifica em ilhas subantárticas e é uma raridade no Brasil. Foto: Fabio Olmos.

Errantes e seus primos quase idênticos, os Albatrozes-de-tristão, são difíceis de ver por aqui porque nós já matamos a maioria deles. Mas seus parentes menores, como os Narizes-amarelos e Sobrancelhas, além de um elenco variado de pardelas e petréis, são mais fáceis de observar.

Ironicamente, o jeito mais fácil é procurar um barco de pesca que esteja jogando peixes e restos no mar. Ou fazer isso você mesmo, oferecendo um almoço grátis, e seguro, de peixes e lulas frescos, como empresas de observação de aves fazem pelo mundo afora.

Seja como for, é bom ver seu primeiro albatroz enquanto eles ainda voam por aqui.

 

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