Parque Nacional do Viruá, um campeão de biodiversidade
Olhar Naturalista
Por aí com Darwin e uma câmera na mão

Parque Nacional do Viruá, um campeão de biodiversidade

Fábio Olmos
segunda-feira, 13 outubro 2014 21:20
Buritizais e campinaranas do Pantanal Setentrional. Foto: Antonio Iaccovazo
Buritizais e campinaranas do Pantanal Setentrional. Foto: Antonio Iaccovazo

Como acontece hoje, em 1998 a economia não ia nada bem e os políticos estavam mais preocupados com uma eleição presidencial. Apesar disso, naquele ano foi promulgada a lei que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e joias como a REBIO União, o Parque Nacional Restinga de Jurubatiba e o PARNA Viruá passaram a fazer parte da herança de todos os brasileiros.

O Parque Nacional do Viruá cobre 217,4 mil hectares em Roraima no município de Caracaraí, entre o Rio Branco e a BR 174, a rodovia que liga Boa Vista (e a Venezuela) a Manaus. A construção desta ofereceu ao parque um acesso bastante fácil (são meras 2 horas a partir de Boa Vista) e um bônus peculiar.

Os sapientes engenheiros que construíram a BR pensaram em fazer um retão cortando os alagados do que viria a ser o parque. Depois de 40 km de aterros, caixas de empréstimo e bueiros perceberam que não iria funcionar e mudaram o trajeto da BR. A trecho abandonado ficou conhecido como “Estrada Perdida” e é um bom exemplo de como o dinheiro público foi e continua sendo gasto. Entretanto, criou um acesso ao Parna e é a melhor forma de acessar as campinaranas tão características do Viruá, que de outra forma são quase inacessíveis.

As campinaranas formam uma ecorregião particular que abrange a bacia do alto Rio Negro e seus afluentes. A vegetação, que inclui o gradiente entre campos com arbustos e florestas, tem em comum o fato de crescer sobre areia branca muito pobre em nutrientes que sofre encharcamento, ou mesmo inundação, durante parte do ano.

A enorme área coberta por areias e (hoje) sujeita a inundações na bacia do baixo Rio Branco que se estende até o Rio Negro forma o Pantanal Setentrional roraimense, bem menos conhecido que seu primo mato-grossense, mas não menos importante ou interessante.

Este é um ambiente hostil devido ao solo pobre, calor e oscilação do nível da água e as plantas reciclam todos os nutrientes que podem e se defendem de herbívoros com substâncias que, quando as folhas finalmente se decompõem dão a cor escura a rios como o Negro. O potencial agrícola do Pantanal Setentrional e das campinaranas é zero e sua fragilidade é alta, o que é uma das justificativas para proteger a região do parque.

As areias brancas que ditam onde as campinaranas crescem são herança de antigos “megaleques” fluviais, deltas internos de rios que, em períodos quando o clima era mais árido, morriam no interior do continente sem atingir o mar, deixando ali a areia que carregavam. Um exemplo moderno é o famoso Delta do Okavango, em Botswana, mas o nosso Pantanal tem vários destes leques, também herança de tempos mais áridos que talvez voltem na esteira da mudança climática.

Outra lembrança de períodos mais secos são paleodunas gigantes no centro do parque, hoje imobilizadas pela vegetação que cresce graças ao atual clima úmido. Para quem gosta de geologia e geomorfologia é um prato cheio.

As campinaranas cobrem em torno de 45% do parque, boa parte sujeita às inundações que estragaram os planos dos engenheiros da BR. O restante é de matas de terra firme, igapós junto aos rios de água preta (como o Anauá e o Baruana) e matas de várzea associadas ao Rio Branco (que é um rio de… água branca). Esse mosaico de habitats resulta em uma tremenda riqueza de espécies.

Paraíso de pesquisa e Birdwatching

O mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha ([i]Gymnopithys rufigula[/i]) é comumente visto associado a formigas de correição. Foto: João Quental
O mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha ([i]Gymnopithys rufigula[/i]) é comumente visto associado a formigas de correição. Foto: João Quental

“A lista do parque nacional e áreas adjacentes, como as ilhas do Rio Branco, soma tremendas 520 espécies de aves. Não à toa o Viruá é parte de uma Área Importante para a Conservação das Aves reconhecida pela BirdLife International”

Entre 2006 e 2012 o Viruá já emitiu 128 autorizações de pesquisa, um recorde entre os parques amazônicos que destoa da norma das Unidades de Conservação brasileiras (a campeã em pesquisas é a FLONA Tapajós), e é um sítio de monitoramento do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBIO). Neste período passaram por lá mais de 400 pesquisadores. Um resultado é que o Viruá é uma das áreas com a biodiversidade mais bem conhecida nesta parte da Amazônia, em que pese muitas das pesquisas serem ainda preliminares.

Olhando as aves, pelas quais um bird-watcher como eu tem interesse especial, a lista do parque nacional e áreas adjacentes, como as ilhas do Rio Branco, soma tremendas 520 espécies. Não à toa o Viruá é parte de uma Área Importante para a Conservação das Aves (IBA, em inglês) reconhecida pela BirdLife International.

E também não por acaso, o Viruá guarda o recorde de maior número de espécies de aves detectadas em um só dia. Em abril de 2008, meu amigo Mario Cohn-Haft e outros nove pesquisadores registraram 225 espécies em 24 horas, desbancando o recorde anterior de 196 espécies em uma localidade no Tocantins.

Isso faz com que o parque e áreas adjacentes, como a Estrada Perdida (ainda fora dos limites do PARNA, mas com inclusão proposta na redelimitação proposta pelo ICMBio) já atraiam observadores de aves brasileiros e também estrangeiros.

Enquanto o Brasil patina no turismo focado nas Unidades de Conservação, a vizinha Guiana já é um destino tradicional de empresas de bird-watching e turismo de natureza, e algumas já se animam a cruzar a fronteira oferecendo um “Roraima Extension“, para que os clientes possam observar especialidades como o chororó-do-rio-branco e o joão-de-barba-grisalha, restritos às matas ao longo do Rio Branco.

No Viruá, os birders aficionados têm a possibilidade de observar o chororó e muito mais. As matas ao longo do Rio Branco também são o lar da Choquinha-do-tapajós, uma daquelas espécies cujo nome é um ato falho (antes se acreditava que era restrita àquele rio). Teoricamente uma das aves mais abundantes no seu habitat, este gigante pela própria natureza me deu um baile e só foi observado no final da prorrogação.

Entre as espécies que fazem os visitantes salivar estão as especialidades das campinaranas atravessadas pela Estrada Perdida. O grande destaque é o Formigueiro-de-yapacana, que tem ali a única localidade onde pode ser encontrado com alguma facilidade (ou seja, sem precisar embarcar em uma expedição). Antes de ser encontrada no Viruá, em um ponto onde você pode estacionar seu carro, essa espécie era conhecida de áreas difíceis de chegar no sul da Venezuela e Colômbia, e do Parque Nacional do Jaú, no Amazonas.

Outras especialidades das campinaranas são a Choquinha-de-peito-riscado, a Guaracava-de-topete-vermelho e o encardido Papa-capim-de-coleira, espécie que consegui visualizar na Perdida depois de bailes em outros lugares. E, é claro, há sempre a possibilidade de encontrar um jacaré ou outro animal nas lagoas que margeiam a estrada.

Riqueza debaixo d´água

Os rios da região do Viruá têm 500 espécies de peixes já registradas, como este cuiú-cuiu ([i]Oxydoras niger[/i]). Foto: Fábio Olmos
Os rios da região do Viruá têm 500 espécies de peixes já registradas, como este cuiú-cuiu ([i]Oxydoras niger[/i]). Foto: Fábio Olmos

“… a riqueza de espécies de peixes corresponde, com 500 espécies registradas e 600 estimadas. Isto é apenas o maior número registrado em qualquer parte do Brasil.”

Os rios que cortam a região são muito heterogêneos, tanto de água preta (escuros, ácidos, com pouco material em suspensão) como de água branca (turvos, barrentos) e a riqueza de espécies de peixes corresponde, com 500 espécies registradas e 600 estimadas. Isto é apenas o maior número registrado em qualquer parte do Brasil. Na verdade, a riqueza de espécies de peixes e aves torna o Parna Viruá a UC brasileira com maior número de espécies de vertebrados, com assombrosos 1267 espécies.

Durante minha última visita pude visitar e acampar no Baruana e no Anauá, rios de água preta cercados de igapós onde dominam palmeiras espinhentas que nem o ecologista mais ferrenho abraçaria. É um ambiente muito interessante. Além das aves típicas desse ambiente, encontramos muitos vestígios de antas e queixadas, ouvimos mutuns cantando durante a noite, acordei com o esturro distante de uma onça na madrugada e vimos botos pescando em frente a nosso acampamento. Por sinal com serviço cinco estrelas organizado pelos guias Hamilton e Neto. Recomendo.

O Viruá se conecta a outras áreas protegidas como a Estação Ecológica Niquiá, no lado oposto do Rio Branco, e o Parque Nacional da Serra da Mocidade, formando um mosaico de 1,2 milhão de hectares. O perfil da Serra no horizonte me faz imaginar o que existe lá em cima. Há muito que descobrir no nosso país.

Avanços e riscos

“Há planos para construir uma hidrelétrica no Rio Branco a montante do parque, o que resultará em profundas alterações nos ecossistemas fluviais e na dinâmica que sustenta várzeas e ilhas.”

O parque conta com um plano de manejo muito bem preparado (raridade na região) e há planos para estimular a visitação por adeptos do turismo de natureza. Há muito o que fazer além de observar aves. Explorar os vários rios observando botos e ariranhas já vale a viagem. Aguardo ansiosamente a oportunidade de retornar quando o parque já estiver em voo de cruzeiro.

Claro que nem tudo são flores. Há falta de pessoal, como em todas as Unidades de Conservação brasileiras (UCs), e se não fossem os recursos do Programa ARPA a realidade seria triste como a das UCs que dependem do orçamento federal.

E há questões maiores. Há planos para construir uma hidrelétrica no Rio Branco a montante do parque, o que resultará em profundas alterações nos ecossistemas fluviais e na dinâmica que sustenta várzeas e ilhas.

Não faço segredo de que considero hidrelétricas entre as piores opções energéticas, imbatíveis no quesito destruição ambiental (para começar, compare o que aconteceu com a biodiversidade em Tucuruí, Balbina, Porto Primavera ou Itaipu, hidrelétricas que deram certo, com Chernobyl, uma usina nuclear que deu errado) e não há como não se admirar a facilidade com que se matam rios aqui no Brasil ao mesmo tempo que o sol brilha (e muito), o vento não para e a força das marés funciona como um relógio sem que ao menos se cogite seu uso. Há outros países mais espertos.

Enquanto isso a equipe do parque continua tocando o sonho de torna-lo não só um lugar onde a natureza é protegida, mas também um pólo de desenvolvimento – no verdadeiro sentido – onde nós, cidadãos, possamos ter a experiência civilizadora do contato com a natureza ao andar de bicicleta pela Estrada Perdida, passear de barco por igapós, ouvir uma onça esturrando à noite e ver botos pescando. Ou chafurdar no Pantanal atrás de um formigueiro-de-yapacana.

Experiências que obviamente fazem falta para muita gente que decide o destino do país.

 

 

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