Olhar Naturalista
Por aí com Darwin e uma câmera na mão

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 2)

Fábio Olmos
quinta-feira, 10 abril 2014 20:26

O paredão do Roraima, 400 m de rocha nua. Fotos: Fábio Olmos
O paredão do Roraima, 400 m de rocha nua. Fotos: Fábio Olmos

Partimos cedo, atravessando o rio Tek e logo depois o Kukenan, com pausa para observar aves (um par de arirambas-pretas Brachygalba lugubris deu um show) e um banho de rio antes de continuar a caminhada de 9 km até o Acampamento Base do Roraima. Este é um trecho em aclive, dos 1.100 m do rio Tek para os 1.850 m do Base, e cruza campos limpos, o ocasional capão de mata e algumas turfeiras.

Estas são áreas de vegetação herbácea bem particular que cresce sobre solo orgânico saturado de água. Estes são ambientes bem frágeis onde ocorrem plantas endêmicas como as Stegolepis guianensis e as carnívoras Utricularia humboldtii e Brocchinia reducta (sim, há bromélias carnívoras). Infelizmente as trilhas do parque não têm passarelas ou pontes e as turfeiras sofrem muito com o pisoteio.

Na parte final da caminhada, já alertados pelo Roraima estar coberto por nuvens, começou a chover e chegamos ao acampamento úmidos e cansados. O Base está no que já foi floresta, mas hoje está cercado por arbustos, samambaias e uma ou outra árvore, que se tornam mais densas em direção ao paredão do Roraima. Apesar disso, esquecemos o inconveniente da chuva e da caminhada, logo que chegamos, ao ver vários sabiás-de-cabeça-preta Turdus olivater que procuravam comida em meio às barracas. Essa é uma espécie dos Andes da Colombia e Venezuela que tem uma subespécie no Pantepui, única região onde ocorre no Brasil. Outras espécies mostram o mesmo padrão.

Nossa equipe de suporte havia se instalado fazia tempo em um barracão similar aos do Tek e foi muito eficiente em cuidar de nossas barracas e preparar um muito bem servido e muito bem vindo almoço. De nosso abrigo, os fotógrafos do grupo eram torturados ao ver aves interessantes nos ramos das árvores próximas sem poder sair por causa da chuva. Outros grupos, incluindo brasileiros, venezuelanos, russos e franceses usavam abrigos similares nos arredores.

Avistamentos

Um anambé-de-whitelyi Pipreola whitelyi macho. Encontrar este endemismo dos tepuis foi um ponto alto da viagem.
Um anambé-de-whitelyi Pipreola whitelyi macho. Encontrar este endemismo dos tepuis foi um ponto alto da viagem.

“Ao tocar a gravação notamos um movimento nas árvores e logo todo o grupo vociferava expletivas e furiosamente tirava fotos de um espetacular casal de anambés-de-whitely Pipreola whitelyi, uma das espécies que mais desejávamos.”

A chuva deu uma trégua no fim da tarde e pudemos ir atrás dos bichos. Rapidamente encontramos três endemismos dos tepuis, os simpáticos corruíra-do-tepui Troglodytes rufulus, tico-tico-do-tepui Atlapetes personatus e mariquita-de-cabeça-parda Myioborus castaneocapilla, que fizeram a todos esquecer a lama, as roupas molhadas e os joelhos doloridos.

Quando começou a escurecer ouvimos vozes periquíticas sobre nossas cabeças e logo detectamos bandos com dezenas de periquitos-dos-tepuis Nanopsittaca panychlora que chegavam da Gran Sabana para dormir em cavidades no paredão do Roraima, lá em cima. Os paniquetes partem todas as manhãs de uma altitude de pelo menos 2.500 m e vão procurar comida a 1.100-1.700 m, retornando à tarde. Veríamos seu trânsito todos os dias que passamos no Base.

Fomos dormir cansados, mas sorrindo de orelha a orelha.

De madrugada acordei com o estranhíssimo som feito por narcejões Gallinago undulata (ouça aqui) que voavam ao redor do acampamento. Logicamente lembrei do enredo em Up! e na possibilidade usar chocolate para atrair um Kevin.

Levantamos logo após clarear e antes do café da manhã fomos explorar os arredores do acampamento. Como na tarde anterior rapidamente encontramos um endemismo, a guaracava-dos-tepuis Elaenia dayi (sim, falta imaginação nesses nomes) e estávamos fotografando a dita quando ouvimos uma voz que pareceu familiar.

Ao tocar a gravação notamos um movimento nas árvores e logo todo o grupo vociferava expletivas e furiosamente tirava fotos de um espetacular casal de anambés-de-whitely Pipreola whitelyi, uma das espécies que mais desejávamos. A alegria foi complementada quando vimos nosso primeiro fura-flor-grande Diglossa major, outra especialidade que depois se mostrou uma das aves mais comuns.

Degustamos o café da manhã alegríssimos com o bom começo. Esse dia foi dedicado a observar aves entre o Base e o paredão do Roraima, uma caminhada de meros 2 km, se tanto, mas com inclinações de 75 graus em alguns pontos. Ou seja, bird-watching aeróbico com modelagem de pernas e glúteos.

O exercício valeu a pena. A floresta remanescente naquela área da base do Roraima tem poucas árvores de grande porte e muitos trechos que lembram as florestas nebulares da crista da Serra do Mar, e aves não pareciam muito abundantes. Mas aos poucos fomos registrando nossos alvos, alguns apenas ouvidos, como o torom-de-peito-pardo Myrmothera simplex, outros vistos, mas sem chance de fotos, como o flautista-do-tepui Microcerculus ustulatus, que faz jus ao nome e outras espécies que foram mais cooperativas e deram shows, como o joão-do-tepui Cranioleuca demissa, o alegrinho-de-garganta-branca Mecocerculus leucophrys, a choca-de-roraima Thamnophilus insignis, o barranqueiro-de-roraima Automolus roraimae, o asa-de-sabre-canela Campylopterus hyperythrus, a saíra-de-cabeça-preta Tangara argentea e a patativa-da-amazônia Catamenia homochroa.

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas

Chegamos ao paredão do Roraima no meio da tarde. Ali, 400 m de rocha vertical te desafiam a escalá-los, e nossa prestativa equipe de suporte já nos esperava com o almoço pronto junto a uma cachoeira que nascia de dentro da rocha. Serviço 5 estrelas.

Após encher o tanque avançamos um pouco mais antes de decidir retornar e, exatamente onde havíamos almoçado, encontramos uma das espécies mais desejadas, um joão-de-roraima Roraimia adusta, o único gênero de ave restrito ao Pantepui. Este deu um show, intrigado com o play-back, e ainda atraiu várias outras aves que estavam próximas.

Chegamos ao Base no final da tarde, aproveitando o resto do dia para observar algumas espécies mais comuns, na maioria bichos da savana lá embaixo, que aparecem na área queimada ao redor do Base e eu aproveitei para tomar um bom banho noturno na cachoeira próxima. Nem preciso dizer que foi um bom dia.

Em 11 de fevereiro, saímos às 7:00 para subir os 4,5 km entre o Base e o topo do Roraima, um desnível de uns 900 m. Como eu disse há trechos com inclinação de 75 graus e a trilha, que não é mantida, em muitos trechos é uma voçoroca. Subimos cada um no seu ritmo, acompanhados pelos guias, enquanto a equipe de apoio disparava rumo a nosso próximo acampamento. O preparo físico desse pessoal é impressionante.

Sempre olhando o que voava ao longo da trilha fizemos algumas paradas para olhar e respirar, uma delas para degustar um ótimo abacaxi, cortesia da equipe de apoio. No caminho cruzamos com grupos de brasileiros, venezuelanos, poloneses e outros que desciam do alto da montanha, onde havia chovido impiedosamente desde o dia anterior. Alguns destes grupos que haviam optado por empresas mais baratas e pacotes de curta duração haviam subido no dia anterior e já retornavam. Não me pareceu que aproveitaram como podiam.

A trilha não segue um aclive constante, mas há uma forte descida em um trecho antes da subida que passa pelas Lágrimas, as cachoeiras que caem do alto do Roraima sobre a rampa final que dá no platô. As chuvas haviam transformado as Lágrimas em uma choradeira pior que a que seria vista se o Brasil for excluído da copa do mundo pela Argentina (eu não choraria, pelo contrário) e junto do riacho alimentado por elas encontramos nosso primeiro sapinho-do-roraima Oreophrynella quelchii, talvez arrastado pela água lá do alto. Já falarei sobre este bicho.

A montanha realmente nos torturou e ficamos totalmente encharcados pela inevitável passagem sob a cachoeira, o que esfriou um pouco a animação. Mas passando as Lágrimas e subindo a rampa final finalmente entramos em um ambiente totalmente diferente da floresta abaixo.

As intensas chuvas fazem com que haja pouco solo sobre o topo da montanha e este é dominado por afloramentos de rocha com muitas depressões onde a água se acumula. Embora o arenito seja rosado ou vermelho a superfície das rochas é negra, totalmente coberta por um biofilme de cianobactérias e outros microorganismos que interage com os padrões de erosão.

Sapinho endêmico

O famoso sapinho-do-roraima [i]Oreophrynella quelchii[/i], um dos habitantes mais especiais da montanha.
O famoso sapinho-do-roraima [i]Oreophrynella quelchii[/i], um dos habitantes mais especiais da montanha.

“Ele não pula e não nada muito bem, mas também não precisa. Os ovos, colocados em abrigos sob as rochas, dão origem a sapinhos perfeitamente formados sem passar pela fase de girino”

 

Sob o olhar das rochas conhecidas como Guardiões e Pedra de Makunaima encontramos mais um sapinho-do-roraima e, sem as Lágrimas despencando sobre nós, pudemos observar o bichinho. É um sapinho minúsculo, com 2 cm, e totalmente negro exceto por manchas amareladas no ventre. Além de ser uma camuflagem, a cor é uma proteção contra os raios ultravioleta, intensos no alto de qualquer montanha.

Esse sapinho é encontrado apenas no topo do Monte Roraima e um tepui vizinho, o Wei Assipu, com pelo menos outras nove espécies vivendo em outros tepuis. O interessante é que estas mostram alta diversidade morfológica associada à baixa diversidade genética sugerindo que estavam em contato até recentemente (em termos evolutivos), uma indicação que habitats adequados para estes bichos existiam entre as montanhas durante o Pleistoceno. Uma pista destes podem ser as turfeiras que vimos no caminho até o Base, povoadas por plantas que reencontramos no topo do Roraima.

O O. quelchii é uma das poucas espécies da herpetofauna que vive no hostil topo da montanha. Ele não pula e não nada muito bem, mas também não precisa. Os ovos, colocados em abrigos sob as rochas, dão origem a sapinhos perfeitamente formados sem passar pela fase de girino. A espécie que vive no Kukenan, ali ao lado (O. nigra), é muito social e dezenas de sapos podem ser encontrados juntos em um mesmo abrigo.

Alguns sugeriram que os Oreophrynella fossem parentes mais próximos de alguns sapos africanos que compartilham as mesmas características, membros de uma linhagem anterior à abertura do Atlântico, mas estudos genéticos e morfológicos mostram que isso é uma ilusão causada por evolução convergente.

Plantas carnívoras

A última coisa que muitos insetos vêem: plantas carnívoras do gênero [i]Heliamphora[/i].
A última coisa que muitos insetos vêem: plantas carnívoras do gênero [i]Heliamphora[/i].

“As Heliamphora evoluíram como armadilhas vivas que capturam insetos atraídos para suas folhas, transformadas em poços da morte.”

 

Outra das descobertas nesse trecho da caminhada foram as únicas populações de uma planta carnívora do gênero Heliamphora que encontramos. Existem 5 espécies deste gênero no Roraima e uma é endêmica da montanha, mas a julgar pela experiência dos dias seguintes todas se tornaram muito raras pois não as vimos de novo.

As Heliamphora evoluíram como armadilhas vivas que capturam insetos atraídos para suas folhas, transformadas em poços da morte. Os insetos fornecem nutrientes como fósforo que são muito escassos no pouco de solo que há no Roraima. Clique aqui para ver como isso funciona, com narração de Sir David Attenborough, lá no Roraima.

Além das Heliamphora há outros 5 gêneros de plantas carnívoras que vivem no alto do Roraima e nas turfeiras da Gran Sabana. Alguns gêneros como Utricularia têm espécies diferentes no alto da montanha e lá embaixo. E, como seria de se esperar, há gêneros com espécies diferentes no alto de cada tepui.

A planta carnívora mais evidente no alto do Roraima é a Drosera roraimae e esses predadores vermelhos são abundantes onde quer que haja algum substrato para que se fixem, formando um verdadeiro campo minado para os insetos.

[i]Drosera roraimae[/i] é a planta carnívora mais comum no Monte Roraima. Foto: Rita Souza
[i]Drosera roraimae[/i] é a planta carnívora mais comum no Monte Roraima. Foto: Rita Souza

Paisagens

“Durante a caminhada era difícil escolher qual formação de rochas era mais interessante e você quase acredita nas histórias de que as pedras mudam de posição durante a noite.”

 

Chegar no platô do Monte Roraima é entrar em uma paisagem surreal como uma pintura de Dali e tão difícil de acreditar quanto as desculpas de um político condenado no Mensalão. A paisagem é alienígena, com rochas erodidas em formatos impossíveis. Em meio à garoa que parava e recomeçava caminhamos rumo à Praça Principal, onde há vários dos abrigos sob rocha chamados de hotéis. Nossa equipe já estava no nosso, o Principal, organizando as barracas e o almoço quando chegamos às 13:00.

As primeiras aves que vimos no topo da montanha foram vários tico-ticos Zonotrichia capensis da subespécie macconnelli, endêmica do Roraima. Muito mansos, exploravam o acampamento em busca de migalhas. Também vimos um fura-flor mas, no geral, o topo da montanha é pobre em aves.

Logo as nuvens cobriram o platô e choveu durante boa parte da tarde. Aproveitamos para descansar mas, com a chuva dando uma brecha no final da tarde, enfrentamos a neblina e o vento muito forte para subir o Maverick e ver o Kukenan e o paredão do Roraima sob a última luz do dia.

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas

 

 

Veja
Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 1)
Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 3)

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