Olhar Naturalista
Por aí com Darwin e uma câmera na mão

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 1)

Fábio Olmos
quarta-feira, 9 abril 2014 20:34

O rio Kukenan e o Monte Roraima. A base da montanha já foi coberta por florestas. Fotos: Fábio Olmos
O rio Kukenan e o Monte Roraima. A base da montanha já foi coberta por florestas. Fotos: Fábio Olmos

Entre 1,95 e 1,78 bilhões de anos atrás, areia trazida pela água e pelo vento se acumulou no mar e nas dunas e rios ao longo da costa de um antigo continente. A vida havia surgido uns 1,5 bilhão de anos antes e o planeta, dominado havia tanto tempo por criaturas que hoje chamamos de bactérias, algas azuis (ou cianobactérias) e Archaea, via o surgimento dos primeiros eucariotos, nossos ancestrais diretos.

Esta areia, que em alguns lugares conservou as marcas feitas pelas ondas, foi comprimida e, ao longo de milhões de anos, formou rochas areníticas com centenas de metros de espessura, enterradas por sedimentos mais recentes. Centenas de milhões de anos depois, estas rochas eram parte do supercontinente de Pangea, formado uns 300 milhões de anos atrás. Nessa época já existiam florestas, percorridas por anfíbios e répteis, mas dinossauros e os primeiros mamíferos só surgiriam dezenas de milhões de anos depois.

Uma colisão e tanto

“Exposto aos elementos, o grande maciço de arenito começou a ser erodido, voltando a ser areia, restando alguns pedaços que resistiram por acasos da geomorfologia.”

 

Placas continentais flutuam pela superfície do planeta para lá e para cá e continentes tanto trombam e se unem como se rompem (veja aqui). Foi o que aconteceu com Pangea, que se quebrou uns 250 milhões de anos atrás. Um dos continentes que surgiu dessa quebra, Gondwana, também começou a se romper 200 milhões de anos atrás com a abertura do Atlântico e a separação da África e da América do Sul.

Conforme o Atlântico se alargava e a América do Sul era movida para o oeste, o continente já habitado por dinossauros colidiu com as placas tectônicas que são o assoalho do atual oceano Pacífico, o que continua até hoje. Isso causou o início da elevação dos Andes no oeste do continente e, entre outras coisas, a elevação daqueles antigos arenitos e das rochas vulcânicas embaixo destes.

Essas rochas foram elevadas 3 mil metros acima do nível do mar, formando um planalto que cobria o que é hoje boa parte do sul da Venezuela, oeste da Guiana e o norte de Roraima e Amazonas, um processo que culminou 70 milhões de anos atrás (dinos ainda dominavam a Terra) e foi acompanhado pela formação de fraturas preenchidas por lava vinda do interior do planeta. Essas intrusões deram origem a veios de cristal e jaspe que hoje encantam turistas.

Exposto aos elementos, o grande maciço de arenito começou a ser erodido, voltando a ser areia, restando alguns pedaços que resistiram por acasos da geomorfologia. Estes pedaços são as montanhas conhecidas por tepuis, caracterizadas pelo topo plano rodeado por paredões verticais, como muitas chapadas do Brasil central.

“Montanha de Cristal”

O mais famoso dos tepuis é Monte Roraima, que seria a “Montanha de Cristal” descrita por Sir Walter Raleigh, que explorou a região em 1595 e tem um papel importante na mitologia dos índios locais (é a casa de Makunaima). A montanha atinge 2.806 m de altitude no chamado Maverick (que parece o carro deste modelo estacionado lá em cima) e é parte da fronteira entre a Venezuela, Guiana e o Brasil. A maior parte de seu platô de 31 km2 está em território venezuelano e é parte do Parque Nacional Canaima, criado em 1962 com uma área de 3 milhões de hectares que se sobrepõem ao território ocupado por grupos indígenas como os Pemón. O brasileiro Parque Nacional do Monte Roraima abrange a parte brasileira da montanha e é sobreposto pela terra indígena Raposa-Serra do Sol.

O topo do Roraima só foi atingido (ao que se saiba) em 1884 pelos britânicos Everard F. im Thurn e Harry Perkins, que seguiram uma rota descoberta pelo ornitólogo (sim senhor) Henry Whitely. A façanha capturou a imaginação do público e foi uma das inspirações (junto com a figura do Coronel Fawcett) do livro “O Mundo Perdido“, de Arthur Conan Doyle. Este, por sua vez, inspirou desde vários filmes e séries de TV até a genial animação Up!, que em 5 minutos trata melhor da condição humana que boa parte da filosofia.

Várias expedições posteriores consolidaram o Roraima como destino tanto de expedições científicas como de aventureiros. E, mais recentemente, de turistas que encaram a escalaminhada até o topo. Hoje, entre 15 e 20 mil pessoas vão ao Parque Nacional com o objetivo de subir o Roraima.

A expedição

A caminhada começa na vila de Paraitepui, um povoado Pemón no Parque Nacional Canaima de onde já se vê o Monte Roraima e seu irmão, o Kukenan (à esquerda).
A caminhada começa na vila de Paraitepui, um povoado Pemón no Parque Nacional Canaima de onde já se vê o Monte Roraima e seu irmão, o Kukenan (à esquerda).

“Mesmo que houvesse uma rota pelo lado brasileiro é improvável que fosse possível usá-la já que não há visitação organizada ao mesmo. O que me faz pensar se conseguirei subir o Pico da Neblina, no parque brasileiro homônimo, antes de morrer de velhice, pois a trilha a este pico foi fechada (…)”

 

Os tepuis são famosos por abrigar flora e fauna endêmicas muito interessantes. Embora abrigue menos espécies que as florestas das zonas mais baixas (c. 90 no Monte Roraima), a região do “Pantepui”, que inclui montanhas como o Roraima, a leste, e o Pico da Neblina, a oeste, é considerada uma área de endemismo de aves que influenciou bastante nossa compreensão da evolução da biodiversidade tropical.

Os tepuis a leste do rio Caroni (como o Roraima) são mais ricos em espécies e abrigam mais aves endêmicas (c. 30), incluindo algumas espetaculares. Isso logicamente atrai o interesse de observadores de aves como eu, que gostam de combinar uma boa caminhada com a busca de espécies novas para o life-list. Fora isso, a flora restrita ao topo dos tepuis compõe uma comunidade muito particular que cresce em um ambiente hostil com geologia cênica. Muitas plantas têm adaptações bem especiais para viver ali, incluindo a capacidade de capturar e digerir pequenos animais.

Eu acalentava a ideia de visitar o Roraima há tempos e finalmente decidi. Junto com um pequeno grupo de amigos observadores de aves, organizamos um roteiro com a ajuda dos amigos da Makunaima Expedições, o qual incluiu um tempo extra para que pudéssemos tanto subir ao topo como observar as espécies que buscávamos.

Nossa viagem começou em Boa Vista no dia 8 de fevereiro. Liderados por nosso guia Francisco Diniz, que iria completar sua subida número 49 conosco, partimos muito cedo com destino a Santa Elena do Uraien, na Venezuela. O único acesso possível ao topo, a menos que você voe ou escale, é pela rota usada por Im Thurm e Perkins, no lado venezuelano da montanha. Mesmo que houvesse uma rota pelo lado brasileiro é improvável que fosse possível usá-la já que não há visitação organizada ao mesmo.

O que me faz pensar se conseguirei subir o Pico da Neblina, no parque brasileiro homônimo, antes de morrer de velhice. A trilha a este pico foi fechada, para protesto dos operadores turísticos (incluindo índios locais) enquanto um caro plano de manejo e estudos complementares não são realizados.

O caminho para Santa Elena cruza enormes áreas de lavrado, o “cerrado” de Roraima e da Guiana. Este é um dos ecossistemas brasileiros mais desprotegidos apesar de sua importância e vulnerabilidade.

Bolivarianismo

“(…) fizemos um pit-stop em uma padaria bastante frequentada por outros brasileiros. Não havia pão (há falta crônica de farinha na Venezuela), mas matamos a fome com salgadinhos.”

 

Vimos um tamanduá-bandeira cruzando a BR174 (um sinal de boa sorte!) e fizemos uma parada em Pacaraima, ainda no Brasil, para trocar reais por bolívares fuertes a uma taxa de 1 para 28. A política econômica chavista desvalorizou tremendamente a moeda local e mercadorias e serviços são muito mais baratos na Venezuela do que no Brasil, alimentando um intenso comércio entre Santa Elena e Boa Vista.

Parece bom para nós, mas isso está associado ao colapso da produção local, inflação entre as mais altas do mundo, contas públicas mancas e uma séria crise de desabastecimento resultante da falta de divisas estrangeiras, cortesia de um sistema que transfere os dólares das exportações de petróleo aos amigos do regime. O “socialismo do século 21” tornou a Venezuela uma grande importadora de alimentos, especialmente do Brasil, e deve ser por isso que nosso governo gosta dos chavistas.

Depois de passar pelos postos de fronteira, incluindo a Aduana Ecologica venezuelana, chegamos a Santa Elena, onde encontramos nosso guia local, o atencioso Luis Trejo. Ali transferimos nossas mochilas e carga para um Land Cruiser 4×4 e fizemos um pit-stop em uma padaria bastante frequentada por outros brasileiros. Não havia pão (há falta crônica de farinha na Venezuela), mas matamos a fome com salgadinhos.

De lá, seguimos até Paraitepui, parte do trajeto em uma estrada de terra com voçorocas que engoliriam um mamute. No caminho passamos por belos buritizais em uma paisagem de florestas e campos, os últimos cada vez mais dominantes conforme nos aproximamos de nosso destino. Esta é a Gran Sabana, uma ilha de campos limpos com ocasionais matas de galeria isolada em uma região de florestas.

Paraitepui é uma vila Pemón que também é o portal de entrada para o Monte Roraima, o qual, junto com sua montanha-irmã, o Kukenan, parece enganosamente próximo. Em Paraitepui fizemos os acertos com os carregadores e o restante de nossa equipe de suporte (todos Pemón) e nos registramos no escritório do parque nacional. Foi a única vez que vimos funcionários do parque até nosso retorno.

Um bônus que já animou nosso grupo foi encontrar um rabo-branco-cinza-claro (Phaethornis augusti) em seu ninho dentro do banheiro do centro de recepção aos turistas. Soubemos, semanas depois, que os filhotes cresciam bem.

Gran Sabana

As manchas remanescentes de florestas são derrubadas pelos Pemón para abertura de roças no interior do parque nacional.
As manchas remanescentes de florestas são derrubadas pelos Pemón para abertura de roças no interior do parque nacional.

“O entusiasmado uso do fogo que converte florestas em capinzais é parte da cultura Pemón e esse amor pelas chamas e horizontes abertos tanto impede que florestas cresçam sobre áreas dominadas por capim como muda as condições do solo”

 

Os Pemón são um povo de língua carib, aparentado aos Makushi de Roraima. Sua economia depende da agricultura de coivara, caça e do turismo, além de subsídios governamentais. Eles se consideram um “povo da savana”, em oposição aos “povos da floresta”, e têm uma relação íntima com a origem da Gran Sabana.

A Gran Sabana é uma anomalia, uma área de campos em uma região onde o clima deveria sustentar florestas. A explicação é fonte de debates, mas durante a caminhada até o Roraima e no retorno vimos grandes áreas de savana e matas de galeria recentemente queimadas. Os troncos calcinados de árvores de grande porte que pontuam o sopé da montanha e do Kukenan são testemunhas de florestas que ocupavam áreas muito maiores até não muito tempo atrás.

Grandes incêndios ocorrem na região durantes as secas prolongadas e consta que o paliteiro é resultado de um incêndio provocado em 1926, um ano anormalmente seco, por uma expedição britânica. Mas muitos outros fogos, sem participação estrangeira, ocorreram antes e depois, o que explica a falta de regeneração das áreas queimadas.

O entusiasmado uso do fogo que converte florestas em capinzais é parte da cultura Pemón e esse amor pelas chamas e horizontes abertos tanto impede que florestas cresçam sobre áreas dominadas por capim como muda as condições do solo, tornando a regeneração cada vez mais difícil. Os Pemón, entre outras coisas, acham que o capim seco é triste e incendiá-lo e provocar a rebrota “alegra a natureza”, além de atear fogo na borda dos capões de mata para espantar animais para caçá-los. Isto é um fator importante na implosão da biodiversidade desses remanescentes.

Isso desperta lá (como aqui) o debate entre quem acha que eles devem fazer o que a tradição manda e quem acha que cientistas sociais deveriam saber mais sobre ecologia antes de palpitar sobre o assunto (veja mais aqui e aqui).

Tudo indica que o gosto por ver a coisa pegar fogo data de muito tempo, já que carvões e savanas (que substituíram florestas e áreas arbustivas) surgem ao mesmo tempo no registro paleoecológico (veja aqui e aqui). A Gran Sabana parece ser mais um exemplo de alterações de ecossistemas e erosão da biodiversidade em larga escala provocada por povos “tradicionais” (algo similar ocorreu na Austrália, hoje dominada por vegetação pirófila). Também mostra como a sobreposição entre terras indígenas e Parques Nacionais é problemática para a biodiversidade.

Passamos por muitos trechos de savana que foram queimados dentro do parque nacional, uma tradição muito arraigada entre os Pemón.
Passamos por muitos trechos de savana que foram queimados dentro do parque nacional, uma tradição muito arraigada entre os Pemón.

Primeira perna

“Durante todo o caminho temos o Roraima e seu irmão fotogênico, o Kukenan, ao lado. É difícil parar de tirar fotos, já que as mudanças na luz e nas nuvens mudam a paisagem a cada minuto.”

 

Após os acertos finais, iniciamos a primeira perna de nossa caminhada, 15 km até o rio Tek, onde acamparíamos. O calor do meio-dia era amenizado pela brisa e por estarmos a 1.300 m de altitude. Este trecho da caminhada cruza uma topografia ondulada dominada por campos limpos com alguns riachos margeados por matas de galeria e capões em depressões do terreno. Em um capão que estava sendo convertido em uma roça de mandioca ouvimos e depois localizamos uma araponga-de-barbela (Procnias averano), bicho novo para a maior parte do nosso grupo.

Durante todo o caminho temos o Roraima e seu irmão fotogênico, o Kukenan, ao lado. É difícil parar de tirar fotos, já que as mudanças na luz e nas nuvens mudam a paisagem a cada minuto.

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas

Com paradas para observar aves e descansar, chegamos ao rio Tek às 17:45. Ali existe uma área onde é permitido acampar e construções simples utilizadas pelas empresas de turismo, como cozinha e sala de jantar para seus clientes. Essas foram construídas por empreendedores Pemón que também vendem bebidas, muito bem vindas, aos clientes.

Infelizmente o lugar não conta com estrutura de sanitários ou mesmo sinalização organizando o que deve ser feito onde. A maior parte das empresas simplesmente direciona os clientes portando rolos de papel higiênico para as moitas mais convenientes. O resultado é a criação de campos minados e a visões pouco inspiradoras pelos arredores, com lixo, papel higiênico e fezes ao redor dos acampamentos e rios. A falta de controle pelo pessoal do parque realmente faz falta.

Há empresas, como a nossa, que usam um sistema de sanitário portátil e levam os resíduos para fora do parque, mas estes são minoria. Consta que em março haveria um mutirão para limpar a montanha. Espero que isso tenha acontecido.

No dia seguinte começamos bem, com um belo arco-íris matinal e encontrando um raro papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis) e alguns pedros-celouros (Sturnella magna) ainda no acampamento e, logo depois, um beija-flor (Polytmus milleri, endêmico do Pantepui).

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas

 

 

Veja
Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 2)
Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 3)

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