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Os guarás-vermelhos de São Paulo: quando o errado dá certo

Fábio Olmos
terça-feira, 4 fevereiro 2014 20:18

Guarás-vermelhos em plumagem reprodutiva nos manguezais de Cubatão observados em meados de novembro. Essa cena não era vista ali desde 1997. Fotos: Fábio Olmos
Guarás-vermelhos em plumagem reprodutiva nos manguezais de Cubatão observados em meados de novembro. Essa cena não era vista ali desde 1997. Fotos: Fábio Olmos

O guará-vermelho (Eudocimus ruber) é uma espécie vistosa e bandos com centenas destas aves vermelhas, especialmente durante a temporada reprodutiva, quando suas cores estão mais vivas, são uma visão memorável. É uma ave dos manguezais, onde forma ninhais, uma estratégia que pode funcionar contra predadores naturais, mas torna as aves vulneráveis à ação humana.

Eu tenho uma afeição especial por esta espécie porque estudei sua ecologia e biologia reprodutiva como parte de meu doutorado (quem tiver interesse pode ver os resultados aqui, aqui e aqui), projeto que foi apoiado pela Fundação Grupo Boticário.

Quando os europeus chegaram os guarás habitavam a costa do sudeste-sul do Brasil entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina, o limite sul de sua distribuição chegando aos arredores de Florianópolis. Nessa época, os ninhais dessas aves eram pilhados pelos índios que utilizavam as penas das aves abatidas para sua arte plumária e colhiam ovos para consumo. Um desses grupos era o dos extintos Tupinambá que viviam em São Paulo e Rio de Janeiro (os Guarani que se dizem nativos da mesma região só chegaram ali recentemente) e fabricavam mantos com as penas vermelhas dos guarás.

Os Tupinambás se tornaram famosos não só por se aliarem aos franceses na luta contra os portugueses durante o século XVI mas também por terem sequestrado um artilheiro alemão chamado Hans Staden que legou um dos melhores relatos sobre esta cultura. E menciona um ninhal de guarás em uma ilha costeira fora do atual Guarujá.


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Como foi feito com os povos nativos, os guarás da Mata Atlântica foram gradualmente extintos pela caça e perturbação de seus ninhais. Os últimos guarás foram vistos em Santa Catarina em 1858 e o último ninhal paranaense registrado em 1820. Em São Paulo, após os registros feitos entre 1550 e 1560 por Hans Staden e o padre José de Anchieta, guarás só são mencionados no final do século XIX como ocorrendo sazonalmente no extremo sul do estado, parte do Lagamar de Iguape-Cananéia-Paranaguá. É possível que uma pequena população tenha restado na região por mais tempo, já que três guarás foram observados em 1977 na Baía de Antonina. Também é possível que estes fossem aves escapadas de cativeiro.

Extinção gradual

Guarás parecem ter durado mais no Rio de Janeiro, onde aves adultas e jovens eram vistas na Baía de Guanabara até 1952 e um exemplar (nativo ou fugido?) foi observado na Barra da Tijuca em 1979.

Essa extinção em prestações, com exemplares perdidos esparsos pela antiga área de distribuição é comum e torna muito difícil dizer quando uma espécie ou população efetivamente se extinguiu, especialmente para aquelas que podem viver décadas (guarás passam dos 30 anos), mas é válido afirmar que Eudocimus ruber foi extinto no sul-sudeste como uma espécie reprodutiva viável na década de 1950. Por sinal, quando manguezais começaram a ser seriamente destruídos pela industrialização, construção de portos e urbanização.

Várias aves em processo de extinção se tornam figurinhas cobiçadas por coletores de museu. Isso ajudou a eliminar os últimos exemplares da Great Auk, do Quelili e do Ivory-billed Woodpecker, entre outros. Na mesma veia, um coletor do Museu Nacional querendo uma figurinha rara abateu uma fêmea na Baixada de Guaratiba em 1985.

Na década de 1950 os guarás estavam efetivamente extintos em São Paulo, especialmente na bem explorada região do porto de Santos e do polo industrial de Cubatão. Nessa época o Orquidário de Santos tinha, além de orquídeas, uma pequena coleção de animais que incluía aves aquáticas trazidas de outras partes do Brasil. Às vezes o Orquidário recebia mais aves do que cabiam nas suas instalações e estas eram simplesmente soltas sem que as penas das asas fossem cortadas. Em alguns casos, as aves eram deliberadamente libertadas nos manguezais da região.

Entre as aves soltas estavam guarás. Alguns parecem ter voado já em 1959 (e uma no museu da ESALQ foi morta em 1961), mas não há documentação detalhada. Registros escritos mostram que 18 casais de guarás provenientes do Maranhão foram liberados entre 1967 e 1969. Essas aves, possivelmente com a contribuição de outras solturas, são os fundadores da população de guarás-vermelhos que hoje recoloniza seus antigos domínios. Dados genéticos mostram que as aves do sudeste do Brasil não são diferenciadas em relação às do Pará e Maranhão, o que seria esperável caso fossem descendentes de uma população autóctone.

Durante décadas os guarás permaneceram nos manguezais de Santos e Cubatão, não exatamente o lugar mais seguro do mundo. Em 1986 a população era de 82 aves. Em 1994 havia 385. Em 1996 o número chegou a 505. Uma temporada reprodutiva fraca em 1997 elevou a população para 575.

Caçadores

No final desse ano, quando as aves construíam seus ninhos, caçadores mataram várias delas e provocaram o abandono do ninhal. O mesmo aconteceu quando elas tentaram nidificar em 1998 e dezenas de aves teriam sido mortas. As aves nunca mais voltaram a nidificar na região, mostrando o impacto que dois ou três fdps armados podem ter sobre uma espécie ameaçada e que conservação não pode depender só de educação (Cubatão havia adotado a ave como símbolo da sua “recuperação ambiental”…). Polícia, cadeia e cercas são fundamentais.

Este desastre aconteceu porque, embora ciente da situação e de pedidos para proteger o ninhal, o comando da Polícia Ambiental da região não deu a mínima e continuou com a tradição local de atuar só onde há asfalto. Situação que não melhorou desde então. Já redescobri mais espécies regionalmente extintas ou inéditas nos manguezais da região do que encontrei patrulhas policiais.

O vandalismo levou as aves a abandonar tentativas de nidificar em Santos e Cubatão. Felizmente, elas foram espertas o suficiente para buscar um novo lugar e em 2003 um novo ninhal se formou na Ilha Comprida, no litoral sul paulista. Este ninhal foi acompanhado pelo IBAMA de Iguape, o que garantiu uma proteção melhor, e várias temporadas reprodutivas bem sucedidas permitiram o aumento gradativo da população, que hoje usa boa parte do Lagamar.

A partir daí as aves passaram a visitar Santos e Cubatão apenas após a temporada reprodutiva, e também a aparecer no Paraná (onde dois também foram mortos para abastecerem um museu) e Santa Catarina. Ali, uma nova colônia reprodutiva foi encontrada na Baía de Babitonga, a mesma onde um refúgio de vida silvestre deveria ter sido criado faz tempo.

É possível que a população atual dos guarás da Mata Atlântica supere mil aves adultas e os registros mapeados no Wikiaves mostram como a espécie está recuperando sua área de distribuição.

Apesar dos pesares

É uma história positiva apesar da inépcia de quem deveria colocar caçadores na cadeia e da má vontade de quem deveria proteger os manguezais. Afinal, o governo paulista deseja destruir os manguezais de Santos e Cubatão para dar lugar a terminais portuários (enquanto o Porto de Santos tem pelo menos 2 km de áreas ociosas ao longo do estuário), e o projeto de um parque estadual que protegeria a área “sumiu” da SMA-SP.

Em novembro de 2013 voltei a visitar os manguezais de Santos e Cubatão com meus amigos Robson Silva e Silva (autor do livro Guarás Vermelhos no Brasil e uma das autoridades na espécie) e Alexandre Grose, que está estudando os guarás catarinenses e é autor do guia das aves da Baia de Babitonga. Pela primeira vez, desde 1998, bandos de guarás em plumagem reprodutiva apareceram na região e dão sinais de que vão iniciar um ninhal.

Foi uma visão espetacular que me fez pensar que em qualquer país medianamente civilizado o espetáculo destas aves levaria não só à proteção imediata da área e que ao invés de paranthropus dando tiros nas aves teríamos turistas enchendo cartões de memória e gastando com serviços locais.

Apesar de tudo, estas aves estão fazendo sua parte para trazer de volta um dos grandes espetáculos naturais que os primeiros turistas, como Staden e Anchieta, puderam observar na região. Elas são resultado de uma translocação feita sem critérios, sem monitoramento, sem planejamento, sem nada. Mas que deu certo. Talvez, pela primeira vez em 15 anos, centenas de novos guarás farão seu primeiro voo na Baixada Santista. Talvez tenhamos outro desastre.

Falta saber se a Polícia Ambiental e a Secretaria de Meio Ambiente paulistas também farão sua parte.

 

 

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