Olhar Naturalista
Por aí com Darwin e uma câmera na mão

Apocalipse Maia 2.0: agora pode ser a nossa vez

Fábio Olmos
quarta-feira, 6 fevereiro 2013 21:32
Aproveitando o pré Fim dos Tempos nas ruínas de Palenque, no México. Atrás está o Tiemplo de La Calavera. Foto: Fabio Olmos
Aproveitando o pré Fim dos Tempos nas ruínas de Palenque, no México. Atrás está o Tiemplo de La Calavera. Foto: Fabio Olmos

Parabéns, você sobreviveu ao Fim do Mundo. De novo. Muito se falou sobre o mundo acabar em 21 de dezembro passado, data supostamente marcada no calendário maia, e ainda estamos aqui.

Tem sido assim desde que profetas começaram a exercitar a arte de engabelar os que, por alguma razão, parecem querer que (entre diversas opções) a coisa pegue fogo, uma Coréia do Norte celestial na Terra, ou haja um grande genocídio de infiéis antes de uma festança eterna.


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A lista de apocalipses anunciados e passados é grande e há uma notável associação entre denominações cristãs e previsões furadas. Um detalhe impressionante é como religiões que ainda estão por aí erraram redondamente sem que os fiéis questionem a falta de credibilidade de seus líderes.

A fé, melhor definida como a crença em algo apesar das evidências em contrário, é uma das características mais peculiares da mente humana, resultado de bugs intrínsecos à forma que nosso cérebro funciona. Estes tiveram valor adaptativo quando éramos caçadores-coletores vivendo em grupos pequenos, mas hoje produzem efeitos colaterais visíveis nas partes mais deprimentes do noticiário.

Contrapartida da fé

A fé tem sua contraparte, a descrença em algo apesar das evidências. Vemos muito disso na área ambiental, farta em mitos que vão da “energia limpa” das usinas hidrelétricas e da sustentabilidade intrínseca do modo de vida “tradicional” à negação das mudanças climáticas aceleradas pelas nossas emissões de gases de efeito estufa.

O fato de uma parcela enorme da humanidade acreditar em bobagens atrozes e considerar realidades como irreais (o criacionismo é um bom exemplo) é uma das razões pelas quais o bom e velho método científico deveria ser ensinado muito cedo na escola, e não apenas em cursos superiores, como é praxe.

Saber cotejar hipóteses com evidências, comparar os resultados de experimentos, avaliar a probabilidade de cenários e exercitar uma mente crítica não resulta apenas em uma melhor apreciação da beleza e mágica da realidade, mas também é um poderoso detector de bullshits, de promessas de campanha a alegações de “eu não sabia”, que resulta em melhor cidadania.

A civilização clássica dos Maias colapsou (de forma sangrenta) porque a superpopulação e aumento do consumo destruíram os ecossistemas de que sua economia agrícola dependia e a tornou vulnerável a secas (quem não conhece a história deve ler “Colapso”, de Jared Diamond). Aposto que havia quem dissesse que desmatar áreas de recarga de aquíferos, topos de morro, nascentes e margens de rio era uma má ideia. Aposto também, houve quem disse que seria melhor acionar o freio demográfico. E havia os que diziam que deveriam seguir como sempre haviam feito.

A resposta dos sacerdotes e reis que dominavam a sociedade maia foi aumentar os sacrifícios (humanos) aos deuses, rezar mais e tentar a conquista de territórios mais aprazíveis. No final, os Maias se tornaram história e suas cidades ruínas visitadas por turistas.

Eu sempre acho impressionante como a incapacidade humana de olhar o passado e aprender com ele nos faz repetir os mesmos erros. O problema é que ao invés de uma civilização qualquer as mudanças climáticas ameaçam todas as sociedades humanas. A covardia desta geração medíocre de “líderes” de hoje nos promete tempos interessantes à frente.

Um dos maiores divulgadores científicos do século passado, o astrofísico Carl Sagan, disse que “eu não quero acreditar, eu quero saber”. Em tempos onde o baboseiras e mentiras ameaçam nosso futuro precisamos de mais pés na realidade e menos na crença.

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