Geonotícia
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O Cerrado fez aniversário mas não há razão para festa

Gustavo Faleiros e Eduardo Pegurier *
quinta-feira, 13 setembro 2012 21:36

 

As queimadas que consomem o Cerrado em números chocantes

Essa semana, no dia 11, foi comemorado o Dia Nacional do Cerrado. É bom que a data exista, pois talvez algum dia possamos festejá-la. No momento, o foco sobre o Cerrado é apenas uma maneira de voltar a atenção para as suas tragédias.

O Cerrado é, hoje, o bioma brasileiro desmatado com maior rapidez.  Em um ano apenas, entre 2008 e 2009, perdeu 0,37% da sua área, o que equivale a 75,6 mil km2. No total, já foram desmatados 957,7 mil km2 da sua área original de 2 milhões de km2 — restam cerca de 53%.

As queimadas e o desmatamento estão ligadas diretamente. Entre julho e meados de setembro, auge da temporada de seca e queimadas, o Cerrado foi também, disparado, o bioma que mais queimou. No mapa acima, a cor alaranjada representa a sua área. Os pontos vermelhos são focos de queimada entre julho e setembro. O norte do estado é um borrão vermelho.

Nas últimas 48 horas, havia 4.583 focos no Brasil, 2.119, ou 46%, estavam no Cerrado. A Amazônia tinha 1.637 focos, a Caatinga 498, a Mata Atlântica 296 e o Pantanal apenas 33.
“Nesta época do ano, o homem é o único responsável pelos incêndios. Fogo considerado natural é apenas aquele causado por raios, e nesta época isso não ocorre”, diz Christian Berlinck, coordenador de Emergências Ambientais do ICMBio. Ele explica que incêndios causados por raios em geral são sucedidos por chuvas que limitam a sua extensão.

Alberto Setzer, coordenador do Monitoramento de Queimadas do INPE, bate no mesmo ponto: “Hoje, temos dezenas de focos de incêndios criminosos ocorrendo dentro de Unidades de Conservação e milhares de focos espalhados pelo Brasil. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) produz os principais levantamentos sobre queimadas no Brasil”.

Entre 1 de julho e 11 de setembro de 2012, essa última data aquela em que se comemora o aniversário do Cerrado, ele teve 47,5 mil focos de incêndio, o que equivale a 53% do total do país. No mesmo período, em 2011, tinha 27,5 mil focos, que representavam 55% do total. Para encerrar a saraivada de números, a quantidade verificada este ano foi bem maior. Mais precisamente, no período mencionado, houve 72,7% mais focos de incêndio em 2012. Como se vê, nada a festejar.

Segundo Berlinck, “O Cerrado é o Bioma com mais problemas mesmo. Além de estar há praticamente 3 meses sem chuva, é um ambiente que tem uma relação natural com o fogo”. Entretanto, nada há de natural na multiplicação das queimadas fora de estação produzidas pelo homem.

Através dos gráficos de pizza abaixo, explore os números passando o mouse sobre a cor de cada bioma.

 

Convivendo com as queimadas em Palmas, Tocantins, por Leilane Marinho

“Você tem certeza que este fogo não chega aqui?”, questionou um amigo de Florianópolis, assustado com a quantidade de fumaça que entrava na casa. Ele nunca não tinha visto algo parecido. “Não, não chega. É assim todos os anos”, respondi sem querer rir do seu espanto, afinal, a situação era trágica: só este mês 600 focos de incêndio foram registrados no Tocantins. Segundo a Defesa Civil, os focos concentram-se em Unidades de Conservação e Terras Indígenas e em sua maioria, é provocada pelo homem.

O maior incêndio é na Ilha do Bananal, que está tomada pelo fogo e é a região mais atingida no Estado. Dentro da ilha, onde fica o Parque Nacional do Araguaia (PNA) e também as Terras Indígenas Ináwébohona e  Utaria,  já foram queimados 130 mil dos 555 mil hectares da unidade. Um número ainda pequeno comparado a grande queimada de 2010 que destruiu mais da metade parque.

Raoni Japiassu, chefe do PNA, disse ao ((o))eco que ainda é cedo para apontar as causas das queimadas. “Estamos providenciando uma perícia, mas temos fortes indícios de que a maioria dos incêndios, sobretudo o maior deles, que atingiu 108 mil hectares do Parque Nacional, foram iniciados por pescadores clandestinos. É possível que alguns estejam relacionados à presença de gado no entorno e interior da unidade”.

Em Palmas, capital tocantinense, a sorte da cidade é ser margeada no seu lado esquerdo pelo reservatório da UHE de Lajeado, formado do Rio Tocantins. Penso que seria impossível viver aqui nesta época de seca se não fosse essa água, já que, do lado direito, a Serra do Carmo que contorna a cidade queima quase que por completa. Lembro-me da primeira vez que vi as linhas de fogo formadas pelas labaredas descerem e subirem a serra na escuridão da noite.  Foi assustador.

Além do fogo na serra, incêndios no Parque Estadual do Lajeado, Unidade de Conservação próxima a Palmas, agrava ainda mais o problema. Não é exagero dizer que por esses dias vivemos realmente dentro de uma bolha de fumaça, onde não existe céu azul. Ardem os olhos, o ar fica pesado e você sempre exala um cheiro de fumaça. Não há um lugar na casa livre da fuligem.

Nesta época, aumentam as vendas de umidificadores e nebulizadores. E na mesma proporção os problemas respiratórios. Os postinhos de saúde estão superlotados. “Quem tem predisposição adquire fácil uma sinusite, pneumonia ou bronquite”, alerta o cardiologista Wallace André.

Mas, acreditem, no meio destas cinzas existe um ponto positivo. Somente um. Graças a fumaceira o pôr-do-sol torna-se um espetáculo à parte. Em Palmas, do lado oposto do fogo, bem na linha do lago, um sol arde em chamas e desce visível como uma bola vermelha. É sem dúvida o mais belo e mais triste pôr-do-sol que já vi.

*Arte e gráficos: Paulo André Vieira

 

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