Espécies em Risco
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Coral-de-fogo: o toque que queima

Rafael Ferreira
sexta-feira, 16 agosto 2013 13:00
Um cardume de hawkfish passeia entre os ramos do coral-de-fogo. Certas de espécies de camarão e peixe se refugiam no coral, imunes ao seu veneno. Foto: Eric Burgers /Flickr
Um cardume de hawkfish passeia entre os ramos do coral-de-fogo. Certas de espécies de camarão e peixe se refugiam no coral, imunes ao seu veneno. Foto: Eric Burgers /Flickr

Embora o coral-de-fogo (Millepora alcicornis) tenha este nome, tecnicamente não se trata de um coral. Este cnidário, do gênero Millepora não é como aqueles pertencentes à classe Anthozoa, mas está entre os denominados falsos corais duros, ou hidrocorais, da classe Hydrozoa, sendo mais relacionados com uma água-viva do que a um coral duros.

Seu nome científico vem do latim, sendo que Millepora que significa “mil de poros” e alcicornis significa “chifre de alce”, referindo-se à forma da estrutura ramificada. Foi descrito pela primeira vez por Linnaeus em 1758. Desde então, a variação do seu padrão de crescimento cria confusão ao tentar identificá-lo. Isso se deve à sua adaptação a fatores ambientais: intensidade das correntes aquáticas, calmas ou agitadas, e o local onde está encrustado, se pedras, outros corais ou casco de navios naufragados.

As colônias de coral-de-fogo podem ser encontrada no Mar do Caribe, no Golfo do México, Flórida, Ilhas de Cabo Verde e ao longo de toda a costa da América Central à América do Sul, até o sul do Brasil. Ele cresce a profundidades de até 40 metros e é o único membro dos Millepora que ocorre em profundidades superiores a 10 metros.

Dentro do seu esqueleto de calcário, o coral-de-fogo carrega inúmeros pólipos microscópicos. Escondidos atrás dos poros do esqueleto do coral, estes microorganismos são altamente especializados e ligados internamente por um sistem de canais. Cada grupo exerce uma função específica: defesa, reprodução, processamento e digestão, captura do alimento, além da excreção do material calcário necessário à construção e crescimento do esqueleto.

O Millepora alcicornis se alimenta de plâncton, principalmente, mas também fazem parte do seu cardápio pequenos peixes que se aventuram em sua proximidade: os pólipos lançam de seus tentáculos substância paralisante e, em seguida, arrastam a presa para o pólipos responsáveis pela alimentação. Aliás, os mesmos pólipos responsáveis pela captura, os cnidocytes também promovem a defesa da colônia: quando são tocados, por exemplo, por incautos mergulhadores, podem injetar um veneno que provoca uma sensação de queimadura dolorosa, erupções da pele, bolhas e cicatrizes. A toxina, solúvel em água, é forte o suficiente para matar um rato de 20 gramas.

A reprodução se dá através de meios assexuados ou sexuados. O método mais frequente, o assexuado, se dá quando fragmentos do coral são destacados da colônia (por tempestades, por exemplo), e levados para outros locais. Se forem locais adequados, o fragmento crescerá como uma nova colônia geneticamente idêntica à original. A reprodução sexuada ocorre quando pólipos específicos produzem medusas de curta duração que se separam da colônia. Estas medusas produzem gametas que, após a fecundação, se desenvolvem em plânulas que derivam com as correntes como parte do zooplâncton, antes de se estabelecer em e desenvolver em em novas colônias.

A maior ameaça ao Millepora alcicornis é o aquecimento global e a consequente subida da temperatura do mar. Outras ameaças gerais aos recifes incluem a acidificação dos oceanos, poluição, assoreamento, espécies invasoras e mudanças na dinâmica das espécies, doenças de corais, a pesca e atividades de lazer ou turismo. Por sua capacidade de recuperação, o IUCN classifica a éspécie como Pouco Preocupante, mas, no Brasil, as ameaças acima são suficientes para que o ICMBio à considere Vulnerável.

 

 

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