Análises

Visitação: Mais endorfina, menos cortisol

Abrir os parques e outras unidades de conservação para o público recreativos, além dos esportistas radicais, conecta pessoas, instituições e territórios.

Adriano Melo · Pedro da Cunha e Menezes ·
1 de março de 2016 · 6 anos atrás

Um questionamento contemporâneo é o estilo de vida que levamos, a rotina atribulada, a agenda densa, a carga de trabalho de no mínimo oito horas e cinco dias na semana, hierarquias rígidas, os desestímulos recorrentes, o pouco tempo para viver e outras tensões diárias. O cortisol, conhecido como hormônio do estresse, tem sido convidado com frequência para a vida das pessoas, com prejuízos ao bem-estar duradouro.

Ao contrário, as unidades de conservação da natureza geram oportunidades para produção de endorfina, o hormônio do prazer. Elas alteram o estado de espírito do visitante para uma condição aberta à reconexão com o natural, permitem-lhe se inspirar para se reinventar e transformar seu estilo de vida. Mas isso pede a implantação do uso público nas UCs: abrir áreas naturais protegidas à visitação, implantar estruturas e serviços de apoio ao visitante e instrumentos de gestão e participação social. Significa ofertar ao público experiências inesquecíveis para produção de endorfina, bem-estar, inspiração, conexão e centenas de outras vivências sensoriais positivas.

“a visitação das áreas protegidas brasileiras precisa ser mais democrática. Afinal, todos têm direito de perder o fôlego diante de paisagens pujantes”

O direcionamento atual brasileiro para o uso de UCs privilegia os visitantes que gostam de atividades extremas, como escaladas e trilhas longas. O desafio dos gestores de unidades de conservação, portanto, é conectar visitantes de todos os perfis à essência desses lugares.

Procura-se visitantes, radicais ou curtidores

Visitante pratica yoga no Parque Estadual da Serra da Tiririca, Niterói, RJ. Foto: Enrico Marone
Visitante pratica yoga no Parque Estadual da Serra da Tiririca, Niterói, RJ. Foto: Enrico Marone

É fácil reconhecer nos parques visitantes dispostos a uma longa caminhada, em áreas pouco acessadas, repletas de obstáculos e com paisagens naturais de tirar o fôlego. Esse perfil se enquadra no de uma pessoa sozinha até um grupo de dois ou três, no máximo, e pode ser classificado como ‘convertidos’. Embora esses visitantes sejam importantes, a visitação das áreas protegidas brasileiras precisa ser mais democrática. Afinal, todos têm direito de perder o fôlego diante de paisagens pujantes, desde pais com seus filhos, avós com seus netos, grupos da terceira idade, portadores de necessidades especiais, religiosos e outros públicos interessados.

A acessibilidade até o parque e dentro dele é quesito indispensável para que isso ocorra, o que na prática significa oferecer estruturas e serviços de apoio adequados a um público eclético.

Preparando a casa para visitas

“Dentre as primeiras ações básicas, destacam-se estradas e trilhas bem sinalizadas e demarcadas.”

A essência de uma visita a uma unidade de conservação é a interação com a natureza. Procura-se um contato direto com o meio ambiente, como aquele proporcionado por banhos de rio, lago, cachoeira ou mar, piqueniques, caminhadas, pernoites ao ar livre, pedaladas, saltos de voo livre, surfe, corridas de aventura, escaladas, mergulho e outras atividades. Por isso, uma boa infraestrutura de visitação em unidades de conservação é aquela que permite essa variedade de atividades. Dentre as primeiras ações básicas, destacam-se estradas e trilhas bem sinalizadas e demarcadas.

Vencida a primeira barreira, que são as estradas e, principalmente, as trilhas, os outros equipamentos devem ser implementados aos poucos, em sintonia com a demanda criada pelo uso. Locais para piqueniques, bancos, quiosques, mirantes, espaços apropriados para acampamento e abrigos de montanha podem ser construídos e administrados pelas próprias instituições gestoras das áreas protegidas. Já pousadas, lanchonetes e restaurantes, lojas de aluguel e venda de equipamentos (como bicicletas, mochilas, barracas etc.), dentro ou no entorno imediato de uma UC, podem ser viabilizados por meio de concessões ou atividades terceirizadas, para incentivar a economia das comunidades próximas e ajudá-las a gerar emprego e renda.

Símbolo democrático de infraestrutura recreativa, a mesa de piquenique é pouco vista nos parques e outras UCs brasileiras. Foto: Pedro Menezes
Símbolo democrático de infraestrutura recreativa, a mesa de piquenique é pouco vista nos parques e outras UCs brasileiras. Foto: Pedro Menezes

Mais visitação, menos conflitos

A prática sugere que a visitação e atividades do público nos parques complementam os esforços tradicionais de fiscalização para inibir a caça, impedir o extrativismo e reduzir conflitos com comunidades. O componente de gestão ‘uso público’ fortalece os laços da UC com pessoas, instituições e territórios e, por isso, não pode ser adiado ou preterido dentro das prioridades de gestão.

Esse artigo é um resumo do capítulo publicado no livro “Uma Rede no Corredor: memórias da Rede de Gestores do Corredor Central da Mata Atlântica Mata Atlântica”, organizado pela Conservação Internacional. 

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  • Adriano Melo

    Adriano Melo é Coordenador de Projetos na Conservação Internacional, onde atua no tema planejamento e gestão de áreas naturai...

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Comentários 7

  1. Ronaldo diz:

    Muito bom. Assino embaixo. Parabéns Adriano e Pedro.


  2. Daniel Franco diz:

    Ótima reflexão. A única forma legítima de garantir a existência eterna de uma UC é garantindo que ela tenha valor tangível pela sociedade civil ampla, e isto infelizmente não se trata apenas de serviços ecossistêmicos. A possibilidade do uso cria uma relação entre os habitantes do entorno e a UC, fazendo com que o povo sempre as deseje preservadas.


  3. Andrea Ferrari diz:

    Ótimo! Também sou incentivadora de visitação nas UCs. Uma questão: gestores de Estações Ecológicas costumam utilizar a legislação restritiva para este tipo de UC e evitam a visitação. Penso eu que quando a legislação fala em permissão/autorização pelo gestor para uso com fins educacionais isso inclui também algum tipo de turismo, como o de observação de aves, por exemplo, não? Afinal, conhecer uma UC e seus recursos faz parte de um processo educativo, certo? Fotos para sites como wikiaves pode ser uma contribuição para uma ferramenta de educação, não? Com isso os gestores podiam ter uma visão mais flexível e aproveitar a legislação para favorecer o turismo ecológico também em Estações Ecológicas.


  4. Luiz Antonio Gambá diz:

    Um ótimo texto, Adriano e Pedro. Incentivar o uso público de verdade nas UCs é também inibir a pratica de caça e desmatamento. Além de ganhar mais agentes fiscalizadores de um patrimônio que é de todos nós, seja ele municipal, estadual ou federal.


  5. paulo diz:

    Esta demorando. Vamos sra. Isabela, mexa-se.


  6. Andreia diz:

    O desafio básico e principal dos gestores d UCs é lidar com recursos já minguados, e que são cada vez mais cortados neste país! Vejam o que está acontecendo com o PARNA da Serra da Capivara, e este tá na mídia (maios ou menos) … Fora os outros que estão até situações muito piores e nada é divulgado!!! Vamos divulgar a real situação dos parques e outras UCs do Brasil!!! A realidade!!!!


  7. Cássio Garcez diz:

    Parabéns, Adriano e Pedro, pelo texto afinado e coerente. Fico também na torcida por essa necessária e urgente evolução da gestão do uso público em nossas UCs, sejam elas federais, estaduais ou municipais. Abraços aos dois.