Trilha Velho Chico: por caatingas e cerrados até a Canastra

terça-feira, 21 agosto 2018 14:05
Até onde o rio me levar. Trilha Velho Chico começa a sair do papel. Foto: Pedro da Cunha e Menezes.

Aqui, neste rio de baixo, foram quase vinte anos imaginando como não perder, pelo mato crescendo, pelo esquecimento, o secular varedo que leva do oceano às cabeceiras do Velho Chico, para riba das cachoeiras.

Pelos beiços do rio, rotas pisadas há séculos, pelos que aqui já estavam, antes das naus fundearem na foz, e consolidadas pelos de fora, batendo na serra da Canastra. Varedos ainda hoje andados quase que só pelos mais velhos, povinho mais tinhoso, segurando seu rojão de vida: “tudo agora é moto… jegue é coisa do passado, de museu, e quem quer andar de pés?”

E se estes caminhos, ainda na memória, fossem arrumados, marcados e batessem no rio de cima, correndo até as nascentes do Velho Chico? Se as pessoas pudessem viajar, de rio acima, de rio abaixo, mirando, sentindo, conhecendo, ouvindo, aprendendo um mundo de coisas. Sobretudo aprendendo e reaprendendo, para os daqui, a gostar, mesmo, destes lugares tão esquecidos. Pois agora pode ser. E, quem quiser aventurar, que prepare seu bornal, seu comer, uma aguinha e siga seu caminho.

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No dia 12 de agosto, domingo, a primeira pegada amarela e preta às margens do rio São Francisco, no alto sertão de Alagoas, iniciou o projeto de colocar no chão a Trilha do Velho Chico. A tarefa foi parte da 1ª. Oficina de Trilhas do Baixo São Francisco – Módulo Sinalização, organizada pela Reserva do Patrimônio Particular da Natureza (RPPN) Mato da Onça e sua gestora, a Sociedade Canoa de Tolda, em cooperação com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) –, através do Projeto Opará, patrocinado pelo Petrobras Ambiental.

Pegadas amarelas indicam o caminho. Foto: Acervo/Canoa de Tolda.

Esta organização permitiu a vinda do Coordenador-Geral de Uso Público e Negócios (CGEUP) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Pedro da Cunha e Menezes, para a capacitação da equipe de voluntários durante todo o dia 11, no povoado Ilha do Ferro, acima de Pão de Açúcar. O tempo foi dedicado ao conhecimento de experiências no Brasil e no mundo e do Sistema Brasileiro de Sinalização de Trilhas, criado pelo ICMBio.

Ainda na praça da Ilha do Ferro, antes da caminhada, o primeiro ato oficial: a criação da Trilha Velho Chico através de ata oral gravada. A gravação, uma vez transcrita, estará no relatório da jornada para encaminhamento ao Sistema Nacional de Trilhas de Longo Curso, órgãos públicos afetos ao tema trilhas, conservação de biodiversidade, revitalização do São Francisco, ecoturismo e turismo de base comunitária.

Ao término da travessia, no Mato da Onça, foram estabelecidas metas de serem sinalizados cerca de 6 quilômetros na região do MONA Xingó e a mesma distância em Piaçabuçu, AL e Brejo Grande, SE, na foz do rio. A estratégia é de serem criados outros grupos no Baixo São Francisco que, localmente, “esticam” seus segmentos de trilhas sinalizadas até seus limites possíveis, e dali passam a tarefa para outro grupo que segue o mesmo modo de operação.

O primeiro passo foi dado. Foto: Acervo/Canoa de Tolda.

A oficina mobilizou dezessete pessoas das comunidades da região, órgãos públicos, organizações não-governamentais, instituição de ensino e pesquisa, além de empresas de turismo de natureza: grupo variado que sinalizou os 6 quilômetros iniciais da Trilha Velho Chico (TVC) no trecho Ilha do Ferro ao Mato da Onça. A travessia inicial abre duas frentes de trabalho: para riba, até a Serra da Canastra – cerca de 2.500 quilômetros pela frente, e até a foz, os derradeiros 200 quilômetros.

Quando finalizada, a Trilha Velho Chico contará com aproximadamente a mesma distância entre a nascente do São Francisco e sua foz, cerca de 2.700 quilômetros e conectará diversas Unidades de Conservação, além de se integrar com a Estrada Real, possibilitando outra descida até o mar e uma esticada à Trilha Espinhaço e aos Caminhos dos Goyases.

 

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