Análises

Trabalhar com conservação em tempos de pandemia

Será que podemos eventualmente transmitir o vírus para as onças em uma campanha de captura, onde existe contato muito próximo com os animais? Não sabemos

Yara de Melo Barros ·
12 de abril de 2020 · 1 anos atrás
Parece selfie, mas foi só a captura de uma câmera trap. Foto: Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

Tenho recebido perguntas sobre como está sendo trabalhar com conservação de onças em meio à pandemia de COVID-19. Bom, está sendo um exercício de adaptação.

Em meio à queda de braço entre quem quer quarentena e quem acha isso um preciosismo desnecessário, o Projeto Onças do Iguaçu optou por se posicionar em suas redes sociais clara e fortemente à favor do distanciamento social, porque né… ciência! (Um parêntese para dizer que é assombrosa a falta de confiança das pessoas na ciência, confiança que é transferida para “falsos messias”, curas milagrosas e uma fé quase cega em mentiras que circulam na internet. E isso é mais um lembrete de algo que nós cientistas já sabemos: não nos comunicamos de forma apropriada. Falamos para nós mesmos, pregamos para convertidos e a sociedade, órfã de ciência, se agarra a mitos. Fecha parênteses).

Mas além do posicionamento, como fica o trabalho? Porque não conseguimos dar uma pausa nos problemas que afetam as onças como estamos dando uma pausa no contato social.

Internamente nossa equipe discute que desconhece esse lance de tédio da quarentena, pois continuamos a trabalhar feito doidos! Uma grande parte da população, além do trabalho de sempre, ainda acumula coisas antes terceirizadas, como o trabalho da casa, cuidado de crianças e tal.

Como existe sim beleza no caos, conseguimos adaptar o trabalho a nova situação, e estamos reinventando a forma de trabalhar.

Todas as atividades que envolviam contato com as comunidades, como as de engajamento e coexistência, não podem mais ser feitas presencialmente. E estamos tendo um retorno bem bacaninha do exercício de usar outras formas de “estar perto”. Fizemos nossa primeira live em redes sociais, e o resultado foi tão interessante que a ideia é incorporar essa ferramenta permanentemente no nosso “cardápio” de comunicação. A equipe está gravando vídeos para se comunicar com as comunidades locais. Esses vídeos vão não só para redes sociais, como para grupos locais de Whatsapp. Os vídeos têm o objetivo de cultivar os laços já estabelecidos, e abrir um novo canal de comunicação no qual as pessoas possam tirar dúvidas e se relacionar com a equipe. Também estamos usando as rádios, que têm bastante alcance no interior.

“Será que podemos eventualmente transmitir o vírus para as onças em uma campanha de captura, onde existe contato muito próximo com os animais? Não sabemos.”

O trabalho de campo está sendo feito de forma cuidadosa: quando possível, um membro da equipe vai sozinho para o campo. Se isso não é possível (ou seguro), vão duas pessoas, mantendo a distância recomendável e tomando as demais precauções. Alguns atendimentos de emergência não podem ser suspensos, como atendimentos à predação e avistamentos de grandes felinos em áreas habitadas por humanos, mas são feitos de forma cuidadosa.

Continuamos o monitoramento de fauna dentro do Parque Nacional do Iguaçu, e teremos a possibilidade de fazer comparações entre os períodos com e sem visitantes.

Temos agora uma preocupação adicional da recente descoberta de um tigre e possivelmente outros grandes felinos testando positivos para a COVID-19 no Bronx Zoo. Isso acende uma luz de alerta. Será que podemos eventualmente transmitir o vírus para as onças em uma campanha de captura, onde existe contato muito próximo com os animais? Não sabemos. Como o conhecimento sobre isso é incipiente, campanhas de captura ficarão possivelmente suspensas até que possam ser feitas sem risco para a equipe e para os animais.

Como todos os projetos de conservação, dependemos de patrocinadores, e esse tem sido um período de angústia possivelmente para todos eles, pois não se sabe como a pandemia e a recessão associada a ela vai afetar os patrocinadores. Temos a sorte de ter um patrocinador constante, o WWF Brasil, que nos garante o suprimento de boa parte dos recursos que o projeto vai necessitar nos próximos dois anos, além de recursos “pré-pandemia” ainda disponíveis fornecidos por patrocinadores como a National Geographic Society e o Fundo Iguaçu. Mas sim, o futuro e incerto.

Um bônus dessa desacelerada forçada no corre-corre diário do projeto está sendo voltar o olhar para coisas que vão ficando para trás por falta de tempo: ler mais artigos, refinar metodologia, parar para compilar dados, escrever, repensar e atualizar o programa de engajamento, preparar relatórios, prestações de contas, boletins, trabalhar redes sociais. E dá-lhe reunião virtual!

Provavelmente o mundo saia dessa fazendo muito mais home-office de forma rotineira do que jamais na história!

Enfim… medo do futuro à parte, os esforços para a conservação continuam sem parar. Calibrando o olhar e as ações. Para que possamos entender como deverá (e poderá) ser o trabalho de conservação da biodiversidade em um mundo que não será mais o mesmo.

Imagem: : Projeto Onças do Iguaçu/Arquivo.

 

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  • Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil e coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu.

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Comentários 2

  1. Carlos Eduardo diz:

    Fala em ciência, dando aquela carteirada padrão, mas não é consenso justamente na ciência que o distanciamento social tem que ser total.
    P.S. Mais uma que não sabe a diferença entre quarentena e isolamento mas fala com toda a arrogância padrão dos cientistas.


  2. Fabiana Lopes Rocha diz:

    Lindo Yara! Como sempre super clara, dando todos os recados importantes com muita sensibilidade. Super parabéns!!!!