Análises

Santuários: está na hora de descobrir o que acontece lá dentro

Acidente em que chimpanzé atacou a tratadora é oportunidade para investigar o manejo de animais nesses auto descritos paraísos, que funcionam quase sem fiscalização.

Yara de Melo Barros ·
12 de julho de 2016 · 5 anos atrás
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Visão geral das instalações do GAP, em Sorocaba. Foto: Erick Pinheiro/jornal Cruzeiro do Sul

Não existe na legislação uma categoria “santuário”. No entanto, são assim que se intitulam esses locais que recebem e manejam animais silvestres longe dos olhos do público e com pouca fiscalização. A justificativa para o isolamento é que dessa forma os animais vivem mais felizes sem serem explorados pelos zoológicos.

Os “santuários” mantém os visitantes afastados e anunciam aos quatro ventos discursos de “liberdade animal”. É como se qualquer animal que fosse para um santuário atravessasse um portal mágico de felicidade e entrasse imediatamente em uma versão de paraíso.

É fácil sustentar este discurso, pois sem visitantes e com vigilância oficial deficiente, cada um fala o que quer e vale o que é dito, já que ninguém pode entrar lá e avaliar para contestar.

O GAP (Great Apes Project), localizado em Sorocaba, é um destes exemplos. Mantém cerca de 250 animais, sendo 50 chimpanzés, e seu proprietário escreve textos atacando zoos. Ele sempre tenta que todos os chimpanzés de zoos do Brasil sejam transferidos para o GAP, para que eles “tenham uma vida em liberdade”.

Na semana passada, Jurema Pereira, tratadora do GAP, foi atacada por um chimpanzé e teve ferimentos graves. De acordo com uma das notícias veiculadas, ela sofreu fraturas em membros superiores e inferiores, perda de um dedo e parte do nariz.

A explicação inicial dada pela instituição é que “o chimpanzé saiu de seu recinto e feriu a funcionária, e que, após o ocorrido, foi acionado o plano de emergência para a segurança da equipe. O GAP considerou o ocorrido um acidente. No entanto, em uma matéria posterior, o proprietário disse que o animal se assustou quando a tratadora entrou no recinto para avisar sobre a fuga de outro animal. De acordo com o que o proprietário relatou à repórter, ele tentou “lutar” contra o animal, mas não conseguiu, então uma outra pessoa entrou e conseguiu tirar a Jurema do local.

O “santuário” tratar a fuga do animal de um recinto como acidente é no mínimo contraditório, pois o site da instituição diz que fugas em zoológicos são evidência do “sofrimento do [animal em] confinamento e seu comportamento anti-natural e repleto de angústia”, e que eles pedem socorro e imploram pela sua liberdade. Se for assim, devemos entender que o chimpanzé que fugiu e atacou a tratadora estava em agonia pelas péssimas condições em que vive? Ou teremos nesta análise dois pesos e duas medidas?

Entre as declarações absurdas dadas pelo proprietário do GAP está a que o chimpanzé que atacou a tratadora tem “problemas de relacionamentos com humanos e por isso é mantido isolado”. Ele declarou ainda que agora o animal vai ficar em um local “murado”. O que é isso? É natural e desejável que animais não queiram contato com humanos. Quando o normal acontece o animal é punido com isolamento? Só podem conviver com os outros chimpanzés aqueles que se comportam como pets?

Investigação necessária

O caso evoca uma série de perguntas que as autoridades deviam responder com investigações: qual é o suposto Plano de Emergência da instituição?  zoos são obrigados a ter estes planos. E somos cobrados por isso. O Plano de Emergência do GAP é público? Quem fiscaliza? Qual foi a última fiscalização que o local recebeu? Será que lutar com um chimpanzé que está atacando o funcionário é o Plano de Emergência da instituição? A população humana que vive no entorno do GAP está segura? E, finalmente, o GAP abriria suas portas para que especialistas em grandes primatas avaliassem a condição dos animais? A Policia Civil abriu inquérito para apurar se houve negligência por parte do GAP.

Quem visitar o site do GAP encontrará um festival de sandices e erros de manejo. Por exemplo, um texto sobre um protótipo de sapatos para chimpanzés, pois de acordo com o GAP estes animais “têm obsessão por sapatos” e “como seres inteligentes que são, desejariam ter um bom par de sapatos que lhes permita andar por qualquer terreno sem machucar seus pés”. Tal ideia revela uma inaceitável antropoformização do animal.

Muitas equipes de reportagem já visitaram o local ao longo dos anos. O resultado costuma ser descrever o local na linha “fofo”, sem fazer qualquer questionamento sério. Afinal, o pretenso “santuário” está “salvando”os pobres chimpanzés das garras terríveis dos zoos. São exibidos livremente vídeos dos animais recebendo maionese, feijoada, marshmallow, pudim e doces. Um show de horror. E o discurso do proprietário é que eles vivem melhor no “santuário”, onde há condições semelhantes às da natureza, e um zoo não pode fazer isso… Sim, todos sabem que atrás de cada moita na África existe um pote de maionese, não é mesmo?

Qualquer foto do local revela um Carandiru colorido, com recintos estéreis e nada semelhantes ao ambiente natural. Ao contrário, bons zoos têm recintos para grandes primatas que procuram emular seus habitats, além de um excelente manejo, sem antropoformizações, e é isso o que garante qualidade de vida.

Chimpanzés podem viver bem ou mal, tanto em zoos quanto em santuários. O importante é buscar excelência no manejo. Na eterna discussão zoos versus santuários, este acidente traz à tona que “santuários” não são, por definição, pedaços de paraíso sem falhas. Ao contrário, podem sofrer de graves problemas, como imagens e fatos sugerem que seja o caso no GAP.

Uma publicação de 2011 da Associação dos Juízes Federais do Brasil, aponta uma  investigação sobre o suposto envolvimento do GAP com tráfico de animais, que seriam confiscados, enviados para esta instituição para uso em pesquisas ilegais. A matéria original expões detalhes sobre o processo, mas não apresenta qual foi a conclusão das investigações.

Devemos lamentar o ataque a tratadora e torcer para que ela se recupere. Mas, também, que se estabeleça o que ocorre dentro deste “santuário” e se compare com as melhores práticas dos zoológicos. Na América Latina, cada vez que se discute se um grande primata está ou não vivendo bem em um zoo, automaticamente é sugerida sua transferência para o GAP, onde eles podem viver “em liberdade”… Isso acontece porque poucas pessoas sabem o que realmente se passa por trás daqueles muros.

O que se espera das autoridades ambientais é que o local seja avaliado com relação ao bem-estar, segurança (dos animais e da população do entorno) e adequação do manejo. O ideal seria a vinda de especialistas mundiais em grandes primatas, para produzir um relatório sobre todos os aspectos mencionados.

 

Veja abaixo um recinto no GAP e fotos de bons zoos, inclusive no Brasil

Olha o contraste do recinto do GAP.
Recinto para chimpanzés do GAP. Foto: Erick Pinheiro/jornal Cruzeiro do Sul
Recinto de Chimpanzés. Pongoland. Zoo Leipzig, Alemanha.
Recinto de Chimpanzés. Pongoland. Zoo Leipzig, Alemanha.
Zoo de Singapura.
Zoo de Singapura.
Recinto para chimpanzés no Zoo de São Paulo. Foto: Igor Morais
Recinto para chimpanzés no Zoo de São Paulo. Foto: Igor Morais
Recinto para gorilas no Zoo de Belo Horizonte. Foto: Igor Morais
Recinto para gorilas no Zoo de Belo Horizonte. Foto: Igor Morais
Recinto para chimpanzés no Beto Carrero World. Foto: Igor Morais
Recinto para chimpanzés no Beto Carrero World. Foto: Igor Morais

 

*Matéria editada em 13/07/2016, 18h17, para acrescentar fotos

 

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  • Yara de Melo Barros

    Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil e coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu.

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