Análises

Projeto Harpia: exemplo de conservação integrada

Com a criação do Programa Ex Situ, o Projeto Harpia passou a trabalhar de forma integrada ações em campo e cativeiro, com o objetivo único de melhorar o estado de conservação da espécie

Yara de Melo Barros ·
29 de julho de 2020
Filhote de harpia nascido no Refúgio Biológico da Itaipu Binacional. Crédito: João Marcos Rosa.

Ver uma harpia voando na natureza é uma experiência inesquecível. Maior águia das Américas, pode chegar a respeitáveis 2,1 m de envergadura e garras com mais de 8 cm, basicamente maiores do que as de um urso marrom.

Como espécie de topo de cadeia, que precisa de um ambiente com grandes árvores para nidificar e uma floresta para sustentar uma população adequada de presas, a harpia sofre com desmatamento, fragmentação e caça. À medida que as florestas encolhem e as pessoas avançam, diminui a quantidade de presas disponíveis para a espécie (macacos, preguiças, porcos-espinho, etc…) e aumentam os conflitos com populações humanas, o que causa a morte de muitas aves.

O Projeto Harpia nasceu do sonho da pesquisadora Tânia Sanaiotti, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. A Tânia é servidora pública, uma pesquisadora fantástica que dedica a vida ao estudo e proteção das harpias. O projeto teve início em 1997 com o nome de Programa de Conservação do Gavião-Real. Em 2017 esse trabalho completou 20 anos de muito esforço e uma quantidade incrível de dados produzidos. Hoje, o projeto conta com vários componentes e atua em todo Brasil. Tânia está coordenando o grupo Amazônia do Programa In Situ do Projeto Harpia.

Harpia resgatada atropelada em Sooretama. Foto: Alexsander Leandro

Em março de 2017 foi conduzido pelo Grupo Especialista em Planejamento para a Conservação (CPSG)/International Union for Conservation of Nature (IUCN) uma Análise de Viabilidade de Populações e Hábitats (PHVA) para a harpia. Através da aplicação das Diretrizes da IUCN para Manejo Ex Situ, foi identificada como ferramenta de conservação a necessidade da criação de um Programa Ex Situ, dentro do Projeto Harpia.

O Programa Ex Situ foi então incorporado ao Projeto Harpia, e fui convidada a coordená-lo. Esse programa tem as seguintes funções de conservação: trabalhar ações de resgate e reabilitação para soltura, o estabelecimento de uma população de segurança como possível fonte de restauração de populações, pesquisa, treinamento, educação para a conservação e arrecadação de recursos para o projeto de campo.

Em 2018 foi realizado em Foz do Iguaçu um workshop para a estruturação desse programa, que tem duas frentes de ação principais:

  • Rede de Segurança: com o objetivo de desenvolver e aplicar ações de manejo intensivo para garantir o retorno à natureza de aves que foram removidas por ação antrópica ou incidental, para que possam continuar cumprindo seu papel ecológico.

O direcionamento do programa nesses casos é priorizar o retorno do animal à natureza, se for possível e seguro. Recentemente a Rede de Segurança atuou na articulação do resgate e atendimento médico veterinário de três harpias feridas na Amazônia que estão atualmente em tratamento. Essa linha tem como coordenador o médico veterinário e analista ambiental Diogo Lagroteria, do Centro de Pesquisas da Biodiversidade Amazônica, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.

  • Manejo Cooperativo: com o objetivo de manter uma população em cativeiro auto sustentável, que mantenha 90% de diversidade genética por cinco gerações, como segurança contra o declínio ou extinção na natureza, para serem utilizadas em ações de conservação no futuro, como produzir animais para manejar e restaurar populações na natureza, caso em algum momento seja necessário.

Nessa linha, estamos finalizando um levantamento de todas as harpias em cativeiro no Brasil e estruturando o programa de manejo cooperativo, em parceria com a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB), e o próximo passo é definir quais instituições mantenedoras vão integrar o programa, fazer a análise genética dessas aves para determinar sua origem e à partir daí elaborar o livro de registro genealógico (Studbook) e orientar os pareamentos.

Marcos Oliveira, Studbook Keeper do Programa Ex Situ de Harpia, alimentando um filhote através de barreira visual para que o filhote não fique “imprintado” em seres humanos. Crédito: João Marcos Rosa.
Foto: João Marcos Rosa/NITRO.

O coordenador dessa linha é o biólogo Marcos Oliveira, do Zoológico Refúgio Bela Vista, da Itaipu Binacional.

O Programa Ex Situ tem abrangência internacional e envolve zoos de outros países, como o Zoo Parc de Beauval (França), que acabou de receber um casal enviado do Brasil, e há dois anos é o principal patrocinador do Projeto Harpia. O Zoo de Nuremberg, também parceiro do programa, está patrocinando a análise genética das harpias em cativeiro que integram o programa, pois essa informação é imprescindível para estabelecimento de pareamentos. As análises genéticas serão realizadas pelo professor Aureo Banhos, da Universidade Federal do Espírito Santo, que também é coordenador do grupo Mata Atlântica do Programa In Situ do Projeto Harpia.

Como a maioria das iniciativas de conservação no Brasil, o Projeto Harpia esbarra na falta de recursos, e muito do trabalho é feito com recursos dos próprios pesquisadores e com a ajuda de voluntários empolgados. O Projeto Harpia está estruturado dentro do conceito de One Plan Approach da IUCN, que é definido como o planejamento integrado para a conservação de uma espécie, tanto dentro como fora de sua área de ocorrência natural e em todas as condições de manejo, sendo que todas as partes responsáveis alinhem os recursos disponíveis para produzir um plano de conservação amplo para a espécie.

Portanto, com a criação do Programa Ex Situ, o Projeto Harpia passou a trabalhar de forma integrada ações em campo e cativeiro, com o objetivo único de melhorar o estado de conservação da espécie. E assim seguimos trabalhando para que essa ave poderosa não desapareça.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

Leia Também

Lugar de bicho é no mato

Procura-se origem de filhote de harpia abandonado na porta de zoológico, em Manaus

De quase herói a quase bandido: como não salvar um filhote de harpia

 

  • Yara de Melo Barros

    Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil e coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu.

Leia também

Análises
26 de março de 2018

De quase herói a quase bandido: como não salvar um filhote de harpia

Decisão emocional expõe biólogo a martírio pela Amazônia e pela burocracia ambiental, dos quais ele só preserva os seus ideais

Salada Verde
21 de julho de 2020

Procura-se origem de filhote de harpia abandonado na porta de zoológico, em Manaus

Animal foi deixado na portaria do zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva, há uma semana. Veterinários acham que ele caiu do ninho e querem devolvê-lo aos pais

Análises
5 de dezembro de 2019

Lugar de bicho é no mato

Campanha orienta as pessoas a não resgatar filhotes de animais silvestres sem necessidade. A prática não apenas priva os filhotes do convívio com a mãe como lota os zoos e centros de triagens à toa

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta