Análises

O primeiro nascimento de mutum-de-alagoas em zoológico

Feito é inédito e se junta aos esforços para colocar a espécie extinta na natureza no caminho de volta ao seu habitat natural.

Yara de Melo Barros ·
10 de novembro de 2015 · 6 anos atrás

No fim de outubro, tivemos um marco importante no envolvimento dos zoos em conservação de espécies: eclodiu no Parque das Aves o primeiro mutum-de-alagoas a nascer em um zoo no mundo. Um dos pilares de ação de um bom zoológico é a conservação. As outras áreas de atuação (lazer, educação e pesquisa) devem na verdade ajudar a sustentar o objetivo de conservação.

Neste sentido, é importante que zoos e aquários sejam parceiros de programas oficiais de reprodução de espécies ameaçadas, dentro da linha do “One Plan Approach” (Plano Único, tradução livre) do Grupo Especialista em Reprodução para a Conservação da IUCN (CBSG). Esta estratégia prevê que a conservação de espécies seja trabalhada de forma integrada, que inclui esforços em campo e cativeiro, quando necessário.

O mutum-de-Alagoas (Pauxi mitu) é uma espécie endêmica da Mata Atlântica nordestina e está extinta na natureza. As florestas onde estes animais viviam foram derrubadas para o plantio de cana-de-açúcar. Entre destruição de ambiente e caça, a espécie foi dizimada. Os três últimos exemplares selvagens foram resgatados antes que a mata fosse totalmente derrubada, no final da década de 70, pelo criador carioca Pedro Mário Nardelli. Começou então um esforço para reproduzir a espécie em cativeiro.

Hoje, a esperança de sobrevivência da espécie depende de um esforço multidisciplinar que envolve um programa de reprodução em cativeiro, a urgente proteção e recuperação de áreas de Mata Atlântica no Nordeste e a conscientização das populações nos locais onde a espécie será reintroduzida.

Existem atualmente cerca de 230 animais em cativeiro, que até junho estavam distribuídos em três criadores particulares: A Crax, Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, o Criadouro Poços de Caldas e o Criadouro Científico Fazenda Cachoeira.

Para quem não acredita nos trabalhos desenvolvidos em cativeiro, é interessante lembrar que sem o esforço e dedicação destes criadores, a espécie hoje estaria extinta.

O ICMBio elaborou e coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Mutum-de-Alagoas. O objetivo geral assegurar uma população em cativeiro que seja demográfica e geneticamente viável, para que a espécie possa ser reintroduzida em remanescentes de floresta dentro de sua área de ocorrência histórica. Por questões de biosegurança, estão sendo estabelecidos novos Centros de Reprodução, e finalmente os zoos começaram a ser envolvidos nesta empreitada.

Papel dos Zoos

“No dia 26 nasceu nosso primeiro filhote! Foi um processo difícil e demorado, pois o filhote estava muito fraco e não conseguia eclodir sozinho.”

O Parque das Aves foi o primeiro a integrar o programa. Temos bastante sucesso reprodutivo com cracídeos, inclusive com outra espécie ameaçada de mutum, o mutum-do-sudeste.

Recebemos 10 casais, que estão alojados em um centro de reprodução construído especialmente para eles no Parque, fora da área de visitação. Antes que ativistas se agitem dizendo que só tivemos sucesso reprodutivo porque as aves estão fora da área de visitação, esclareço que reproduzimos cracídeos super bem na área visitada pelo público. A construção do centro fora da área de visitação é por questões ‘diplomáticas”, pois foi decidido que a primeira exposição de aves ao público deve ser feita em Alagoas, como estratégia de conscientização das comunidades locais. Como eles ainda não conseguiram construir seu centro de visitação, nós estamos mantendo os animais em área restrita.

A adaptação das aves ao novo local foi muito rápida, e fazemos o monitoramento constante. Diariamente é avaliado o consumo de alimento e o comportamento dos animais. Os casais são formados com base nas recomendações do gerenciador do Livro de Registros Genealógicos, que faz a avaliação genética de cada ave e indica os pareamentos mais adequados para manter a diversidade genética da população em cativeiro.

Para nossa grata surpresa, apenas 68 dias após a transferência, já houve a postura de ovos, o que é um resultado incrível. Até o momento, foram postos 14 ovos por 3 casais, sendo pelo menos 5 deles férteis. Os casais ainda estão em atividade, e nos próximos meses aguardamos a chegada de mais ovos.

De acordo com o protocolo do Programa de Cativeiro, todos os ovos botados são retirados do ninho e incubados artificialmente. Isto é feito tanto para proteger o ovo e garantir que ele não seja quebrado quanto para estimular que a fêmea faça uma nova postura. Desta forma, o sucesso reprodutivo é maximizado, com mais filhotes produzidos. Isto é muito importante para uma espécie extinta na natureza, pois é necessário ter uma população robusta em cativeiro para que trabalhos de reintrodução possam acontecer.

No dia 26 nasceu nosso primeiro filhote! Foi um processo difícil e demorado, pois o filhote estava muito fraco e não conseguia eclodir sozinho. O médico veterinário italiano Lorenzo Crosta, especialista em aves e consultor do Parque das Aves, ajudou no processo de eclosão. Aos poucos fomos retirando a casca e hidratando o filhote, para ver se ele conseguia sair sozinho. À noite, como ele ainda não havia conseguido, nós finalizamos o processo e retiramos ele do ovo. Como ele estava muito debilitado, recebeu fluidos e primeiros cuidados. Não tínhamos certeza se ele conseguiria sobreviver, e por dois dias tivemos que alimentar o filhote com sonda e tratar com antibióticos. Passado o susto inicial, o filhote se recuperou e está se desenvolvendo normalmente. Em novembro são esperados mais nascimentos.

O Parque das Aves está muito satisfeito com o resultado, pois isto indica que as aves estão perfeitamente adaptadas ao novo local, que temos casais compatíveis e que o manejo está correto. Desta forma, podemos cumprir nossa missão (e paixão, na verdade) de efetivamente ajudar uma espécie extinta na natureza a voltar para casa.

Cada ave que nasce em cativeiro torna mais próximo o sonho de reintrodução, e agora os zoos são atores importantes neste processo.

Veja outras imagens do nascimento

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  • Yara de Melo Barros

    Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil e coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu.

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Comentários 3

  1. Avatarcelso diz:

    Parabéns !!!.

    Fazer dá trabalho, mas traz resultado!!.

    Enfim algo maior do que discursos baratos !.

    Sucesso !!!.


  2. AvatarLeo diz:

    Fia, parabéns! Mas eu jurava, quando vi aquele ovinho na mão, que ele ia cair…


  3. Avatarpaulo diz:

    Pobre mutum, Alagoas/florestas/reintrodução……. chiiii….. . Sobrou torcer, e muito.