Análises

Conectividade: como as trilhas podem ser aliadas da biodiversidade

As trilhas de longo curso podem ser instrumentos para conexão de remanescentes florestais e apoiar o fluxo gênico entre as espécies para além das fronteiras das unidades de conservação

Marcelo Marcelino · André Cunha · Gisela Herrmann · Michel Omena ·
3 de setembro de 2020
Entorno do Parque Nacional de São Joaquim, área que pode ser conectada pelo Caminho das Araucárias. Foto: Duda Menegassi/Pé no Parque

Todos já sabem, mas é sempre importante repetir: a principal ameaça às espécies é a perda de habitat. Biomas como a Mata Atlântica e o Cerrado já perderam boa parcela da vegetação nativa, e o que resta em Unidades de Conservação (UCs) não é, e provavelmente nunca será, suficiente para evitar a extinção de espécies, um processo que já está em curso, e para alguns grupos biológicos e regiões geográficas, num passo acelerado!

Mas como podemos contra-atacar? Como unir os esforços para diminuir o efeito da perda e fragmentação de habitats? Como ir além das áreas protegidas, particularmente aquelas de proteção integral, e envolver a sociedade, os proprietários rurais, sejam pequenos ou grandes, as secretarias estaduais e municipais de meio ambiente, as grandes e pequenas organizações, e o setor econômico em prol da conservação? Como podemos fomentar paisagens sustentáveis que conectem o habitat para a biodiversidade e ainda proporcionem benefícios diversos para sociedade? Será que as trilhas de longo curso podem ser um caminho efetivo para a conservação da natureza no Brasil? Somos o país que detêm a maior biodiversidade do planeta, e temos um papel-chave para a conservação da variabilidade genética mundial. O país e os diversos setores da sociedade precisam discutir como conservar todo esse patrimônio.

A utilização intensiva e não sustentável tem provocado a perda crescente da riqueza biológica do país e, consequentemente, o aumento do número de espécies ameaçadas de extinção. Considerando que as espécies são as detentoras da diversidade genética e constituem a base dos ecossistemas, torna-se fundamental o conhecimento da situação das espécies animais e vegetais e seu status na natureza. Para atender essa demanda por conhecimento, surgiram as chamadas listas vermelhas, instituídas pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) em 1966. Desde então as listas, e sua versão mais detalhada em Livros Vermelhos no Brasil, ficaram reconhecidas internacionalmente como um instrumento para direcionar medidas de proteção para as espécies ameaçadas de extinção e as políticas públicas para conservação do meio ambiente em vários países.

O Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado pelo ICMBio no final de 2018 (disponível no site do ICMBio), traz em seu Volume I um conjunto de análises feitas a partir dos resultados do extenso processo de avaliação do estado de conservação da fauna, concluído em 2014, e que fundamentou as listas nacionais das espécies da fauna ameaçadas atualmente em vigor (Portarias MMA nº 444 e nº 445, de 2014). Este ciclo de avaliação foi o maior diagnóstico já realizado entre os países que adotam os critérios de risco de extinção desenvolvidos pela IUCN. Foram avaliadas 12.254 espécies, incluindo todos os vertebrados até então descritos, o que representou quase 9.000 táxons, além de mais de 3.300 invertebrados que, embora seja uma pequena amostra do imenso patrimônio de espécies de invertebrados do Brasil, constituiu-se naquele momento no conjunto de espécies com informações suficientes para aplicação dos critérios da IUCN. Ainda assim, alguns grupos como os Odonatas (ordem a qual pertencem insetos como as libélulas) e os Colêmbolas (pequenos artrópodes que vivem no folhiço) foram inteiramente avaliados.

Da avaliação, resultou uma lista com 1.173 espécies ameaçadas, 543 a mais do que a lista anterior. Importante destacar que da última lista foram retiradas 170 espécies, que deixaram de ser consideradas ameaçadas, em sua grande maioria, pela ampliação do conhecimento. Para algumas, entretanto, caso da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) e da arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), a retirada da lista foi o justo reconhecimento por décadas de esforços de conservação que levaram a uma genuína melhora no seu estado de conservação. Na outra margem, passaram a fazer parte da lista de ameaçadas outras 716 espécies, em boa parte pela grande ampliação do universo de espécies avaliadas, mas também pelo decaimento no estado de conservação de algumas já conhecidas, como o macaco guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul) que teve uma significativa perda de habitat na região do arco do desmatamento na Amazônia.

Das 1.173 espécies ameaçadas, constatou-se que 429 não têm registro de ocorrência em UCs, o que representa mais de 35% da lista. Levando em conta que a perda do habitat é a principal ameaça que atinge a grande maioria dessas espécies, é razoável considerar que suas populações remanescentes estão sobrevivendo em meio à diferentes usos da terra, possivelmente em pequenos fragmentos de florestas ou outros tipos de vegetação nativa. Embora a criação de UCs ainda seja a principal estratégia de conservação da biodiversidade, é necessário recorrer a alternativas complementares que possam ir além dos limites das unidades, buscando medidas de redução de ameaça nos ambientes não protegidos.

Ainda que tais medidas possam ser impostas para grandes empreendimentos agrícolas, minerários ou imobiliários por meio de condicionantes de licenças ambientais, o estímulo à sua adoção voluntária é um caminho que precisa ser percorrido tendo em vista que boa parte dos proprietários de terra não está sujeita à imposição de medidas que interessem à conservação das espécies. Estamos falando da manutenção ou restauração de trechos de vegetação com estruturas complexas que conectem fragmentos e que permitam abrigar espécies dependentes da vegetação nativa. Neste nicho de atuação, as trilhas de longo curso despontam como uma ferramenta potencial para estimular alternativas de uso mais sustentáveis, que incorporem valor à natureza, na medida em que podem transformar-se em um atrativo turístico capaz de complementar a renda dos proprietários de terra ou mesmo trazer algum tipo de certificação que agregue valor aos seus produtos.

As trilhas ampliam as oportunidades de um contato mais estreito com a natureza, cada vez mais raro nas áreas urbanas. Além disso, considerando a pressão crescente sobre o meio ambiente natural e a resistência às medidas de proteção, que usualmente envolvem restrições de uso da terra para a conservação, precisamos ampliar o número de pessoas que entendam e consequentemente valorizem o papel da biodiversidade, ou da natureza, para sobrevivência saudável do próprio ser humano. Como as trilhas de longo curso são voltadas para um turismo responsável, de baixo impacto e com distribuição de benefícios para a natureza e para a população local, estas podem cumprir bem o papel de atividade de sensibilização e educação ambiental, como também de construção de políticas públicas de apoio aos proprietários rurais que preservam as suas áreas verdes.

Assista a live da última terça-feira (01/09) sobre “Trilhas de Longo Curso podem ser conectores de paisagem? Trilhas como ferramenta de conservação”:

*Sobre os autores:
Marcelo Marcelino, analista ambiental e ex diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio

André Cunha, professor em Ecologia e Turismo da Universidade de Brasília

Gisela Herrmann, bióloga e diretora do Grupo de Trabalho de Pesquisa da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso

Michel Omena, doutorando em ecologia pela Universidade Federal de Santa Catarina

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Comentários 3

  1. Antonio C. V. Jr diz:

    As trilhas são excelente forma de fomentar um tipo de turismo positivo e que pode reviver a economia e a sociedade no interior do pais em áreas que tem gradativamente sido abandonadas permitindo as invasões predatórias em sensíveis ecosistemas. Mas eu vejo a necessidade de se alcançar um equilibrio que demanda de ambientalistas, investidores e sociedade dar um passo artás em seus radicalismos e buscar opções efetivamente viáveis no estudo, no planejamento, no manejo, na concessão, no controle e fiscalização destas área de forma sustentável que envolva aspectos sociais, educativos, economicos e produtivos.
    Fechar as áreas de parque para qualquer tipo de exploração economica (via turismo, não extrativismo) é danoso não só para os parques, mas também para as cidades vizinhas aos parques. Mas esse é um tema dificil e que move muitas paixões.


  2. Juntos, pesquisadores, trilheiros e servidores vamos implementando uma Rede Brasileira de Trilhas pensada para ser uma ferramenta de conservação!