Análises

O insubstituível Ibsen, o Almirante que viu mais longe

Ser conservacionista no Brasil é duro. Em plena ditadura, bem mais complicado. Mas Ibsen de Gusmão Câmara sempre fez o que achava certo.

Angela Kuczach ·
31 de julho de 2014 · 7 anos atrás

Almirante Ibsen ao lado de Eneas Salati. 2013. Foto: Marc Dourejeanni
Almirante Ibsen ao lado de Eneas Salati. 2013. Foto: Marc Dourejeanni

Ser conservacionista não é coisa fácil no Brasil. Ser conservacionista em plena ditadura… bem mais complicado.

Agora, ser um conservacionista de altíssimo nível, dotado de um intelecto raro, em plena ditatura e pertencendo às forças armadas, houve somente um: o Almirante Ibsen de Gusmão Câmara.

Nosso Almirante verde começou cedo. Aos 17 anos se alistou no serviço militar e foi servir ao país através da Marinha do Brasil. Em 40 anos de serviço militar chegou ao cargo de Vice-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas. Poderia se dar por satisfeito, mas quis a vida que o Almirante Ibsen, como muito bem descreveu Marc Dourojeanni, em seu uniforme azul e branco, fosse mais verde do que a imensa maioria dos brasileiros.

Ibsen nasceu em 19 de dezembro de 1923, no Rio de Janeiro. Ainda na escola, entre mapas e atlas, encantou-se pela magnificência do mundo, sua vastidão, sua história geológica, a antiguidade da Terra… E talvez seja essa referência que viria a ser aprofundada pelo olhar do Ibsen adulto apaixonado por paleontologia, que o transformou nesse conservacionista de visão clara e horizonte amplo, aquilo que mais o destacava e nos impressionava. Essa lucidez, que vai além do significado da própria palavra, comumente deixava todos mudos diante dos argumentos expressos pelo Almirante. Enquanto a maioria de nós, ditos conservacionistas, buscávamos explicar o óbvio e remediar a consequência, Almirante Ibsen, com sua voz firme, avaliava a causa e o efeito em longo prazo, geralmente com poucas e certeiras palavras. “Nunca antes em sua história, esse planeta viveu o experimento de ter tantos primatas de grande porte habitando sua superfície e não fazemos a menor ideia das consequências que isso terá”, disse ele uma vez. Alguém pode discordar?

O Almirante Ibsen é fruto de uma era que já não tem muitos representantes e isso lhe dava o dom de agregar pessoas de todas as idades. Nos Congressos e eventos por onde passava era comum vê-lo cercado por jovens estudantes e profissionais, todos querendo uma palavra. Junto com tais virtudes, a disciplina e a altivez de caráter fundamentaram as suas ações conservacionistas, como poucas vezes tivemos a oportunidade de ver no Brasil. Seu compromisso com a conservação da natureza pode ser traduzido como o mais puro significado da palavra ‘intrínseca’. Olhava para os processos naturais e enxergava-os no tempo geológico “O ritmo da natureza é outro. Não se pode degradar tudo e esperar que a natureza se recupere e em alguns anos tudo volte ao normal. Ela tem outro tempo”, costumava dizer. Como bem falou a artista plástica Angela Leite, “não existe outra pessoa com a amplidão de conhecimento, e de postura. Uma mente privilegiada, realmente imbatível”.

Esse olhar de absoluta empatia com o ambiente natural pautou a postura do Almirante durante toda a sua vida, e o levou, ainda ativo na Marinha, a participar, mesmo que de forma discreta, de ações de defesa das baleias. Na época, sem poder se expor, assinava artigos contra a caça dos cetáceos com pseudônimos. Em se tratando de Almirante Ibsen, essa atitude expressava antes de mais nada uma forma de se manifestar em prol do que acreditava, sem ferir o Estado do qual era um representante. Foi por conta desses posicionamentos, aliás, que mais tarde surgiu o primeiro projeto de pesquisa e conservação de baleia-franca no Brasil, conduzido por José Truda Palazzo. No final da década de 1970, Ibsen também abriu as portas para a criação de dezenas de Unidades de Conservação.

Como não poderia deixar de ser, o mar sempre ocupou um lugar especial para o Almirante e, graças a ele, temos áreas como o Atol das Rocas e o Arquipélago de Abrolhos e Fernando de Noronha foram transformados em Unidades de Conservação.

A partir de 1981, quando passou a fazer parte da reserva da Marinha, Almirante Ibsen passou a atuar com maior ênfase na conservação, como parte do Conselho e, em seguida, como Presidente da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), tida como a maior organização não governamental da época. Nos anos que se seguiram, ele passou a fazer parte do Conselho de inúmeras organizações não governamentais no Brasil, como a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e a Fundação Biodiversitas, além de se tornar membro da Comissão para Espécies Ameaçadas da UICN.

Além da proteção de várias áreas pelo Brasil, Almirante Ibsen foi a inspiração para gerações de Conservacionistas, como Maria Tereza Jorge Pádua, sua amiga pessoal, que com seu auxílio criou mais de 8 milhões de hectares em Unidades de Conservação no país, e Malu Nunes, Diretora Executiva da Fundação Grupo Boticário, que expressa suas condolências:

“O Almirante Ibsen de Gusmão Câmara fez história na defesa do patrimônio natural do Brasil. Exerceu papel fundamental na campanha contra a caça de baleias no país e também foi grande defensor das áreas protegidas, com papel de destaque na criação de parques e reservas na Amazônia e no ecossistema marinho.Contribuiu para a criação de uma dezena de organizações não governamentais conservacionistas e foi conselheiro de muitas outras – a exemplo da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação (Rede Pró-UC), instituição que presidiu por mais de dez anos – tendo a mim como vice – e da qual atualmente ele era Presidente Honorário. Em todos os conselhos onde eu tive a honra de ser sua colega, era impressionante o respeito que todos – inclusive aqueles que não concordavam de suas ideias e posições – tinham por sua trajetória, conhecimento e consistência.”

Outro conservacionista fortemente inspirado por Almirante Ibsen foi Miguel Milano. Juntos, lutaram bravamente em inúmeras batalhas, uma delas, em 1998, foi a própria fundação da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação, instituição nascida com a missão exclusiva de defender e fortalecer as Unidades de Conservação do Brasil, especialmente as de proteção integral. À época, a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) ainda não havia sido votada e um dos objetivos da Rede Pró UC era pressionar o Congresso Nacional para que tal Lei fosse promulgada, o que ocorreu em 18 de julho de 2000.

Almirante Ibsen foi o presidente da Rede Pró UC por mais de 10 anos e a partir de 2010 passou a exercer a função de presidente Honorário, o que nos traz não apenas uma enorme honra, mas também um imenso senso de compromisso e responsabilidade.

Parte do enorme legado de Ibsen está nas gerações de conservacionistas por ele inspirados, as dezenas de Unidades de Conservação por ele criadas e as centenas de espécimes da biodiversidade, especialmente da fauna, preservados graças as suas ações. Questionado sobre isso, Almirante costumava dizer que não fez absolutamente nada “o que significam essas coisas frente o tempo da Terra?”

Dentre todos os seus exemplos, o que fica de mais forte é o posicionamento firme, a retidão de caráter, e a visão de que a conservação antes de mais nada não é antropocêntrica. O que o Almirante nos deixa é ensinar a lutar pelo que é certo, e não apenas pelo que é possível.

Somos hoje mais de 7 bilhões de primatas da espécie Homo sapiens no planeta, e grande parte dos indivíduos têm como único objetivo a sobrevivência frente à miséria. Outros tantos, se aproveitam de forma desmesurada do planeta e contribuem significativamente para a miséria dos primeiros. Ao longo do caminho, outros tantos apenas caminham… sem saber para onde, sem saber a que vieram ou o que fazem aqui. Porém, no meio de tudo isso, de vez em quando surge um ser humano extraordinário, capaz de enxergar além de seu tempo. Essas pessoas e seus feitos as tornam insubstituíveis, a ponto de desejarmos que fossem eternas. O Almirante Ibsen é uma dessas pessoas.

Obrigada por tudo Almirante Ibsen, especialmente pelo privilégio de estar no seu navio, de navegarmos pelas mesmas águas e determos tido a honra de seguir o seu comando: lutar sempre, em águas turbulentas ou calmas, não pelo que é possível, mas pelo que deve ser feito.

 

 

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  • Angela Kuczach

    Bióloga e Diretora Executiva da Rede Nacional Pro Unidades de Conservação.

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