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Histórias de biólogos e serpentes marinhas de verdade

Cantadas por marinheiros e naturalistas há séculos, serpentes marinhas são uma das lendas marinhas mais fascinantes. Só que elas existem...

Fabio Olmos ·
18 de fevereiro de 2013 · 9 anos atrás

 

Serpente marinha pelágica
Serpente marinha pelágica

Os criptozoólogos formam a fraternidade que busca animais lendários, pelo menos até serem descobertos. Uma das criaturas mais populares entre eles é a Grande Serpente Marinha, personagem proeminente no folclore e tema de livros, com registros que datam de séculos. Há quem diga que “existe algo lá” e, possivelmente, várias criaturas, de peixes a mamíferos, podem estar envolvidas nas avistagens que geraram o mito.

Um dos registros mais interessantes de uma serpente marinha foi feito por zoólogos da Zoological Society of London em 7 de dezembro de 1905, a cerca de 15 milhas (quase 28 km) da foz do rio Paraíba, no nordeste do Brasil. Edmund Meade-Waldo e Michael Nicoll estavam em uma expedição a bordo do Valhalla, quando viram uma grande nadadeira fora da água. Quando a embarcação se aproximou, a criatura ergueu um longo pescoço com uma cabeça “similar a uma tartaruga” que ondulava de forma peculiar conforme se movia rapidamente.

A avistagem foi publicada no volume de 1906 dos Proceedings of the Royal Society e no livro de Nicoll, publicado em 1908, Three Voyages of A Naturalist. Ninguém jamais identificou o que os dois viram, e sem evidência, além da descrição das testemunhas, nunca se saberá.

Partindo do princípio de que o registro não é uma piada – como a foto original do Monstro de Loch Ness -, a menos que uma criatura com as mesmas características seja fotografada, filmada ou apareça morta na praia o que temos é uma grande interrogação. Existem serpentes marinhas na costa do Brasil?

A possibilidade de que criaturas como a Grande Serpente Marinha, o Yeti, o Mapinguari, o Mokele Mbembe e uma infinidade de outros estejam por aí é uma daquelas coisas que estimulam a imaginação e tornam o mundo mais interessante. Ficarei feliz se estiver errado, mas penso que não vamos encontrá-las. A chance de que realmente existam (ou tenham existido) depende de variáveis improváveis.

Entretanto, descobertas recentes mantêm acesa a chama de que outros bichos estão lá (“out there”) e serão confirmados um dia, descobertas tais como o Tubarão Megaboca, o Saola e uma espécie de mini-humano recentemente extinto, que talvez seja o Orang-pendek.

Serpentes de verdade

O legal é que serpentes marinhas existem. Um total de 57 espécies da subfamília Hydrophiinae, parentes próximos das najas e nossas cobras-coral, vivem nas águas tropicais do Indo-Pacífico, com um grande centro de diversidade no norte da Austrália, Nova Guiné e Indonésia.


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A mais marinha de todas as serpentes é a Pelamis platura, que tive o prazer de encontrar na costa do Pacífico da Costa Rica. Trata-se de uma bela criatura de dorso negro, que a ajuda a se aquecer melhor quando boia na superfície. Seu ventre é amarelo-vivo e a cauda, lateralmente achatada, manchada de amarelo e negro – um provável alerta a predadores. Ao contrário das serpentes da lenda, é um bichinho colorido e simpático de meio metro, que chega a no máximo a 90 centímetros.

As serpentes terrestres têm o ventre coberto por uma única fileira de grandes escamas. Já as escamas da Pelamis são todas pequenas e o ventre não é achatado, mas forma uma quilha. Isso a torna incapaz de se locomover em terra, o que a leva a morte se encalhar na praia, pois não consegue voltar ao mar. Como golfinhos e baleias, a Pelamis (e a maioria de seus parentes) evoluiu de ancestrais terrestres, de uma forma que cortou o vínculo com a terra. Essa serpente totalmente pelágica vive ao sabor das correntes marinhas.

As adaptações à vida marinha impressionam. A Pelamis tem narinas que se ligam a uma traqueia extensível (serpentes não têm palato) e válvulas que impedem a entrada de água. Só têm um pulmão, que chega a quase o comprimento do corpo. Elas também conseguem respirar pela pele, o que satisfaz 25% das necessidades de oxigênio. Mamíferos marinhos, morram de inveja.

Outro superpoder é o seu veneno, um coquetel de neurotoxinas que mata e causa rigor mortis, facilitando a deglutição em segundos dos peixes que compõem sua dieta. Por isso, não é recomendável manusear esses bichos, embora não sejam nada agressivos. Por razão semelhante, elas não têm predadores. Os testados se recusam a comê-la por conta do provável gosto ruim.

Essas super adaptações tornaram a Pelamis o segundo réptil com maior distribuição geográfica no planeta. Só perdem para as tartarugas marinhas. Essas serpentes ocorrem da costa leste da África ao longo de todo o oceano Índico e do Pacífico até a costa da América, entre a Baja Califórnia e o norte do Peru, com bichos perdidos a norte e sul.

Apesar dessa abrangência, não colonizaram o Atlântico. As correntes frias no extremo sul da África e na costa sudoeste da América do Sul são uma barreira que a Pelamis nunca conseguiu ultrapassar.

Essa ausência do Atlântico também mostra que essas serpentes não estavam na costa americana quando o Istmo do Panamá se fechou, talvez tão cedo como há 22 milhões de anos atrás.

Seja lá o que Edmund Meade-Waldo e Michael Nicoll viram, não foi um primo gigante da Pelamis. A verdade está lá fora….

  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

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