Almas-de-mestre: hábeis passageiros do vento

terça-feira, 23 outubro 2012 21:26
Especial: Olhar Naturalista
Almas-de-mestre aproximam-se dos restos de um peixe capturado por um golfinho. Foto: Fabio Olmos
Almas-de-mestre aproximam-se dos restos de um peixe capturado por um golfinho. Foto: Fabio Olmos

Perdão se você achava ser o pináculo da criação, mas as aves são os vertebrados mais evoluídos e mais bem sucedidos, ausentes apenas das profundezas oceânicas, embora alguns pinguins mergulhem regularmente a mais de 100 m.  Há aves com estilos de vida que humilham nosso orgulho mamífero e nossa definição comum de comportamento “radical”.

Durante a III Expedicao de Avistagem em Alcatrazes, já na partida em Barra do Una, litoral norte de São Paulo,nossa equipe avistou várias Almas-de-mestre (Oceanites oceanicus) o que elevou a adrenalina dos observadores e fotógrafos de aves a bordo, mas o prato principal estava mais adiante.

Próximo à ilha Montão de Trigo um grupo de 15-20 golfinhos-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) capturava peixes de porte médio e os despedaçava antes de comê-los, resultando em vísceras e pedaços de carne flutuantes que eram entusiasticamente consumidos por um grupo de 120 a150 Almas-de-mestre, as quais também sofriam a competição de Fragatas (Fregata magnificens).


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Essa foi uma interação muito interessante e, aparentemente, ainda não relatada na literatura científica. Além de mostrar mais uma vez que cetáceos existem para fornecer alimento às aves marinhas, comprova a abundância sazonal das Almas fora do litoral paulista.

A Oceanites oceanicus é uma ave com um comprimento de 15 a 19 cm que pesa de 28 a 50 g. Ou seja, está longe de ser um gigante. E o menor vertebrado não-peixe da Antártica e pode viver várias décadas, mas não se sabe exatamente quanto. As populações da espécie no Atlântico nidificam no litoral da Antártica e em ilhas subantárticas como Isla de Los Estados, Falklands, South Georgia, South Shetlands, etc. Quem já esteve lá, viu documentários ou leu os livros de Amyr Klink sabe que o mar, nestas latitudes, é o mais furioso do planeta.

E o dia a dia deste passarinho de 50 g (no máximo) é encarar ventos com muitas dezenas de quilômetros por hora e ondas de afundar cargueiro. É assim que obtém seu alimento, formado por zooplâncton e toda a proteína e gordura animal que puder engolir, incluindo pedacinhos de gordura de baleias consumidas por orcas e tubarões. Os ninhos são buracos entre rochas, para onde retornam no lusco-fusco ou escuro com a intenção de evitar as skuas predadoras. No escuro, os ninhos são localizados pelos pais através do olfato.

Mas as radicalidades deste dinossauro – como o são todas as aves – não são só essas. Quando o inverno se aproxima estas feras migram para o norte. Muito para o norte, na realidade. As Almas cruzam o equador e continuam indo, chegando até latitudes equivalentes à Terra Nova e o extremo sul da Groenlândia. E ali continuam levando sua vida de ciscar a superfície do mar, quase como se pulassem amarelinha (imagino que as gerações mais novas não saibam o que é isso. Senão, google it). Até a chegada do outono no hemisfério norte, quando começa a migração de retorno.

As Almas nidificam entre novembro e abril, o que quer dizer que em outubro estão passando pelo litoral brasileiro em grande número, rumo a suas colônias bem mais ao sul. É nessa época que podemos vê-las, especialmente quando os ventos as trazem para junto à costa. Sabendo como vivem, é de pensar como uma ave “delicada” possa ter um estilo de vida tão brutal.


Autor deste blog, Fabio Olmos é biólogo e doutor em zoologia. Tem um pendor pela ornitologia e gosto pela relação entre ecologia, economia e antropologia. Seu último livro, sobre ecossistemas brasileiros e conservação, é Espécies e Ecossistemas.

 

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