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Montanha da Mesa: o Cristo da África do Sul

A Montanha da Mesa é o principal ícone da África do Sul.  Como acontece com o Cristo Redentor no Brasil, não há campanha turística que deixe te mostrar seu imponente relevo. 

Pedro da Cunha e Menezes ·
18 de julho de 2011 · 10 anos atrás

Hoerikwaggo é o nome que os koi koi, primeiros habitantes da África do Sul também conhecidos por bosquímanos em português, davam à Montanha da Mesa em seu idioma nativo. Pouco se sabe, entretanto, da história do morro antes da chegada dos europeus ao Cabo da Boa Esperança. Por isso mesmo, cabe ao Almirante português Antônio de Saldanha o crédito de ser o primeiro homem a antingir seu cume. Também foi Saldanha quem batizou a montanha, de Tábua do Cabo, nome que perdura até hoje.

Desde então, a Montanha da Mesa tem figurado como o principal ícone da África do Sul. Assim como acontece com o Cristo Redentor no Brasil, não há campanha turística ou reportagem sobre o país que consiga contornar a imperiosa necessidade de mostrar seu imponente relevo.

Não é de surpreender portanto que a Montanha funcione como um imã para todos os montanhistas que habitam ou visitam a Cidade do Cabo. Dezoito trilhas sinalizadas ligam o asfalto aos mais de 1.000 metros de altitude do tabuleiro da mesa. O sexto dia da Hoerikwaggo começa pelo menos conhecido e menos utilizado desses acessos. Trata-se da Disa Gorge, que liga o abrigo de Orange Kloof à área das represas da Montanha da Mesa.

Orange Kloof é o último remanescente da Floresta Afromontana no Cabo. Não é uma mata com grande diversidade, pois só conta com 33 espécies de árvores, mas é a única floresta nativa primária da região e sua copa fornece proteção do sol a várias espécies endêmicas de vertebrados. Por isso mesmo, no Plano de Manejo do Parque Nacional da Montanha da Mesa, Orange Kloof foi zoneado como intangível.

Quando a trilha Hoerikwaggo foi planejada, contudo, decidiu-se que seu traçado aproveitaria um caminho utilizado pelos guardas parques para a rotina de fiscalização e, por meio dele, daria aos excursionistas (somente aqueles que estiverem percorrendo a Hoerikwaggo, até um limite máximo de doze pessoas por dia) a oportunidade única de conhecer essa bela floresta. Assim foi feito. A partir do abrigo de Orange Kloof, a trilha sobe em meio à mata em direção à Montanha da Mesa.

Começamos nosso dia um pouco tarde, pois tomamos um belo café da manhã e aproveitamos o aconchego do esplêndio abrigo de Orange Kloof. Quando nos pusemos a caminhar, após hora e meia deixamos a cobertura da floresta e entramos no vale apertado do Disa, onde resolvemos fazer nossa primeira parada para um rápido banho em uma pequenina represa desativada. Daí para a frente, voltamos a subir, subir, subir, subir, sempre com o sol na cabeça, até, depois de cerca de cinco horas de cabritada, chegarmos ao que os sul-africanos chamam de Back Table, a parte posterior da Montanha da Mesa, onde há cinco grandes represas.

 

 

 

Os reservatórios d´água da Montanha da Mesa foram construídos no final do século XIX com pedras extraídas das redondezas. Até hoje abastecem a Cidade do Cabo, por isso, apesar do calor não tomamos banho neles. São uma das grandes atrações da Montanha. Antes de seguirmos para o abrigo de Overseer´s Cottage que fica na margem da represa de Wood Head, sentamos junto ao seu espelho d´água para comer um sanduíche. Depois ainda andamos pelo leito da represa de Helly Hutcherson cujo muro de retenção de 532 metros de comprimento por quinze de altura é capaz de guardar 924 megalitros de água. Quando passamos por ela, entretanto, parecia um deserto de areias brancas. Após quase quatro meses de estiagem, Helly Hutcherson estava completamente vazia, sem um pingo de líquido sequer. Uma cena bonita, mas preocupante para quem precisa daquela água para sobreviver.

A partir das represas, o trajeto oficial da Hoerikwaggo sugere que o caminhante siga até a estação do bondinho e desça por ele até a Cidade. Aceitar a dica, entretanto, tiraria do trilheiro a experiência soberba de pernoitar no topo da Montanha e de explorar um pouco algumas das trilhas ali existentes, cujas variadas vistas têm incentivado cerca de um milhão de pessoas a galgar a Mesa todos os anos.

Por isso, vale encerrar o sexto dia mais cedo, aproveitar o pôr do sol em algum lugar bonito da Montanha, como seu pico cuminante (MacLear´s Beacon) ou na encosta dos Doze Apóstolos com vista para Camps Bay e o Oceano Atlântico. Depois é aproveitar o aconchego do Overseer Cotage, antiga casa do zelador das represas, reformada pelo Parque para servir de abrigo.

Na próxima postagem conto como foi o último dia.

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