Análises

Dilma e a natureza merecem descanso

A presidente eleita descansou da campanha nas matas do Sul da Bahia, exatamente no local onde obra do PAC ameaça polo de ecoturismo

Rui Barbosa da Rocha ·
15 de novembro de 2010 · 11 anos atrás
Dotada de extraordinária biodiversidade e com um dos mirantes mais bonitos do planeta, a região compõe o Corredor Ecológico mais significativo da Mata Atlântica, além de ser um pólo emergente de ecoturismo no Nordeste, recebendo centenas de milhares de turistas nacionais e estrangeiros, todos os anos, como foi a Dilma este ano, e Sarkozy e Carla Bruni em dezembro de 2008. Foto: Rui Rocha.

A história é conhecida por todos: os ciclos do pau brasil e da cana de açúcar começaram na Capitania de Ilhéus, litoral Sul da Bahia. Depois vieram os desmatamentos para as pastagens, roçados de mandioca, a exploração do garimpo nos sertões, a extração de madeiras, a caça indiscriminada, tudo junto com a escravidão e depois o trabalho mal remunerado, que explicam muito do atual quadro social e ambiental no Brasil.

Passaram-se alguns séculos e o país continuou atrasado em relação ao mundo ocidental, que marchou movido pela revolução científica e industrial. Nós fechamos o século XIX como um imenso produtor de matérias primas – café, cacau, borracha e cana de açúcar, com muita miséria e latifúndios pelo país. Assim, adotamos no século XX uma ordem imperativa de industrialização e urbanização acelerada. Crescemos durante décadas a taxas de 8 a 10 % ao ano, até 1980, feito somente conquistado pela China dos últimos anos.

Este fenômeno só ampliou em doses cavalares os nossos problemas sociais e ambientais, com o crescimento desordenado de cidades e a ocupação irregular de matas ciliares e encostas de morros. Riachos e rios converteram-se em esgotos a céu aberto, como o Tietê, em São Paulo, ou o Rio Vermelho, em Salvador. Favelas passaram a ser uma marca de todas as nossas cidades médias e grandes. Em algumas cidades maiores, a poluição atmosférica mata centenas de pessoas todos os anos. Os brasileiros, mesmo trabalhando mais do que muitos povos da terra, herdaram ambientes insalubres para viver, sem vida cultural e com escolas marcadas pela violência e pouco aprendizado. A Mata Atlântica, uma das maiores e mais ricas florestas tropicais do mundo, quase acabou.

Mesmo com este legado, o início do século XXI repete a pegada anterior. O projeto mais importante do governo brasileiro chama-se PAC, ou programa de aceleração do crescimento. No governo FHC, o nome era parecido e a agenda idem – Avança Brasil. A impressão que fica é que este tipo de mensagem publicitária já existia desde o ciclo do pau brasil – afinal, os índios eram muito lentos no trabalho de cortar as árvores e empilhá-las no litoral, e precisavam de mensagens encorajadoras para produzir e exportar nossas riquezas.

Até hoje os índios levam a fama de preguiçosos, assim como costumamos chamar os indolentes nordestinos e especialmente os baianos. A substituição da natureza original brasileira por pastos, concreto e asfalto são signos muito fortes que norteiam os investimentos públicos, inclusive antes das eleições – não é a toa que os assuntos do dia envolvem a revisão do código florestal e as grandes obras para a Copa e Olimpiadas, além de portos e ferrovias para as velhas e novas commodities.

Uma natureza exausta, consumida por séculos de exploração e degradação, se soma ao desgaste do brasileiro comum – a recente comida na mesa e a televisão na sala são bons motivos para comemorar, mas o luxo de termos uma natureza preservada, com rios limpos, florestas e peixes abundantes, fica cada vez mais comprometido pela imperiosa necessidade do crescimento econômico.

“A contradição é que o local escolhido para o descanso de Dilma é exatamente aonde o governo federal pretende construir um complexo logístico para escoar minério de ferro, assunto precioso para a BAMIN, empresa da Eurasian Natural Resources, do Cazaquistão – a ENRC.”

O final deste ano é marcado pela eleição de Dilma, a primeira mulher a ocupar a presidência da república no Brasil. Ela, exausta por meses de campanha eleitoral e acusações de todos os tipos, venceu a eleição com a marca de ser a mãe do PAC. Nada mais emblemático. E, para completar o surrealismo brasileiro, ela escolheu a praia do Patizeiro, em Itacaré, exatamente no Sul da Bahia, para descansar. Este local fica ao lado da praia do Norte, em Ilhéus, vizinho da Lagoa Encantada e do Parque Estadual da Serra do Conduru. Dotada de extraordinária biodiversidade e com um dos mirantes mais bonitos do planeta, a região compõe o Corredor Ecológico mais significativo da Mata Atlântica, além de ser um pólo emergente de ecoturismo no Nordeste, recebendo centenas de milhares de turistas nacionais e estrangeiros, todos os anos, como foi a Dilma este ano, e Sarkozy e Carla Bruni em dezembro de 2008. Sim, um dos últimos locais do litoral brasileiro que possui florestas preservadas e rios limpos, como o Rio Tijuípe, que ali deságua puro no Oceano Atlântico. Dilma finalmente descansou, ao menos por quatro dias. Do alto do morro em que estava hospedado viu o mar azul da Bahia, florestas, rios e cachoeiras, e muitos pássaros que cantam dia e noite, entre as árvores e palmeiras. Um descanso merecido.

A contradição é que o local escolhido para o descanso de Dilma é exatamente aonde o governo federal pretende construir um complexo logístico para escoar minério de ferro, assunto precioso para a BAMIN, empresa da Eurasian Natural Resources, do Cazaquistão – a ENRC. Uma mina em Caetité, com vida útil de 15 anos, viabilizaria este projeto de porto e de ferrovia até Ilhéus.

Jaques Wagner, antigo sindicalista do Pólo Petroquímico de Camaçari e ex deputado federal que aprovou a lei que hoje protege a Mata Atlântica, foi o maior cabo eleitoral de Dilma. O atual governador baiano adotou este projeto do PAC como a mais importante obra de seu governo– em nome da geração de empregos e renda para o seu estado miserável, graças a uma parceria público e privada que ‘alavancará’ a economia baiana, integrando-a a outras regiões mais ‘dinâmicas’ da Bahia e do Brasil, como o centro oeste, o eldorado da soja, o novo pau Brasil da economia nacional.

Por um capricho do destino, a mãe do PAC precisou repousar exatamente aqui , recuperando as forças para exercer a presidência a partir de 2011 – avançando com a agenda de grandes projetos de infra-estrutura, como o Porto Sul , na Lagoa Encantada, ou … refletir, como o mundo inteiro está a fazer, sobre um outro caminho para o bem estar do país e do planeta.

É possível sonhar em Dilma como a esperança de um Brasil mais doce, mais sábio, mais cuidadoso com a natureza e as vocações culturais e criativas do seu povo? Tom Jobim, nosso mais famoso músico, em uma viagem aos Estados Unidos, contou que aprendeu a arte da música com os pássaros de sua terra. Esperemos que a nova presidente tenha descoberto com eles outro jeito de governar o Brasil, oferecendo para si e para a natureza um ritmo aonde a paz e o bem estar sejam o tom da vida.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

Leia Também 

Porto Sul I – Biodiversidade ameaçada

 

 

  • Avatar

    Rui Barbosa da Rocha

    Ambientalista, engenheiro agrônomo pela UFBA e Mestre em Desenvolvimento Agrícola pela UFRRJ. 

Leia também

Análises
17 de maio de 2021

Opinião não é artigo científico

A utilização de espécies exóticas como a tilápia pode causar diversos impactos negativos no meio ambiente e isso é um fato. Fingir ter a chancela de uma respeitável revista científica não vai mudar isso

Salada Verde
17 de maio de 2021

Ex-Coordenador jurídico do PSL assume superintendência do Ibama no Ceará

A nomeação de Luiz Cesar Barbosa, advogado com atuação junto ao PSL, partido da base de apoio de Bolsonaro, reforça barganha política em cargos de chefia do Ibama

Reportagens
16 de maio de 2021

Proposta muda desenho de UCs no rio Negro, com nova reserva e redelimitação

O projeto de lei enviado à Assembleia Legislativa cria uma Reserva do Desenvolvimento Sustentável no Baixo Rio Negro, no Amazonas, e redelimita parque estadual e APA

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta