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O rei da selva pode vir a reinar no Cerrado. Ilustração: P.A. Vieira

O rei da selva pode vir a reinar no Cerrado. Ilustração: P.A. Vieira

Porto Nacional (TO) - Imagine 400 animais da savana africana livres numa área de 100 mil hectares de Cerrado. Para facilitar, visualize 28 elefantes, 10 leopardos, 22 leões, 10 chitas, 20 búfalos, 34 rinocerontes (brancos e pretos), 20 hipopótamos, 26 girafas, 30 zebras, 30 hienas e duas dezenas de cães selvagens, fora os 150 antílopes divididos entre kundus, impalas, elands e waterbucks. Além, claro, da nacional onça pintada. Todos desfilando no Jalapão, região turística do Tocantins.

Isso pode acontecer, caso o projeto Out of Africa Brasil -- que tem o intuito declarado de "preservar" -- seja aprovado pelas autoridades ambientais estaduais e federais.

O nome alude ao filme Out of Africa (Entre Dois Amores, no título em português),  superprodução hollywoodiana de 1985 que ganhou 7 Oscars. O enredo conta as agruras e os romances de uma baronesa da Dinamarca, interpretada por Meryl Streep, que se apaixona pelas grandes paisagens africanas. Entretanto, se algo errado acontecer com o projeto de safári, por exemplo a fuga de animais, a versão brasileira ficará mais parecida com a história do filme Jurassic Park, onde dinossauros ressuscitados pela engenharia genética saem de controle.


A empreitada consiste de um complexo hoteleiro com 3 resorts de luxo juntos à área de safári. No Centro-Oeste do Brasil, os turistas poderão avistar os chamados “Big 5” da savana africana: rinoceronte, leão, girafa, elefante e búfalo. A área de 100 mil hectares (ou 1.000 km2), destinada aos animais, equivale a um retângulo de terra de 20 por 50 quilômetros.

O empreendimento ganhou repercussão após um vídeo (veja abaixo) promocional ter circulado nas redes sociais. Com duração de 8 minutos, narrado em português com legendas em inglês, a peça lembra que a América do Sul e a África já formaram um mesmo continente. É inevitável, novamente, a memória de Jurassic Park quando o locutor do vídeo narra, "... agora, já podemos sentir o coração de África, no Tocantins". Um pouco à frente, ele continua: "É o turismo consciente com preservação de um tesouro mundial. Uma vida selvagem espetacular africana no Brasil, ao alcance de todos. Não há nada tão vivo quanto a visão de um leão, de um elefante ou de um rinoceronte circulando livremente em seu habitat por uma savana brasileira".

Na apresentação do projeto obtida pela reportagem (veja anexo), as fotos dos animais africanos aparecem ao lado do logo de empresas como Shell, Mobil, Toyota e Engel, sugerindo que elas seriam possíveis patrocinadoras, funcionando como “padrinhos” de cada espécie de animal trazida da África.

Projeto nebuloso ganha apoio oficial

Segundo os depoimentos colhidos pelo ((o))eco, o Out of Africa Brasil contraria qualquer noção de bom senso ambiental e também quebra leis. O porte do investimento também impressiona. É semelhante ao custo previsto para a construção da arena Pantanal, em Cuiabá, um dos estádios da Copa 2014.

Não é difícil duvidar da veracidade do projeto. Parece uma pegadinha. Mas até onde ((o))eco conseguiu apurar é para valer, embora caracterizar em que estágio ele se encontra seja controverso.

Carvalho Pinto, um dos 3 sócios da OOAB e seu assessor financeiro, afirma que a ideia é embrionária.  Não haveria nada de concreto e a OOAB não disporia nem da área de 100 mil hectares ou dos recursos para levar a coisa à frente. “Isso tudo está só na nossa cabeça”, disse Pinto por telefone a ((o))eco. “A única coisa que a OOAB fez foi dar entrada nos órgãos ambientais para saber o que é necessário para construir um safári”.

Segundo ele, o problema começou com o vazamento do vídeo promocional na internet. “É um material interno que mostramos apenas para o Ibama e o Naturatins, não sabemos como isso foi parar na internet”, disse.

Enzo Alcayaga, assessor de comunicação da OOAB,  também entrevistado pelo ((o))eco deu uma versão diferente. Segundo ele, o projeto está pronto para sair do papel, conta até com “carta compromisso” do governador do Tocantins Siqueira Campos, documento que coloca por escrito seu apoio.

“Está tudo fechado, a parte da logística, o local da reserva. Estamos apenas esperando a licença do Ibama”, conta Alcayaga em tom entusiasmado. Para mais detalhes, sugeriu que ((o))eco contatasse Rui Almeida, sócio que idealizou o Out of Africa Brasil, pois de acordo com Alcayaga, os outros sócios sequer sabem onde ficarão os animais. A reportagem tentou, mas não conseguiu contatar Almeida.

Fachada do escritório da OOAB, instalado na avenida Juscelino Kubitschek, a mais movimentada de Palmas. Foto: Meriele Rodrigues

Fachada do escritório da OOAB, instalado na avenida Juscelino Kubitschek, a mais movimentada de Palmas. Foto: Meriele Rodrigues

Enquanto isso, o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), responsável pelos licenciamentos ambientais no estado, já foi procurado. Alexandre Tadeu, seu presidente, diz estar se esforçando para emitir logo o Termo de Referencia (TR) solicitado pelo grupo para a construção da megaestrutura. “Não há nenhum exemplo de casos como esse para nos auxiliar”, disse ao explicar porque o Termo de Referência ainda não saiu.

Tadeu admite não conhecer detalhes do Out of Africa Brasil, mas relatou que esteve há um mês com Almeida, orientando-o sobre o processo de licenciamento no Naturatins. A previsão é que o Termo de Referência saia nos próximos dias.

“Ele me procurou, e disse brevemente que os animais seriam soltos em uma área como numa representação da cadeia alimentar das espécies”, lembra Tadeu sobre o encontro.

Numa entrevista a um telejornal local, ele declarou que o governo do estado do Tocantins está dando todo apoio e “que era parceiro do empreendimento”.

As declarações de Tadeu irritaram Carvalho. “A grande verdade é que nem a terra nós temos ainda”, emendando que não morre de amores pelo Tocantins e que poderá levar o safári para o Ceará.

A provável “reserva” de animais exóticos e nativos ficaria entre os municípios de Lizarda e São Felix, ambos localizados na Amazônia Legal. Segundo o vídeo do grupo, um “lugar extremamente favorável” para o safári.

Contra as leis


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O Ibama também já foi contatado. Enquanto o Naturatins busca formas para licenciar a estrutura física do empreendimento que, segundo Carvalho, ainda não passa de uma ideia, o Ibama está analisando o pedido que recebeu da OOAB para importar os 5 bigs e demais animais africanos envolvidos. Conforme relatos de analistas ambientais do órgão, a licença deverá ser negada.

Através de nota técnica, os analistas do Ibama destacam as portarias No. 93 de 1998 e No. 175 de 2008 do órgão. A primeira não permite a importação da maioria dos animais citados pelo projeto. Exceto para zoológicos, mas o Out of Africa Brasil não se enquadra em nenhuma categoria prevista de cativeiro. Já a portaria No. 175 proíbe a reprodução de  grandes felinos exóticos por conta dos constantes casos de abandonos e maus tratos.

Os analistas acrescentam que a carta consulta apresentada pelo grupo é escassa em informações sobre o esquema de safári. “Pelo que sei, parques como estes não existem em nenhum lugar do mundo. Não desta forma como eles pretendem, sem nenhum tipo de intervenção humana e com presas e predadores convivendo sem nenhum manejo”, diz Patrícia Barba Malves, que analisou o processo e trabalha na sede do Ibama do Tocantins. A análise já seguiu para Brasília.

Ela teme pela manutenção dos animais, risco de fuga e acidentes, principalmente caso o empreendimento fracasse. “A metodologia apresentada suscita dúvidas quanto a sua viabilidade. E se não der certo, o que acontecerá com essa quantidade de animais?”

Meriele Cristina Rodrigues, diretora da Associação Tocantinense de Biólogos e conselheira do Conselho Regional de Biologia, está preocupada com o projeto: “Se for aprovado aqui no estado, tememos que encontrem brechas para não retrocederem ”.  A associação enviou uma moção de repúdio a OOAB e está organizando um manifesto com abaixo assinado contra o Out of Africa Brasil.

Balaio de espécies exóticas e nativas

Vista do mirante na Serra do Espírito Santo, no Jalapão. (Foto: Divulgação)

Vista do mirante na Serra do Espírito Santo, no Jalapão. (Foto: Divulgação)

O projeto de safári do grupo OOAB pretende juntar espécies nativas e exóticas num só “balaio”. Eles viveriam na área de 100 mil hectares, que seria inteiramente cercada, em livre contato com as espécies nativas.

“As pessoas sequer conseguem evitar que animais, quaisquer que sejam, fiquem confinados em criadouros. Quem dirá a uma área desse tamanho?”, assusta-se Sílvia R. Ziller, diretora do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental.

De acordo com Ziller, se o safári for mesmo construído os responsáveis terão cometido um claro crime ambiental, pois trata-se de introdução de espécies exóticas, proibida pela lei de crimes ambientais (9.605/98) em seu artigo 31.

“Os impactos da introdução de espécies não se atém à predação e à competição. Eles também incluem a introdução de patógenos, parasitas e doenças”, diz Sílvia.

Na África do Sul, conta ela, o Parque Nacional de Kruger mantém um programa de eliminação de elefantes por falta de predadores em número suficiente. Os animais em excesso à capacidade do parque destroem a vegetação nativa, especialmente árvores.

“Ninguém no Brasil está preparado para fazer esse manejo", afirma Ziller. "Esse projeto sequer seria avaliado se fosse apresentado na África do Sul, na Austrália ou na Nova Zelândia, tamanho o risco de problemas tanto quanto à diversidade biológica quanto às pessoas e à agricultura".