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O dia ainda é uma aurora e a Reduc iluminada parece uma cidade (Foto: Victor Moriyama)

O dia ainda é uma aurora e a Reduc iluminada parece uma cidade (Foto: Victor Moriyama)

E amanheceu. Do lado esquerdo, avistávamos a Refinaria Duque de Caxias, a Reduc, da Petrobrás. Com milhares de luzes ainda acesas, sua silhueta parecia uma cidade de porte médio, exceção feita às enormes labaredas que saem 24 horas por dia de suas chaminés. Ao fundo, a grandiosa e maltratada baía de Guanabara com seus tons de azul. Bem à frente, a “rampa”, o local onde a montanha de lixo de 50 metros de Gramacho crescia. A rampa é o fim do percurso pelo qual chega a procissão de caminhões da Comlurb, com portes diversos. Seus romeiros? Os catadores de material reciclável que os aguardavam com avidez.

Chegamos ao portão de Gramacho às 5h da madrugada. Lá está o centro administrativo, que fica a cerca de 2 km do local do lixo. A lua cheia brilhava. Poucos minutos depois, começaram a chegar os caminhões com os catadores. O fotógrafo Victor Moriyama pôs-se ao trabalho. Depois que eles passaram, os seguimos até a área de despejo do lixo e estacionamos o carro a 200 metros do centro da ação. Não há filme ou noticiário de TV capaz de reproduzir o impacto do cenário de Gramacho ao vivo. O conhecimento de antemão das imagens que iríamos encontrar não amenizou o choque.

Victor subiu a colina de lixo e desapareceu. Na base, atrás de cada caminhão da Comlurb que despeja sua carga de detritos, há um grupo de catadores prontos para recolher tudo o que tiver valor de mercado: vidro, pet, papelão, metais. Cada material tem seus especialistas. A despeito da proximidade das pessoas, os caminhões e tratores operam como se elas não estivessem lá. Ainda sob a impressão da chegada, fui salvo pelo aviso amargo de uma catadora:

-- Esse aí vai morrer, disse ao me ver observando, desavisado, o movimento na área de descarga. O susto me fez perceber que ali havia leis próprias. Evitar o atropelamento era problema de cada um, e mortes desse tipo, comuns.

Prova histórica do descaso ambiental

Gramacho operou durante 34 anos, desde 1978 até o dia 03 de junho de 2012, quando oficialmente parou de receber lixo. Durante esse tempo, foi o maior depósito de lixo da América Latina e o principal da área metropolitana do Rio de Janeiro -- a 20ª maior do mundo, com 12,6 milhões de habitantes. Recebeu o lixo dos principais municípios metropolitanos: além do próprio Rio de Janeiro, acolheu detritos de Niterói, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis, Teresópolis São João de Meriti, Nilópolis, Queimados e Mesquita. Acumulou entre 60 e 80 milhões de toneladas de lixo. “É difícil avaliar a quantidade precisa, pois até 1996 as balanças eram precárias”, conta Lúcio Vianna Alves, gerente de Gramacho, que lá trabalha há 15 anos.

O aterro fica no município de Duque de Caxias, a margem da Baía de Guanabara, ao lado da foz de dois pequenos e poluídos rios, o Sarapuí e o Iguaçu. Antes, o lixo do Rio ia para o aterro da Praia do Retiro Saudoso, no Caju, bem mais próximo ao centro da cidade, mas também na beira da baía. Quando a capacidade deste se esgotou, o crescimento urbano obrigou o lixo a ir mais longe para encontrar um destino.

A escolha do local foi feita pela já extinta Fundrem (Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana). “Na época pensaram, joga no mangue. Essa área não serve para nada”, conta Lúcio, lembrando que na década de 70 não havia leis ou preocupação ambiental.  Entre 1978 e 1996, Gramacho recebeu cerca de 5,5 mil toneladas de lixo por dia. Nos últimos anos, chegou a receber 9 mil toneladas/dia ou 75% do lixo da região metropolitana. Às vésperas do seu fechamento, e substituição pelo novo aterro sanitário de Seropédica, ainda recebia 2 mil toneladas/dia.

Lixão ou aterro?

Gramacho começou como lixão legítimo, um depósito de lixo a céu aberto onde, sem qualquer controle, todo tipo de detrito era depositado. Entrava o chamado resíduo classe 1, inflamável, tóxico e causador de doenças. Incluía metais pesados e lixo hospitalar. Vinha de qualquer lugar, casas, indústrias, hospitais, portos e aeroportos. Gramacho não discriminava lixo nem se importava em cobri-lo.

Segundo Lúcio Alves, não havia também qualquer tentativa de organização. Famílias moravam dentro do lixão, crianças trabalhavam nele e os próprios catadores orientavam os caminhões de lixo. Derivados do apodrecimento de matéria orgânica, o gás metano e o chorume faziam estragos. O primeiro subia do solo e produzia incêndios espontâneos, enquanto o chorume e o lixo, a cada chuva, vazavam livremente para a baía de Guanabara.

Em 1996, Gramacho recebeu um upgrade. A área de 1,3 milhão de metros quadrados foi cercada por uma estrada periférica de 5 km e barreiras para segurar o lixo. Os resíduos passaram a ser classificados na entrada, o chorume contido e os “vetores” -- nome técnico para ratos, baratas e outras pragas – controlados. Os urubus continuaram frequentando a área em profusão, mas cachorros e até cavalos foram retirados.

A área de lixo passou a ser limitada e coberta com terra. Uma vez que a água da baía foi poupada dos vazamentos, a vegetação do mangue começou a se regenerar. Em vez de lugar desprezado e ideal para um lixão, o mangue foi promovido a manguezal e recebeu novas mudas, escolhidas pelo biólogo Mario Moscatelli, contratado pela Comlurb para ajudar na recuperação. As modificações promoveram Gramacho ao que se chama um aterro remediado ou controlado. Na prática, isso significa um lixão que passa a ser coberto de terra.

Do alto, se avistam os contornos da Baía de Guanabara,   anfitriã do lixão. (Foto: Eduardo Pegurier)

Do alto, se avistam os contornos da Baía de Guanabara, anfitriã do lixão. (Foto: Eduardo Pegurier)

 

Os catadores

Entre às 6h30 e o meio-dia, é formidável a quantidade de lixo reciclável que é separada e ensacada por tipo de material. No entra e sai incessante de Gramacho, chegam caminhões mambembes, semelhantes aos que trouxeram os catadores, dessa vez para comprar o seu produto. De um total que já chegou a 6 mil catadores, restam nesses últimos dias de Gramacho cerca de 1.200. A renda de um catador depende da sua produtividade, o que nesse caso é igual a capacidade física. “A garotada tira 100 reais por dia”, diz Lúcio. “A média é de 50 reais”.
 
A maioria mora em Jardim Gramacho, o bairro que deu nome ao aterro. Lá vivem 13.700 moradores, dos quais 60% sobrevivem de atividades ligadas à comercialização de recicláveis, que vão de catar a trabalhar nos depósitos de sucata. De acordo com um estudo feito em maio de 2011, pelo IETS (Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade), Jardim Gramacho possui uma renda domiciliar per capita baixa,de R$ 370 reais mensais. Do total do bairro, 43% da população está abaixo da linha de pobreza, e mais de 16% abaixo da linha de extrema pobreza, ou 5.800 pessoas pobres e outras 2.100 na miséria.

Gloria Cristina dos Santos, 36 anos, começou a catar no final da década de 80. Filha de pai estivador, Gloria teve que ajudar na renda familiar e trabalhou em Gramacho com a mãe e irmãos. “Sou catadora há 25 anos e a minha adolescência foi terrível, eu era adolescente e catadora. Comecei a catar com 11 anos, cresci dentro de Gramacho”, conta. “Para mim, trabalhar no aterro nunca foi desonroso, mas sempre foi desumano". Hoje, Gloria é uma das representantes da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho (ACAMJG), fundada em 2004, justamente para discutir o encerramento do lixão e montar um planejamento para dar continuidade ao trabalho dos catadores de material reciclável.

Para suavizar a transição dos catadores, a prefeitura do Rio de Janeiro constituiu um fundo que distribuirá cerca de 14 mil reais a cada catador cadastrado, um total de 1.719. Ela também oferecerá aos ex-catadores do aterro treinamento em outras profissões.

O futuro

Fechar Gramacho foi uma novela. A primeira previsão era de que fosse encerrado em 1998. Depois, a data passou para 2004 e foi se esticando. A desativação para valer começou em abril de 2011. Em fevereiro de 2012, a data anunciada para o fechamento, sintomaticamente, foi 1º de abril. Várias outras foram anunciadas até que finalmente, e sem muito barulho, o aterro foi lacrado no último dia 03, a duas semanas da Rio+20. A ministra Izabella Teixeira prestigiou com sua presença a cerimônia final. Nela, o prefeito Eduardo Paes chamou Gramacho de “um crime ambiental que o Rio comete há muito tempo”.

No entanto, a história de Gramacho não acabou. A decomposição e o peso de no mínimo 60 milhões de toneladas de lixo, boa parte tóxico, constituem para o solo, o lençol freático e a Baía de Guanabara um risco que durará décadas. O terreno lacerado do aterro funciona como uma gelatina: sofre rachaduras e está em permanente acomodação. De acordo com a Comlurb, a cidade deu sorte. Embaixo do aterro há uma camada de argila com 20 metros de espessura, capaz de impedir qualquer infiltração. Porém, mesmo que essa camada resista como esperado, monitorar e sanar a herança de destruição ambiental de Gramacho é trabalho para mais 15 ou 20 anos.

Abaixo, veja o ensaio fotográfico de Victor Moriyama

* com reportagem de Fabíola Ortiz