Tucano morto na beira de estrada próxima à Aguaí, em São Paulo (foto: Daniel Santini)
Além de testar limites pessoais e expandir horizontes, os ciclistas que participaram do último Audax, realizado no final de semana passado em Holambra, no interior de São Paulo, também tiveram contato com uma realidade pouco divulgada das estradas brasileiras. Os participantes percorreram 200 km (ou 135 km, no caso dos que optaram pelo desafio, modalidade mais leve) e, durante o percurso, puderam observar corpos e mais corpos de animais silvestres mortos jogados para a beira do asfalto. Diferente de quem passa de carro, quem está no acostamento consegue ter uma boa dimensão do massacre constante de aves, répteis e mamíferos que acontece nas vias de alta velocidade do país.

Audax é um tipo de prova baseada mais em solidariedade do que em competição, na qual é comum ver um participante ajudando o outro, seja dividindo comida ou câmaras para pneus furados, seja trocando palavras de apoio. A organização tem como objetivo a promoção de cicloviagens e do uso da bicicleta em percursos de longa distância. Quem participa enfrenta uma disputa pessoal contra o relógio - é preciso completar percursos longos em tempos determinados, o que significa que, quem participa, passa o dia inteiro pedalando.

Em um Audax como o de Holambra, as paisagens são incríveis (veja as fotos do Marcelo Assumpção abaixo ou neste link), mas é impossível deixar de prestar atenção no asfalto - e, consequentemente, nos animais mortos no caminho. Este blogueiro, que percorreu 200 km, contou 10 aves, oito cobras, um tatu e um roedor grande difícil de identificar. Ao todo, foram 20 corpos no caminho percorrido em pouco mais de 12 horas. Dá um corpo a cada 10 km. Mesmo considerando que alguns, como o do tatu, já deveriam estar lá por mais de um dia, considerando o cheiro e a quantidade de formigas presentes, a quantidade impressiona. E incomoda.

O tucano é uma ave linda. Encontrar um jogado na grama, provavelmente atingido por um caminhão, embrulha o estômago. O da foto foi avistado no final de uma subida, pertinho desta coral em que é possível ver até as marcas do pneu. Ela se arrastou até a beira do asfalto após ser atingida, mas, quando fotografada, estava estática, seca, dura. No trecho em questão, como em tantos outros, carros e caminhões passam sem nenhuma consideração por limites de velocidade ou respeito à vida.

Outro pássaro avistado morto no final de uma subida foi uma coruja. Em se tratando de atropelamentos, o sobe e desce da região não ajuda. Embalado na descida, o impulso é manter a velocidade para conseguir completar a subida sem gastar tanta energia - principalmente se você está de bicicleta tentando desesperadamente economizar calorias em uma prova difícil e longa. Só que, quando a velocidade ultrapassa 120 kmh e a carga carregada é de mais de uma tonelada (peso de muitos dos carrões fabricados hoje), este tipo de deslocamento pode ser fatal - na maioria das vezes para animais desatentos, mas, comumente, para gente também.
Confira alguns dos cenários do percurso nas fotos de Marcelo Assumpção (e pense se não vale diminuir a velocidade, nem que seja para apreciar a vista):













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