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O orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis) foi descrito esta semana por pesquisadores. Crédito: Maxime Aliaga.

O orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis) foi descrito esta semana por pesquisadores. Crédito: Maxime Aliaga.

O orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis), descrito esta semana por pesquisadores de instituições australianas e suíças, é também a mais ameaçada espécie de grande primata do planeta, grupo que inclui outras duas espécies de orangotangos, duas de gorilas, chimpanzés e bonobos.

Estima-se que existam apenas 800 animais da espécie ocupando uma área de aproximadamente 1 mil quilômetros quadrados de florestas fragmentadas no norte da Ilha de Sumatra. A região é alvo de projetos de hidrelétricas e produção agrícola, que ameaçam os habitats mais importantes desse orangotango.

Além disso, os orangotangos são ameaçados pela caça. Devido a pequena taxa de natalidade entre esses animais, os pesquisadores calculam que mesmo a perda de apenas 1% da população por ano (ou seja, 8 animais mortos ou removidos da população), possa condenar o orangotango-de-tapanuli à extinção.

A confirmação da existência de uma nova espécie de grande primata foi apresentada na edição de 2 de novembro da revista Current Biology. Pesquisadores encontraram diferenças importantes no DNA e na anatomia do crânio dos orangotangos-de-tapanuli, um pouco menor do que de seus parentes.

Desde o final da década de 1930, já se tinha informações de uma população de orangotangos em Tapanuli, região que fica ao sul da área ocupada pelo orangotango-da-sumatra, encontrado no extremo norte da ilha. Em 1997, a existência dessa população foi confirmada, mas ainda não se tinha informações suficientes para classificá-la como uma nova espécie.

Os dados genéticos indicam que embora tenha sido descoberto só agora, o orangotango-de-tapanuli é de uma linhagem mais antiga do que seus primos. A espécie surgiu, segundo os pesquisadores, há cerca de 3 milhões de anos. Seus primos de Sumatra e de Bornéo se diferenciaram de outras espécies há cerca de 700 mil anos, de acordo com o artigo.

Além disso, o novo orangotango tem mais semelhanças com espécies já extintas do gênero Pongo que viviam na Ásia Continental, com os quais podem ter mantido conexões há até 20 mil ou 10 mil anos.

Os responsáveis pelo artigo falaram sobre a importância da descoberta. “Não é todo dia que nós descobrimos uma nova espécie de grande primata, então na verdade a descoberta é muito excitante”, afirmou um dos autores, Michael Krutzen, da Universidade de Zurique, Suíça, em texto distribuído a jornalistas.

Outro dos autores, Erik Meijaard, da Universidade Nacional da Austrália, destacou que ainda temos pouco conhecimento do impacto que as atividades humanas têm sobre o planeta e sobre a própria existência da humanidade.

O crânio dos orangotangos-de-tapanuli é um pouco menor do que de seus parentes. Crédito: Nater e tal/ Current Biology.

O crânio dos orangotangos-de-tapanuli é um pouco menor do que de seus parentes. Crédito: Nater e tal/ Current Biology.

“Se após 200 anos de sérias pesquisas biológicas ainda podemos descobrir novas espécies neste grupo, isso nos conta o quê sobre todas as outras coisas que estamos negligenciando, espécies ocultas, relações ecológicas desconhecidas, limiares críticos que não devemos atravessar?”, questiona.

Grandes primatas não humanos

Informações Red List IUCN

Gorila-do-ocidente (Gorilla gorilla): criticamente ameaçado; encontrado em Angola, Camarões, República Centro-africana, Guiné-Equatorial, Gabão, Nigéria e República do Congo; ameaçado pela caça, perda e degradação do habitat, mudanças climáticas e doenças, como ebola; População estimada entre 150 e 250 mil no início do século, sofreu uma redução de quase 8,75% entre 2003 e 2015.

Gorila-do-oriente (Gorilla beringei); criticamente ameaçado; encontrado no oeste da República Democrática do Congo, noroeste de Ruanda e sudoeste Uganda, em altitudes de até 3.800 metros; ameaçado pela caça, perda e degradação do habitat, mudanças climáticas e doenças, como ebola, e também pelas guerras na região; População dividida entre duas subespécies: gorila-das-montanhas (Gorilla beringei beringei), cerca de 880 indivíduos, e gorila-de-grauer ou gorila-das-planícies-orientais (Gorilla beringei graueri), 3.800 indivíduos (2015).

Chimpanzé (Pan troglodytes); ameaçado; encontrado ao longo de uma extensa região de 2,6 milhões de quilômetros quadrados, que vão desde o sul do Senegal até as florestas ao norte do Rio Congo e, a oeste, até a Tanzânia e Uganda; ameaçado pela caça ilegal, perda e degradação do habitat e doenças; Estimativas variam de 250 mil a até 500 mil animais, embora algumas populações estejam reduzidas a menos de 1.000 indivíduos.

Bonobos (Pan paniscus); ameaçado; encontrado na África Equatorial, ao Sul do Rio Congo; ameaçado pela caça ilegal, perda de habitat e doenças; População mínima estimada entre 15 mil e 20 mil bonobos.

Orangotango-da-sumatra (Pongo abelii); criticamente ameaçado; encontrado no norte da Ilha de Sumatra, Indonésia; ameaçado pela caça, captura e perda de habitat; estima-se que existem ainda cerca de 13 mil indivíduos da espécie.

Orangotango-de-bornéu (Pongo pygmaeus); criticamente ameaçado; só é encontrado na Ilha de Bornéu, na Ásia, dividida entre Malásia e Indonésia; ameaçado pela perda e degradação de habitat, e caça; População estimada em mais de 100 mil indivíduos, mas em declínio rápido, com previsão de cair para 47 mil até 2025.

Conheça o mais novo primata do pedaço, o orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis). Crédito: Andrew Walmsley.

Conheça o mais novo primata do pedaço, o orangotango-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis). Crédito: Andrew Walmsley.

 

Saiba Mais

Artigo: Morphometric, Behavioral, and Genomic Evidence for a New Orangutan Species.

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