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Onças e gente II: piores encontros PDF Imprimir E-mail
Peter G. Crawshaw Jr.   
02/09/2008, 09:00
No dia 24 de junho, um pescador de 23 anos foi morto por uma onça-pintada, quando dormia em uma barraca, na beira do Rio Paraguai, nas proximidades da Estação Ecológica de Taiamã, no Pantanal. Ele estava acampado há vários dias no local, juntamente com seu pai, e juntos coletavam iscas para vender a pescadores-turistas, alojados em barcos-hotéis ancorados na região. Pelo relato de seu pai, o rapaz havia ficado dormindo no acampamento, enquanto ele saia para catar iscas, por volta das 19 h. Quando o pai retornou ao acampamento, cerca de 30 minutos depois, já escuro, chamou pelo filho, sem obter resposta. Ouvindo um barulho, direcionou sua lanterna para o local, e viu uma onça-pintada arrastando o corpo já inerte de seu filho. Como seus gritos não surtiram efeito no animal, o pai chamou por socorro pelo rádio portátil e cerca de 10 minutos depois, chegaram várias pessoas que se encontravam próximas e escutaram o pedido pelo rádio.

Fazendo bastante barulho, seguiram o rastro de sangue até encontrarem o corpo do rapaz, já morto e com ferimentos profundos, deixados por dentes e unhas do animal.  Imediatamente, foi providenciado transporte para levar o corpo para Cáceres, onde ele foi necropsiado pelo legista Dr. Manoel Francisco de Campos Neto.  Segundo depoimento do legista, em seus mais de 20 anos de vivência na região, ele havia visto vários casos de acidentes com piranhas e jacarés, mas nunca havia visto acidentes causados por onças-pintadas.  Eu conversei sobre o caso com o biólogo Rogério Cunha de Paula, analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais/CENAP (hoje pertencendo ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade , ICMBio), designado para atender à ocorrência, e com o chefe do centro, o veterinário Ronaldo Gonçalves Morato.

O centro, criado em 1994 como um centro especializado do IBAMA, é responsável pelo manejo e conservação dos mamíferos carnívoros do Brasil, que incluem desde os pequenos carnívoros (cachorros-do-mato, furões, iraras, quatis, etc.), passando pelos médios (jaguatiricas, lontras), até os grandes (lobo-guará, ariranhas, e as onças pardas e pintadas, essa última incluindo também a onça-preta, que é a mesma espécie). Esse caso chama a atenção por vários motivos. Primeiro, porque embora ataques a humanos por tigres, leopardos e leões ainda sejam relativamente comuns em países como Índia, Nepal, Rússia, Quênia e Tanzânia, ataques não-provocados de onças-pintadas (jaguar em Inglês ou tigre, em Espanhol) a pessoas são extremamente raros. A onça-pintada é o maior felino das Américas, sendo o terceiro em tamanho no mundo, perdendo apenas para o tigre e o leão, respectivamente.  

Defesa de território

Na verdade, são conhecidos vários casos de ataques de pintadas, mas quase que exclusivamente em situações em que o animal estava sendo caçado e que, geralmente mal-ferido, se volta contra o caçador. Entretanto, como qualquer animal, desde o mais dócil, se ferido ou acuado pode contra-atacar para se defender, esses casos não podem ser usados como parâmetro para estatísticas. Em segundo lugar, a violência aparente do ataque e a ousadia do animal por ter retornado ao acampamento, depois do resgate do corpo do rapaz, e destruído várias coisas (entre elas, as barracas, recipientes para combustível, e latas de inseticida em spray), demonstram um comportamento extremamente atípico, aberrante, para a espécie.  Segundo Rogério, que visitou o local e conversou com várias pessoas envolvidas na situação, a explicação mais plausível parece ser a de defesa do animal do seu território, por ter sido invadido pela presença do acampamento e das pessoas nele. Isso é corroborado por terem sido encontradas várias fezes de pintadas, de diferentes idades no local do acampamento, indicando um uso intenso da área, possivelmente por esse animal.

É sabido que as onças usam as fezes como marcação química, de efeito visual e olfativo, como um cartão de visitas ou um aviso para outros indivíduos da mesma espécie, significando que a área já tem dono. O outro fator, extremamente importante, é decorrente de um hábito que tem se difundido bastante no Pantanal, de cevar as onças com algum tipo de alimento, geralmente peixes, para que elas se habituem com a presença de pessoas e a re-utilizar determinados lugares repetidamente. Também é usado atrair animais, utilizando instrumentos que imitam a vocalização da espécie (chamada esturro).  O pessoal local faz isso para depois levar turistas que pagam, às vezes muito bem, pela oportunidade de ver e fotografar o predador máximo desse ecossistema.  O número de pousadas que em suas propagandas fazem referência à onça-pintada como um fator para atrair público, é um indicativo da popularidade da espécie.  

Por outro lado, um estudo recente indicou uma recuperação significativa da espécie no Pantanal, comparada ao estado das populações ao final da década de 70, quando foram feitos os primeiros estudos sobre a espécie. O Cenap ainda está coletando informações sobre o caso e trabalhando com os atores envolvidos, a nível local e regional, para apurar as circunstâncias do ataque e descobrir suas causas, para poder melhor prevenir situações semelhantes.  Segundo Morato, “foram realizadas reuniões com moradores locais, guias de turismo e pescadores. Para atingir os turistas, estamos trabalhando junto a mídia escrita e falada buscando informar aos que querem visitar o Pantanal que atrair onças pintadas pode ser arriscado, além de alterar o comportamento dos animais”.

Conclusões

Segundo o relatório oficial sobre o caso, algumas das propostas de ação indicadas são:
  • Mudança de comportamento de turistas e pescadores para distanciamento e perda de habituação das onças;
  • desestimular o uso das margens do rio para acampamentos (substituição dos acampamentos por uso de barcos-dormitórios);
  • se absolutamente necessário o uso de acampamento, tomar medidas efetivas de segurança, como cercas, luzes, e vigilância, para diminuir a probabilidade de ataques, desencorajando a aproximação de onças no local;
  • uma investigação sobre demografia e ecologia da onça-pintada, em pontos críticos do Pantanal;
  • monitoramento no local do ataque através de armadilhas-fotográficas, para um levantamento dos animais residentes na área e a possível identificação do animal responsável, para remoção.
Ainda segundo Morato, “é preciso enfatizar que esse não é um comportamental normal da onça pintada e que, portanto, as pessoas não devem entrar em pânico nem tampouco saírem caçando onças indiscriminadamente. Nosso objetivo é buscar uma convivência harmoniosa entre a natureza e o homem, respeitando as características sociais e culturais de cada região”.
Comentários
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Caso isolado
Carlos R. Lehn 02/09/2008 09:27:26

Com certeza deve tratar-se de uma caso isolado. Aproveito para chamar a
atenção par aum vídeo que anda circulando pela internet, mostrando uma onça
capturando uma capivara. A proximidade com que os barcos se aproximaram da
onça, sem cuidado algum, me leva a acreditar que em breve teremos outro caso
como o noticiado nesse artigo. É preciso respeitar a natureza do animal, com
Prudência!!!!!!
Excelente este artigo. parabéns ao autor e O eco.
Cada um no seu " Quadrado".
Laercio Machado de Sousa 02/09/2008 13:34:03

Mostra aquilo que já é sabido há muito tempo, o homem está invadindo áreas
onde deveriam existir apenas animais irracionais,o pantanal é o lugar mais
maravilhoso do mundo e assim deve ficar, para aqueles que se atrevem á ir
contra a mãe natureza, a mesma da respostas ás vezes adequada e as vezes um
pouco trágica.Lamento...mas este é o "Mundo animal" em que
vivemos..pantaneiro que sou, sei que os bichos só atacam quando se veem sem
saída ! Sou produtor na linha preservacionista assim como uma dezenas deles que
por aqui existem...saudações pantaneiras!!!!
O Medo, a Curiosidade e a Fome
Anderson de Carvalho Soares 04/09/2008 06:32:53

O Carlos, acima, faz uma referência extremamente válida acerca do vídeo da
onça e da capivara. Tive acesso ao material completo e efetivamente ele foi
produzido na mesma região e nos dias próximos ao ataque. Nele se observa
claramente que os animais daquela região não apresentam o mínimo receio do
ser humano. Donde se conclui que efetivamente estão criando uma relação de
promiscuidade, que este animal, como topo de cadeia que ele sabe que é, logo
logo, com a perda do "medo", chega a "curiosidade" e a
"fome". Parabéns Peter!
comentario
Willian Ferreira 05/09/2008 10:40:12

Antes que as pessoas saem para qualquer aventura é necessário o estudo da
região e seus perigos,parabéns pelas informações contidas neste texto!
Tom 07/09/2008 08:01:57

veio
Panthera onca
Pedro Nassar 09/09/2008 17:03:36

Moro no Pantanal e sou amigo dos pesquisadores do Projeto Onça Pantaneira. Eles
estão fazendo um estudo com as onças de um modo bem significativo e poderao
ajudar no futuro, não nós seres-humanos, mas esse animal muito caçado na
região. Essa história ficou famosa por aqui e o que nós temos conhecimento é
de que as pessoas relamente estavam cevando os animais para ganhar dinheiro em
cima deles.
O PODER DA ONÇA PINTADA
Helio Sousa 22/09/2008 19:07:42

Essa semana fique com muito medo da onça pintada, fui perca no Rio Vermelho a
uns 30 Km de Aruanã no GO ao lado do Rio Araguaia é lá eu vir o poder da
pintada, tinha uma perna do rio com uma largura de uns 7 metros e uma praia de
uns 30 metros a pintada ficou indo e vindo olhando o boto, creio que quando o
boto respirou ela pegou, estive olhando o que ela fez é impressionante ela
arrastou um boto com cerca de 150 kg a uns 20 metro ma margem comeu a parte da
frente do boto, estive lá agora dia 18.09.08 e registrei na minha máquina, ela
estava acompanhada de um filho e no dia 20 começou a chover e fiquei com
muito medo no acampamento ouvindo a onça esturrando do outro lado do rio, e
passei a noite em claro, não de mole fique alerto se vc for acampa nesses
lugares...
turismo ecologico versus capitalismo
Laudiceia Braga Rodrigues 24/09/2008 15:08:23

"A ganancia do ser humano em ter, e não ser, faz com que passam dos limites
do bom senso. E´muito legal pousadas em lugares paradisíacos, mas aproveitem
esses locais para relaxamento, respirar ar puro, alimentar comk produtos o mais
natural possivel, mas acima de tudo ENCONTRAR com Deus, o seu Deus interior
e
se maravilhar da CRIAÇÃO. Deixem os pesquizadores, biólogos fazer a parte que
lhes cabem : Estudar e defender as espécies e divulgar seus
conhecimentos
para que nós, possamos ajudar com responsabilidade a
preservação do meio ambiente e do ecossistema, afim de que possamos deixar
para nossos descendentes
um mundo melhor. O ser humano devia não precisar de
ter uma vitrine viva exposta de animais, plantas e agua para que possa acreditar
que os mesmos existem e precisam ser preservados, e so olhar pra si mesmo (
vida! )"
Com muito carinho a todos os pesquisadoes e pessoas de bom senso
do mundo! Laudiceia /Foz do Iguaçu /Paraná
Brasilia
Ermenegildo Lins 03/10/2008 10:51:07

Pena que essas feras não comam nossos politicos !
O bicho é bonito,porém, perigoso.
Denilson Pereira da Silva 10/10/2008 18:21:22

Estive pescando no Rio Paraguai em duas oportunidades, inclusive, estive
acampado em sua margem, nessa ocasião tive o "prazer" de ouvir os
esturros desse animal, que me parece muito misterioso e imprevisível. Se fosse
hoje, não teria coragem de acampar naquele local e acho que vai demorar um
pouco para que tome coragem de voltar para o pantanal que é o lugar que mais
admiro. Vai ser difícil voltar a confiar nessa história de que esses animais
só atacam em ocasiões que podem ser previstas, conforme enfatizam nossos
respeitáveis amigos biólogos e outros profissionais da área. Se eu estiver
errado, me desculpem, mas, considerando que sou um leigo no assunto, acho que é
melhor não arriscar. Ou estou errado?
muito medo
GLAUCO MARTINS DE OLIVEIRA 16/10/2008 12:56:18

Vi as fotos do pescador que infelismente foi morto pelas onças, realmente
fiquei impressionado, pensarei duas , tres vezes em acampar as margens do rio
paraguai, e tambem é dificil de acreditar que estes bichos só atacam a gente
em poucas circustancias.
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BRUN