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O Rio Doce que estava doente, mas tinha chance de cura antes de ser destruído. Foto: Wikipedia

O Rio Doce que estava doente, mas tinha chance de cura antes de ser destruído. Foto: Wikipedia

Creio que nunca me senti tão impotente e com uma sensação de tamanha incerteza por não saber onde me apoiar. O Brasil está passando por uma fase da qual não me orgulho. São tantas as decepções que nem consigo listar. Mariana chora assolada em lama que se arrasta até o oceano e carrega consigo uma imensidão de vidas (agora mortas), tendo que resta pouca perspectiva de recuperação.

Não há um plano que me convença. Não há determinação e vontade de resolver ou de buscar meios que minimizem os estragos feitos por um setor movido por lucro, e que parece ter “comprado” quem poderia fazer diferença neste momento. Políticos e mídia estão omissos, com exceções, afortunadamente,  além de matérias em O Eco. O que predomina é a inércia quando o momento implora por atenção, empenho e dedicação. Não sinto firmeza nas pessoas que estão em posição de mando. Muito pelo contrário, parece haver uma aceitação de que é assim mesmo. Uma banalidade frente ao caos.

A lama carrega nossas esperanças de um país sadio, belo e sustentável. Carrega a boa fé de pessoas que vivem da terra ou das águas de um rio que já foi doce. Carrega nossa vontade de mudar as realidades que consideramos indesejáveis. Isso porque nossa voz soa rouca diante do vazio inglório de gritos sem eco.

Se a tragédia de Mariana foi causada por empresas gigantescas e de muita riqueza, as pessoas que sofreram perdas precisam ser tratadas com toda a dignidade, colocadas em hotéis de luxo até que casas novas sejam construídas em locais seguros para reporem aquelas que perderam. As vidas que se foram também devem ser compensadas, já que não podem ser trazidas de volta. As famílias vítimas da enxurrada da lama tóxica, precisam, no mínimo, serem cuidadas com respeito, pois os danos sofridos são imensos.

Já a natureza não sei nem por onde começar, mas uma série de especialistas precisam ser ouvidos de modo que se possa elaborar planos que ajudem a reconstituir o que se foi, mesmo que saibamos que a região jamais será a mesma. O Rio Doce já necessitava de cuidados antes do desastre de Mariana, mas ainda havia chances de recuperação. Como pagar multas é mais barato do que tomar as medidas cabíveis de segurança, dependemos da seriedade das empresas envolvidas. E agora, é lidar com perdas inestimáveis e com a perspectiva de uma realidade desoladora, que pode levar anos para melhorar, mesmo sem a pretensão de voltar a ser o que já foi.

Desculpe leitor, mas utilizo hoje desse portal para o qual contribuo há uma década como um verdadeiro desabafo. Nunca fui de entregar os pontos e sempre achei que somos capazes de tudo mudar – bastando querer com vontade e determinação. Pois estou há dias dizendo a mim mesma que isso ainda é verdade e que preciso encontrar as faíscas da esperança dentro do meu ser para recomeçar a sonhar – ponto de partida para qualquer ação, para qualquer transformação.

Sonho com um Brasil resplandecente em suas riquezas naturais e regido por justiça social, sendo a sustentabilidade a base para um progresso que valha a pena. Este é o sentimento que preciso voltar a nutrir para que novamente acredite que foi para isso que vim a esse mundo – dar o que tenho de melhor, contribuindo para um planeta que merece ter suas belezas celebradas, já que estão em toda parte, do micro ao macro, em todos os detalhes que se encontram em nós e a nossa volta.

Devemos urgentemente reaprender a ver amorosamente, para que possamos despertar em nós mesmos um senso de proteção e cuidado que nesse momento falta no Brasil e no mundo. Só assim poderemos amar e valorizar a vida em sua plenitude. Se este for o sentimento predominante na humanidade muito do que estamos presenciando não aconteceria. Que o Rio Doce sirva de lição para evitarmos que outras tragédias voltem a acontecer.

 

 

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