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Foto: Wikipedia e Ivo Lima/Ministério do Esporte

Foto: Wikipedia e Ivo Lima/Ministério do Esporte

Faz um mês que Juma, a onça-pintada, foi morta a tiros por militares após a cerimônia de passagem da tocha olímpica pela cidade de Manaus. O episódio, que repercutiu na imprensa, nas redes sociais e nos círculos profissionais relacionados aos direitos dos animais e à conservação da vida silvestre, lembrou o caso do leão Cecil, abatido no Zimbábue em julho de 2015. Os dois casos têm elementos em comum. Juma e Cecil eram ambos “celebridades” (pelo menos a ponto de merecerem apelidos, o que fazia deles indivíduos diferenciados de seus pares, simples onças-pintadas e leões anônimos), pertencentes a espécies carismáticas de felinos, e cujas mortes causaram grande comoção popular. As semelhanças talvez terminem aqui. Pelo menos no que tange ao quanto os profissionais de vida silvestre serão capazes de converter tal comoção em apoio concreto à pesquisa e à conservação dessas espécies ameaçadas (mais pragmaticamente, em captação de recursos financeiros), os casos Cecil e Juma estão se mostrando tão diferentes e distantes quanto a savana africana e floresta amazônica.

Justamente um mês depois da morte de Cecil, e um dia depois se descobrir a identidade de seu algoz – um caçador de troféus americano –, o apresentador Jimmy Kimmel (que seria um Danilo Gentili da televisão americana, mas como nunca assisti a nenhum dos dois, o caro leitor pode ficar à vontade para ignorar a comparação) tomou quatro minutos de seu talk show para expressar sua reação ao que chamou de “tragédia nojenta”. Jimmy disse esperar que algo bom pudesse resultar daquilo e exortou seus expectadores a apoiar a Unidade de Pesquisa em Conservação da Vida Silvestre da Universidade de Oxford, a WildCRU, que vinha monitorando Cecil por meio de um colar de GPS desde 2009. O link para doações foi então exibido na tela. Estava dado o pontapé para um fenômeno de mídia – e de captação de recursos – que o Professor David Macdonald, diretor da WildCRU, chamaria de “ponto de inflexão na história da conservação do leão africano”.

O caso Cecil viralizou. Em uma hora, 4.4 milhões de internautas tentaram acessar o website da WildCRU: o site travou! Por praticamente uma semana o Professor Macdonald não fez outra coisa senão dar entrevistas. Apareceu inclusive na televisão brasileira (nunca pensei que veria o David – que, a propósito, foi meu orientador de doutorado – falando no Fantástico!). No dia seguinte ao apelo de Jimmy Kimmel, o termo “Killing of Cecil the Lion” foi registrado na Wikipédia. Tal página tem sido acessada quase mil vezes por dia nesses últimos três meses. Algumas celebridades, entre elas Ricky Martin, vieram a público expressar indignação. Em setembro do ano passado, a Ty Warner anunciou o lançamento da versão “Beanie Baby” de Cecil, com 100% do lucro das vendas destinados à WildCRU: pouco tempo depois o Cecil “zoiúdo” (somente os leitores que, com eu, têm menina em casa, vão conhecer a coleção zoiúdos) podia ser encontrado nas gôndolas de lojas brasileiras, debaixo de um cartaz que informava a causa nobre por trás da compra do simpático bichinho de pelúcia. Ainda na esteira da tanta repercussão, várias companhias aéreas americanas anunciaram que não transportariam mais troféus de caça ou partes de animais oriundos dos “Big Five” africanos – elefante, rinoceronte, búfalo, leopardo e leão. Em novembro, os Estados Unidos proibiram a importação de troféus de caça de países que não comprovassem boas práticas de conservação e manejo da fauna. Em janeiro de 2016, a lei “Leão Cecil” baniu a importação de troféus pelos aeroportos de Nova York e Nova Jersey, nos Estados Unidos. Em abril, a revista Time escolheu Cecil como o animal mais influente da história!

O resultado para a WildCRU foi generoso: 1.1 milhão de dólares arrecadados, vindos de 10 mil novos doadores. Para se ter uma idéia do que isso representa, o valor equivale a aproximadamente um quarto dos quase 12.7 milhões de reais que o ICMBio estima que seriam necessários para executar ao longo de dez anos seu Plano de Ação Nacional para a Conservação da Onça-Pintada (infelizmente, claro, não dispomos desse  recurso para colocar o plano em prática). A WildCRU está usando o dinheiro para expandir suas atividades de pesquisa e conservação do leão no Zimbábue e Botsuana e consolidar seu programa de bolsas de estudos que visa trazer estudantes africanos para Oxford. Impressionados com tanto sucesso, pesquisadores da WildCRU contrataram especialistas em mídia para investigar o papel das redes sociais no envolvimento do público no caso Cecil. O resultado do estudo foi publicado na revista Animals no último mês de abril.

Até que ponto as lições que essa história nos ensina podem ser aplicadas ao caso Juma e à pesquisa e conservação da onça-pintada no Brasil? As diferenças entre Cecil e Juma devem ser consideradas. Cecil era um leão, Juma uma onça-pintada. Leões são defensavelmente mais populares nos Estados Unidos e Europa – regiões que concentram doadores em potencial – do que onças. O leão é considerado como uma espécie ameaçada globalmente, enquanto a onça-pintada é tecnicamente “quase ameaçada”. Cecil era um macho de vida livre e temia-se que sua morte pudesse colocar em perigo as fêmeas e filhotes que viviam sob seu domínio (o que mais tarde descobriu-se não ter acontecido: seus filhotes estão passando muito bem, obrigado). Juma era de cativeiro e sua morte não teve implicações diretas para a conservação das onças na Amazônia. Mas sua morte expôs o problema do uso de onças como atração em desfiles e outros eventos e os riscos que tal prática impõe à onça e às pessoas envolvidas. Cecil era bastante conhecido no Zimbábue antes mesmo de sua morte e era objeto de pesquisa de uma das mais renomadas universidades do mundo, a Universidade de Oxford, na Inglaterra. Juma era mascote do 1° Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, em Manaus. Cecil foi morto por um dentista americano abastado. Juma foi morta por militares brasileiros. Por outro lado, Juma está duplamente associada ao evento esportivo mais popular do mundo: foi morta ao participar da cerimônia de passagem da tocha olímpica, e a mascote da Olimpíada do Rio 2016 é Ginga, justamente uma onça-pintada.

Mesmo guardadas as proporções, as reações causadas pela morte de Juma em amplos setores da sociedade, assim como no caso Cecil, foram notáveis e têm o potencial de se reverterem em algum benefício. O caso Cecil mostra que comoção popular pode ser convertida em apoio concreto à causa animal e conservacionista. Mas revela também que entre o interesse na Juma expressado por milhares de pessoas e o impacto positivo na qualidade de vida de animais em cativeiro, na conservação de espécies e na relação entre pessoas e fauna silvestre, existe um caminho longo e complexo, em que diferentes elementos – indivíduos, redes sociais, imprensa – cumprem papéis vitais. O momento mais importante da história da conservação do leão africano não se deve a nenhuma descoberta científica empolgante ou política pública inovadora, mas às pessoas comuns e à internet! Foi por meio da imprensa e das redes sociais que o fenômeno Cecil foi coletivamente construído. Portanto, entender o comportamento das pessoas envolvidas deveria ser uma prioridade em casos como o de Cecil e Juma. Teorias e métodos das ciências sociais, como os que visam entender, prever e mudar comportamentos humanos a partir de fatores como sentimentos, motivações e valores, devem ser decisivos na elaboração de estratégias efetivas de “marketing social” para o engajamento do público em conservação. Tais estratégias deveriam ser usadas, por exemplo, para sensibilizar as centenas de milhares de visitantes que virão à Rio 2016, e os milhões de pessoas que acompanharão os jogos pela internet, e fazer com que doem para projetos de conservação da onça-pintada.

Se no passado a coleta dos dados sociais necessários nesse tipo de empreitada dependia de entrevistas pessoais ou da boa vontade de voluntários em preencher questionários, hoje os pesquisadores têm acesso em tempo quase real a uma quantidade virtualmente infinita de informação social útil no chamado big data. Métodos como a mineração de textos e mineração na web, análise de redes sociais, análises de sentimento, aprendizagem de máquina e visualização de dados formam o campo emergente e promissor das “ciências sociais computacionais” (e-social sciences), ainda pouco explorado por profissionais da vida silvestre. Um exemplo de ferramenta gratuita e simples de análise de big data é o Google Trends, que mostra a variação temporal e espacial do interesse da sociedade em um tema específico, medido a partir do volume de buscas (veja figura).

 

Volume de busca segundo o Google Trends dos termos “Cecil” (linha azul) e “Juma” (linha vermelha) no mundo e no Brasil. Os picos estão relacionados às mortes de Cecil e Juma. Mapas mostram a variação nas buscas de “Cecil” no mundo e de “Juma” no Brasil: cores mais escuras denotam maior volume de busca.

Volume de busca segundo o Google Trends dos termos “Cecil” (linha azul) e “Juma” (linha vermelha) no mundo e no Brasil. Os picos estão relacionados às mortes de Cecil e Juma. Mapas mostram a variação nas buscas de “Cecil” no mundo e de “Juma” no Brasil: cores mais escuras denotam maior volume de busca.

Cientes da típica efemeridade dos fenômenos da internet, os pesquisadores da WildCRU estão buscando maneiras de sustentar por tanto tempo quanto possível o interesse e o apoio do público, e transformar o “Momento Cecil” em “Movimento Cecil”. O “Momento Juma” talvez ainda esteja por vir, com a Rio 2016. A onça-pintada é o animal mais conhecido e carismático da fauna brasileira e símbolo das olimpíadas no Brasil. Nunca na história das olimpíadas as pessoas estiveram tão conectadas. Nunca a internet teve tanto poder. Diante desse cenário, a morte de Juma criou a maior oportunidade de todos os tempos para o envolvimento popular na pesquisa e conservação da onça-pintada e da fauna brasileira em geral. Até que a chama olímpica se apague ao final dos jogos, saberemos um pouco mais sobre o destino de Juma; se morreu em vão e vai ser esquecida, juntando-se ao seu companheiro de Caatinga, o tatu-bola Fuleco, mascote da infame Copa do Mundo de 2014, ou se vai fazer história ao lado do primo rico Cecil, ajudando a agregar ao legado das olimpíadas um futuro em que nossa fauna silvestre recebe o respeito que merece.

 

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