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As montanhas rochosas canadenses, além de um número quase infinito de escaladas (que me atraíram nas últimas férias), conservam um ambiente natural que, para o observador incauto — eu, inclusive —, parece quase paradisíaco. Oceanos de coníferas se estendem até aonde a vista alcança, interrompidos apenas por picos rochosos ou nevados altamente tentadores; rios cristalinos correm aparentemente intocados em vales escarpados; aproveitando-se disso — e da proteção oferecida por enormes parques nacionais, como o de Banff —, a vida selvagem surge em abundância, desde esquilos até ursos grizzly.

Manchas no asfalto

Mas as coisas não são assim tão simples. Nem tão perfeitas. Essa constante aparição de animais de todos os portes aos olhos das centenas de milhares de turistas que visitam a região todos os anos, por exemplo, é um grave sinal de que as coisas não andam como deveriam. Esses animais estão mesmo é tendo mais contato do que seria recomendável com seres humanos, muitas vezes com conseqüências trágicas para ambas as espécies. É possível ver veados pastando na beira da rua, bem no meio da cidade de Banff, absolutamente despreocupado com a presença humana, que abusa na aproximação. Avisos alertando para a presença de ursos estão presentes em diversos bairros da periferia das cidades, aos pés das montanhas.

Mas aprender a comer comida em lata de lixo não é sequer o maior problema da fauna canadense. Morrer atropelado, sim. Um dos lugares mais comuns de se verem veados, cabritos e alces é, justamente, nas margens das estradas, onde a maioria dos veículos circula acima do limite de velocidade. Ou às margens dos trilhos da Canadian Pacific Railway, cujos trens servem para escoar a produção canadense de grãos para os portos da costa oeste, derramando parte do carregamento pelo caminho, o que atrai animais em busca de alimentação fácil.

Ciente desse problema, que de novo não tem nada, os canadenses estão cercando com telas de arame parte dos trilhos perto da cidade de Lake Louise, para impedir a aproximação de animais. Se der certo, a iniciativa deverá ser expandida para o resto da linha. A estrada que corta o parque nacional também é toda cercada e isso também parece dar certo. Rodando por ela, não se vêem animais atropelados ou às margens do asfalto, como se vê no trecho sem cerca.

Mas os obstáculos que impedem os animais de entrar em contato com os capôs dos carros também causa uma nova ordem de problemas ambientais: ela segrega as espécies em grupos, impedindo o cruzamento entre eles e, conseqüentemente, limitando a dispersão de genes. Se os animais não cruzam a estrada, sua bagagem genética também não.

Essa invasão de ambientes naturais por estruturas humanas é um problema mundial, que vem sendo enfrentado de maneiras diferentes, inclusive no Brasil. A diferença é que o Canadá vem fazendo pelos seus animais o que a maioria dos governos brasileiros não faz sequer pelos seus cidadãos.

Solução canadense

A solução canadense, em um primeiro momento, é curiosa. Dirigindo pela estrada de quatro pistas que liga Calgary a Banff, passando por dentro do Parque Nacional, o viajante cruza por baixo duas passarelas que talvez passassem desapercebidas se não fossem verdadeiros trechos de floresta por sobre o asfalto. São passarelas completamente cercadas e arborizadas, que têm como única função fazer justamente o que as cercas foram criadas para impedir: o deslocamento de animais de um lado da estrada para o outro.

A mesma função tem sido conferida aos rios e riachos que cruzam, por baixo, a estrada. Cercados por todos os lados, eles permitem que os animais cruzem a rodovia sem ter acesso às pistas.

A novidade, que chama a atenção — quase sempre que passei pelas passarelas durante as últimas férias havia alguém parado no acostamento, tirando fotos —, ainda está em fase experimental em um projeto apelidado Y2Y, que pretende construir um imenso corredor ecológico para o deslocamento de espécies ligando o Yellowstone, nos Estados Unidos, até o Yukon, no noroeste canadense, segundo uma reportagem publicada no New York Times do último dia 23 de maio (Home on The Range: A Corridor for Wildlife, de Cornelia Dean).

Os resultados, segundo a reportagem, já começaram a aparecer. Os animais realmente estão utilizando as passarelas. A prova disso são as pegadas que os pesquisadores responsáveis pelo projeto encontram sobre trechos de terra fofa estrategicamente espalhados sobre elas e as fotos colhidas em câmeras com sensores infravermelho. Dezenas de milhares de “atravessadas” já foram contabilizadas. O objetivo agora é colocar pequenos pedaços de arame farpado sobre as passarelas para conseguir amostras de pêlo dos animais. Com isso, os pesquisadores poderão identificar se as pegadas encontradas são sempre dos mesmos animais, que utilizam as passarelas várias vezes ou se são de diferentes animais, diz a matéria.

Os pesquisadores também estão estudando qual a melhor forma de construir essas passagens, de maneira a torná-las as mais convidativas possíveis para as diferentes espécies de animais, já que cada espécie tem a sua preferência quanto à largura e forma dos caminhos que utiliza. “Hoje, vistas do bosque, elas se parecem com uma pequena encosta qualquer, coberta com grama e arbustos”, diz a reportagem. “Barrancos de terra nas laterais da passarelas ajudam a esconder a estrada e a abafar o barulho de dezenas de milhares de veículos que passam sobre elas no verão e no inverno”.

O projeto, que começou na década de 1990, com o apoio da Kendall Foundation, uma fundação destinada a financiar projetos ambientais. Seu objetivo é criar uma área verde ininterrupta com cerca de 465,000 milhas quadradas (cerca de 120 milhões de hectares), entre terras públicas e particulares, ao redor ou por dentro de cidades. Hoje, o projeto tem um orçamento anual de US$ 2 milhões e financia estudantes e pesquisadores em seus próprios trabalhos.

Segundo o New York Times, uma exibição sobre o projeto começará no próximo dia 15 de julho no Museu de História Natural de Nova Iorque, onde ficará até janeiro do ano que vem.