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Um macho subadulto de onça-pintada aparelhado com rádio-colar, na estrada do Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, em abril de 1991.

Um macho subadulto de onça-pintada aparelhado com rádio-colar, na estrada do Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, em abril de 1991.

O projeto “Carnívoros de Iguaçu” teve início em abril de 1990, como tema da minha dissertação de doutorado, pela Universidade da Florida, nos EUA. O estudo foi financiado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, pelo World Wildlife Fund - US, pela Helisul Taxi Aéreo Ltda., pelo "Scott Neotropical Fund" do Lincoln Park Zoo e pela Ilha do Sol Turismo.  O objetivo do estudo era comparar a ecologia de dois felinos de hábitos similares, mas de tamanhos diferentes, a jaguatirica e a onça-pintada.  Em 1991, o projeto foi estendido para o parque nacional argentino, em um programa colaborativo com a bióloga residente, Silvana Montanelli, tendo ela utilizado os dados ali coletados para o seu doutorado pela Universidade de Buenos Aires.

Até dezembro de 1994, foram capturadas 21 jaguatiricas e 7 onças-pintadas, que foram aparelhadas com rádio-colares e monitoradas através da rádio-telemetria. Além desses animais, outros 21 carnívoros foram também capturados, incluindo: 6 quatis, 7 cachorros-do-mato, 2 jaguarundis, 1 gato-maracajá, 1 puma, 2 iraras, e 1 gato-do-mato-pequeno. A maior parte deles foi também aparelhada com rádio-transmissores.  Além das informações pioneiras sobre a ecologia e conservação dessas espécies em ambiente de Mata Atlântica, o projeto foi importante também pelo número de estudantes e profissionais que foram treinados em metodologias sofisticadas à época, como a rádio-telemetria e armadilhas-fotográficas, então ainda no início, no Brasil.

A agrônoma Sandra Cavalcanti acompanha a recuperação de uma jaguatirica, após a colocação de um rádio-transmissor e biometria, na estrada do Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, em 1991.

A agrônoma Sandra Cavalcanti acompanha a recuperação de uma jaguatirica, após a colocação de um rádio-transmissor e biometria, na estrada do Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, em 1991.

Entre 1992 e 1994, foi também desenvolvido um programa amplo de Educação Ambiental, sob a coordenação da ecóloga Lucila Manzatti, tendo sido um dos primeiros projetos financiados pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.  Nesse programa (também aplicado no parque argentino), foram realizadas atividades em escolas de municípios vizinhos ao parque e palestras para capacitação de professores de primeiro e segundo grau das redes municipais de ensino na região.   O projeto foi também fundamental para a criação do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação dos Predadores Naturais – CENAP/IBAMA, em 1994. O parque foi sede temporária do Centro até 1996, quando foi transferida para a Floresta Nacional de Ipanema, em Iperó, SP (hoje o CENAP é um centro especializado do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade-ICMBIO, com sede em Atibaia, SP).

Já naquela época, os resultados dos estudos com os carnívoros mostraram  a necessidade urgente de um melhor controle da caça clandestina no interior do parque, cujos efeitos se faziam sentir principalmente nas espécies maiores de mamíferos, como a onça-pintada e sua principal presa, o queixada, cujas populações estavam diminuindo sensivelmente.

Com a conclusão do meu doutorado, em dezembro de 1995, e a oportunidade de transferir a sede do Cenap para a Flona de Ipanema, em fevereiro de 1996, eu convidei um casal de biólogos argentinos, Daniel Scognamillo e Ines Maxit, para assumir as atividades do projeto em Iguaçu. Daniel e Inês haviam primeiro estagiado comigo em janeiro de 1994, quando estavam em lua-de-mel, logo depois de haverem se casado. Nessa ocasião, passaram pouco mais de 15 dias, mas me deixaram entusiasmado com sua competência e disposição. Após esse estágio, eles trabalharam em um projeto com predação de pumas em ovelhas em Chamical, Argentina, e continuamos mantendo estreito contato.

Com a facilidade de relacionamento que eles haviam estabelecido com o pessoal dos parques brasileiro e argentino, eu considerei a vinda deles para trabalhar no projeto ideal para estreitar as relações entre o pessoal técnico e administrativo dos dois parques. Minha esperança era chegar a um manejo conjunto binacional, considerando as necessidades similares de conservação da fauna local.  Durante o período em que lá estiveram, eles estabeleceram, juntamente com Wanderlei de Moraes, veterinário da Itaipu Binacional que muito ajudou o projeto em todas as suas fases, um programa de monitoramento da população de quatis junto às cataratas.  Esse programa visava avaliar o impacto dos turistas na dieta e comportamento desses animais, alguns deles verdadeiros “trombadinhas”, que chegavam a tomar bolsas e sacolas de turistas, na procura por guloseimas.

Macho adulto de onça-pintada monitorado por telemetria durante 10 meses no Parque Nacional do Iguaçu, entre 1993 e 1994. Esse animal foi re-capturado pelo projeto um total de 9 vezes, antes de seu sinal desaparecer (tendo provavelmente sido morto por caçadores)

Macho adulto de onça-pintada monitorado por telemetria durante 10 meses no Parque Nacional do Iguaçu, entre 1993 e 1994. Esse animal foi re-capturado pelo projeto um total de 9 vezes, antes de seu sinal desaparecer (tendo provavelmente sido morto por caçadores)

O projeto já havia anteriormente produzido um folder, alertando os turistas para os problemas e riscos desse contato próximo demais.  Daniel e Inês continuaram também monitorando os animais aparelhados com rádio-colares, no parque brasileiro e em conjunto com os técnicos do parque argentino. Ao final de 1996, eles foram convidados para assumir um estudo de onças pardas e pintadas em uma fazenda nos llanos da Venezuela. Uma vez que o convite estava vinculado a um programa de mestrado, para os dois, pela Universidade da Florida, a proposta era irrecusável. (Os dois atualmente dão aulas em uma universidade do Texas).

Com a saída dos dois, eu convidei o biólogo Fernando Azevedo e a médica-veterinária Valéria Conforti para assumir a responsabilidade do projeto.  Eles ali ficaram entre os anos de 1997 e 2001. Durante este período, as atividades do projeto se concentraram no registro e acompanhamento dos casos de predação de gado e outros animais domésticos nas propriedades do entorno do Parque Nacional do Iguaçu, por onças provenientes do Parque.

O problema da predação, já relatado para a região na primeira fase do projeto, foi amplamente estudado neste período. De uma forma geral, foi constatado que as onças do Parque estavam aparentemente reagindo a uma realidade local: com a pressão da caça imposta pelos moradores do entorno do Parque sobre os animais silvestres que serviam como fonte de alimentação para as onças, estas passaram a procurar comida fora do Parque, nos animais domésticos introduzidos pelo homem.  As conclusões da minha dissertação, em agosto de 1995, já haviam deixado clara a importância dos queixadas na alimentação das onças-pintadas. Com o desaparecimento dessa espécie e uma diminuição sensível nas populações de outras presas, o projeto registrou um aumento no número de casos de predação de animais domésticos por onças fora do Parque.

Onça pintada fotografada com armadilha fotográfica, na nova fase do projeto, em 2009.

Onça pintada fotografada com armadilha fotográfica, na nova fase do projeto, em 2009.

Este período também foi marcante pelo baixo número de onças capturadas e acompanhadas pelo projeto, apesar do grande esforço empregado nas tentativas de captura de onças.  Como também na primeira fase do estudo, a maioria das onças capturadas foi morta ou por caçadores dentro ou por fazendeiros no entorno do Parque, durante o seu monitoramento.

"As onças do Parque estavam aparentemente reagindo a uma realidade local: com a pressão da caça imposta pelos moradores do entorno do Parque sobre os animais silvestres que serviam como fonte de alimentação para as onças, estas passaram a procurar comida fora do Parque"

Vários relatos de outras onças não aparelhadas com rádio-colares mortas no entorno do Parque também foram registrados. Por outro lado, concomitantemente à piora na situação das onças, durante esse período a administração implementou muitas mudanças, dentro e no entorno do Parque, trazendo uma melhora sensível na infra-estrutura disponível e nos serviços prestados aos milhares de turistas que visitam anualmente o Parque.

Infelizmente, o grande investimento feito à época não contemplou adequadamente as atividades de pesquisa e, principalmente, de fiscalização e controle das atividades ilícitas de caçadores, palmiteiros, e proprietários vizinhos ao parque. Como decorrência, os queixadas foram extintos e a população de onças-pintadas quase seguiu o mesmo destino. Como indicativo da ausência das pintadas, por vários anos, só se ouviam relatos de ocorrência de onças-pardas, que passaram a ocupar o espaço vagado pela espécie dominante.

Agora, depois de quase 13 anos, uma nova fase do Projeto Carnívoros do Iguaçu está iniciando no Parque Nacional do Iguaçu, mas agora com características um pouco diferentes das do projeto original iniciado em 1990.

A primeira diferença está na fonte dos recursos financeiros, de origem fundamentalmente privada, surgido através da iniciativa inédita de incluir o projeto entre as cláusulas de obrigações contratuais para concessão de uso do Hotel das Cataratas, localizado no interior do Parque Nacional, em frente às Cataratas.

Sendo um patrimônio da União, o uso privado das instalações do hotel está vinculado a um processo licitatório, que foi realizado em âmbito internacional. Segundo o edital de licitação apresentado, a empresa vencedora se obrigaria a garantir o repasse de fundos para a contratação de profissionais e aquisição de material e equipamentos por um prazo estimado de 10 anos, destinados à retomada das ações de pesquisa e conservação pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu. Como resultado, o novo projeto vem sendo financiado, há cerca de um ano, pelo grupo Orient-Express Hotels Brasil S/A, através do Instituto Pró-Carnívoros, com contrapartidas financeiras, técnicas e logísticas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e seu Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação dos Predadores Naturais (CENAP).

Dois machos subadultos de onça-pintada, muito provavelmente irmãos, muito à vontade junto às instalações do antigo canil na base do projeto, em foto tirada na semana passada (foto Apolônio Rodrigues)

Dois machos subadultos de onça-pintada, muito provavelmente irmãos, muito à vontade junto às instalações do antigo canil na base do projeto, em foto tirada na semana passada (foto Apolônio Rodrigues)

A segunda diferença está em seu objetivo básico:

Apesar do nome, em uma justa alusão ao projeto original, o “Carnívoros do Iguaçu” atual não pretende abordar, como o anterior, as diferentes espécies de carnívoros presentes na região do parque, mas direcionar seus esforços para o monitoramento, pesquisa e conservação das onças-pintadas (Panthera onca) que ainda “teimam” em existir por lá.

Essa “preferência” deve-se, não apenas à situação muito mais crítica de conservação dessa espécie em relação aos demais carnívoros, de maneira geral, mas também à sua aptidão como espécie guarda-chuva, ou seja, aquela cuja conservação em seu ambiente natural implica ou resulta na conservação direta ou indireta de todas as demais espécies que compartilham de seu ecossistema. Desta forma, para atingir esses objetivos, serão empregados todos os principais métodos de pesquisa atualmente disponíveis para a geração de informações biológicas e ecológicas relevantes.

"Estimativas da população local de onças-pintadas serão realizadas através da identificação individual (baseado no padrão de pintas) das onças registradas em armadilhas fotográficas. "

Estimativas da população local de onças-pintadas serão realizadas através da identificação individual (baseado no padrão de pintas) das onças registradas em armadilhas fotográficas. Para isso, as armadilhas são posicionadas em pontos rigorosamente determinados, segundo os critérios mais modernos, adaptados a partir de uma metodologia tradicional de estimativa populacional, conhecida como marcação/recaptura. Estas estimativas serão realizadas anualmente com o objetivo de detectar flutuações populacionais e deverão serão feitas em duas etapas, contemplando as áreas de maior e menor impacto humano no Parque Nacional.  A primeira etapa já foi realizada em sua porção oeste e a segunda encontra-se em fase de implantação na região nordeste do parque, na área definida como “zona intangível” pelo Plano de Manejo da Unidade, tendo iniciado em janeiro de 2010.

Adicionalmente, serão realizadas estimativas da abundância das presas das onças e do impacto das atividades de caça no interior do parque, avaliando os fatores que afetam suas populações e a elaboração e aplicação de medidas efetivas para o seu controle.

Após o monitoramento populacional, será realizado um monitoramento da espécie por telemetria, quando alguns indivíduos serão capturados para a colocação de colares com equipamentos de localização através de sistemas de rádio (VHF) e GPS. Além de ampliar o conhecimento biológico sobre a espécie, este monitoramento terá o objetivo de identificar, nos animais marcados, eventuais fatores de predisposição ao declínio populacional da espécie, como a incidência de doenças, a dificuldade de obtenção de presas naturais e a predação de animais domésticos fora dos limites do parque.

 Sobre este último aspecto, ações específicas serão realizadas com os proprietários e as comunidades rurais ao longo de todo o entorno do Parque Nacional. Isso inclui o cadastramento das propriedades com suas atividades econômicas principais, um levantamento das ocorrências de predação de rebanhos domésticos e uma avaliação da percepção dessas pessoas em relação às onças e ao próprio parque, e sua diversidade biológica.

Um ponto determinante para o controle desses conflitos será o diagnóstico das causas de ataque ao gado e a implantação de ações viáveis para a redução de seus impactos negativos, tanto para as onças, quanto para a própria atividade econômica afetada. Aliado a um amplo programa de educação ambiental, serão propostas e avaliadas diferentes estratégias para o controle dos ataques, como: simples adequações de manejo dos rebanhos e instalações, a construção de abrigos e dispositivos de exclusão dos predadores, o uso de cães-pastores e outras medidas repelentes, entre outras.

Foto da mata contínua do parque, com propriedades vizinhas, e com as cataratas aparecendo ao fundo.

Foto da mata contínua do parque, com propriedades vizinhas, e com as cataratas aparecendo ao fundo.

A terceira e mais importante diferença, no entanto, é a situação aparente da população da espécie na região:

Já na década de 90, foi registrada uma expressiva redução no número de onças, por conta da caça às suas presas e do abate direto de animais nas propriedades vizinhas, resultante do conflito causado pela predação de rebanhos e outros animais domésticos. Ainda assim, a presença da espécie era freqüentemente reportada, inclusive na região da sede do parque, onde pegadas, fezes, vocalizações e mesmo os avistamentos ocorriam com frequência.

De lá pra cá, entretanto, a situação aparentemente piorou bastante! Avistamentos ou indícios da presença de onças são, atualmente, raros no parque. Mesmo os relatos de predação de rebanhos em seu entorno são dificilmente registrados ultimamente, sugerindo uma redução significativa no população remanescente.

Estudos populacionais recentes nas áreas florestais argentinas contíguas ao Parque Nacional do Iguaçu e ao longo do Corredor do Alto Paraná apontam um estoque populacional bem inferior ao necessário para a manutenção de uma população viável em médio e longo prazo na região. Isso aciona um alerta urgente : a maior população de onças-pintadas do sul do continente está altamente ameaçada e somente ações enérgicas de conservação poderão garantir sua sobrevivência. Estas ações dependerão de dados consistentes sobre a situação de cada uma das suas várias sub-populações, inclusive na Argentina e Paraguai, e da integração de medidas localizadas de proteção.

É responsabilidade das autoridades administrativas a resolução dos conflitos locais, inerentes à interface entre a natureza e os ambientes modificados pelo homem. No entanto, apenas através da integração da pesquisa aplicada, da implementação das recomendações de manejo, derivadas dessas pesquisas, do envolvimento das entidades não-governamentais, e da participação das comunidades locais, por meio de programas ambientais educacionais, a onça pintada terá chance de sobreviver.

* com Ronaldo Morato, Daniel Scognamillo, Fernando Azevedo, Alexandre Vogliotti, Marina Xavier, e Priscila Cavalcanti