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Os pets estendem a pegada ambiental dos humanos. Foto: Alexis/CC

Os pets estendem a pegada ambiental dos humanos. Foto: Alexis/CC

A recente informação apurada pelo IBGE da existência no Brasil de mais de 52 milhões de cães e de 22 milhões de gatos é interessante. Mais interessante ainda é observar a tranquilidade com que a sociedade parece tê-la recebido, como se fosse um fato normal e até motivo de orgulho, pois neste aspecto o país ficaria apenas atrás dos EUA. Na verdade, saber que a população de cães e gatos é maior que a soma de todos os rebanhos de animais do Brasil, atrás apenas dos bovinos, deveria chamar a atenção, pois pelo menos é sintoma de uma distorção.

O rebanho bovino do Brasil, o segundo maior do mundo, é de cerca de 210 milhões de cabeças, seguido pelos cães (52,3 milhões), porcos (38 milhões), gatos (22,1 milhões), ovelhas (17 milhões), cabras (9 milhões), cavalos (6 milhões) e búfalos (1,2 milhões), sem mencionar aves e coelhos. Na China e em outros países orientais, onde cães e gatos formam parte da alimentação humana, uma lista nessa ordem seria normal. Mas no Brasil cachorros e gatos nem por costume nem por lei opções são opções de comida.

Um olhar ecológico

"No Brasil há mais cachorros e gatos que porcos, ovelhas, cabras, cavalos e búfalos juntos, mas, eles não providenciam carne, leite ou couros."

A relação entre humanos e cachorros e gatos é atávica e um bom exemplo de simbiose mutualista da qual os dois lados tiram proveito. O proveito para os humanos tem sido principalmente na defesa de pessoas e bens, além da caça. Mas sempre existiu também uma relação afetiva. Nos tempos modernos as funções originais perderam preponderância e ao contrário, a relação de afeto aumentou de modo desproporcionado devido à solidão, redução do número de filhos e a outros fatores bem conhecidos da sociedade moderna. No mundo natural a nova relação entre bichos de estimação e humanos não seria caracterizada como simbiose, e sim como comensalismo. Dito de outro modo, os bichos de estimação obtêm benefícios sem dar em troca nada tangível. O que dão, na verdade, é o que os humanos acham que recebem. O comensalismo não é parasitismo que implica um dano ao hospedeiro. Nas sociedades animais o comensalismo existe, por exemplo, entre os cupins que acolhem, alimentam e cuidam de insetos que produzem perfumes alocados aos operários e soldados, que por cheirá-los descumprem suas obrigações. Nessas sociedades, o comensalismo é um indicador de decadência.

Este autor teve cachorros e gatos e, como a maior parte dos humanos, gosta deles e cai facilmente na armadilha que esses bichos aprenderam para se dar bem nas nossas costas, após milênios de relação intima. Outros bichos domésticos que se deram bem, como ratos e baratas, usaram estratégias muito diferentes, certamente não tão simpáticas. Mas, o fato é que a enorme população de cachorros e gatos no Brasil merece considerações ambientais e sociais.

Como outros animais e os próprios humanos, a existência de 74 milhões de cães e gatos implica uma biomassa animal enorme que agrava o problema do aquecimento global. A FAO estima que a pecuária é responsável por 14 a 22% das emissões mundiais anuais de gases de efeito estufa e tem sido dito mais de uma vez que criar animais como alimento humano é um dos dois ou três contribuintes principais aos problemas ambientais mundiais, tanto em escala local como global. Em compensação, esses animais aportam benefícios tangíveis à sociedade e à economia. Pelo contrário, cachorros e gatos não produzem carne, leite, couros ou manteiga e nem se deixam montar como os cavalos ou mulas. Estes animais não produzem qualquer coisa que contribua para aumentar o PIB ou as exportações.

"Os gatos são os maiores predadores de aves silvestres em parques e jardins, responsáveis por verdadeiros debacles populacionais entre as aves."

Alguns estudos têm avaliado a pegada ecológica dos bichos de estimação. Lembrando que cachorros e gatos são essencialmente carnívoros, o impacto da produção do que eles comem e usam é um fator significativo do aquecimento global. Um popular trabalho neozelandês revelou que criar um cachorro de tamanho médio usando rações de marcas conhecidas tem uma pegada ecológica de 0,84 hectare por ano para produzir o que necessita em termos de carne e cereais. Isso seria equivalente à pegada ecológica de construir uma camionete rural e percorrer 10.000 km com ela. Os gatos, segundo o estudo, requerem 0,15 hectare por ano. As cifras parecem excessivas, mas existem boas razões para pensar que os 52 milhões de cachorros do país impactam o ambiente tanto ou mais que todos os porcos, ovelhas e cabras que nele existem.

Entretanto, cachorros e gatos ocasionam outros impactos ambientais. Os cachorros soltos e famintos são um sério problema para a fauna silvestre em Unidades de Conservação, em especial as que estão perto de áreas urbanas, como o Parque Nacional de Brasília, onde caçam em matilhas como os lobos, com grande eficiência. Nesse parque, como em outros, tem sido demonstrado que os cachorros transmitem enfermidades à fauna silvestre. Os gatos são os maiores predadores de aves silvestres em parques e jardins, responsáveis por verdadeiros debacles populacionais entre as aves. Os prejuízos ocasionados pelos cachorros soltos nas ruas das cidades não necessita ser lembrado. Eles espalham o lixo, sujam as ruas, provocam graves acidentes de trânsito e eventualmente mordem transeuntes. E os gatos caçam por esporte, não por fome, assim alimentá-los bem não resolve o problema. Seria interessante fazer um estudo detalhado do impacto ambiental e da pegada ecológica de cães e gatos no Brasil e, por exemplo, comparar os resultados com os da pecuária.

A economia dos bichos de estimação

"O Brasil, um país em processo de desenvolvimento, tem mais bichos de estimação e gasta mais neles que todos os países ricos, exceto os Estados Unidos."

Deve-se reconhecer que a porção de cachorros e gatos que estão bem cuidados pelos seus donos geram benefícios econômicos, movimentando uma importante e crescente indústria de produtos e serviços correlatos. Ao que parece, os donos brasileiros gastam em média 3.770 por ano com um cachorros grande e 1.600 reais por ano no caso de um pequeno. O gasto anual médio por gato seria de 1.010 reais. Mas existem estimativas bem mais elevadas. Em 2013, as indústrias de Pet Food, Pet Care, Pet Vet e Pet Serv teriam faturado mais de 15,3 bilhões de reais.  O mercado mundial mobiliza uns 30 bilhões de dólares por ano e é liderado pelos EUA. Em segundo lugar figura o Brasil e, em ordem, seguem Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Itália, Rússia, Austrália e Canadá.  Observe-se que nessa lista apenas o Brasil não é um país rico. O caso do Brasil revela outra face de um comportamento social distorcido que, obviamente, não se limita aos animais de estimação, pois é um país onde a pobreza ainda domina extensas regiões e é onipresente em todas as cidades.

Nas listas dos dez países com o maior número de cães figuram quatro países não desenvolvidos: Brasil, México, Índia e África do Sul. O Brasil sozinho tem mais cachorros que todos os outros três países juntos e é também o que tem mais cachorros pequenos per capita no mundo. A China não está incluída, porque lá os cachorros são comida para ampla parte da população. Estima-se que de 10 a 20 milhões de cachorros serão mortos em 2015 para consumo humano naquele país.

Os que têm renda suficiente para manter os bichos se dividem em dois grupos. Um grupo é formado pelos que cuidam bem, ou que exageram até os bem conhecidos extremos patéticos. O segundo grupo, tão considerável como o anterior, é formado pelos que gastam na manutenção de cachorros, mas os maltratam cruelmente, em especial mantendo-os quase que permanentemente enjaulados como se fossem selvagens. Aqueles de renda mais baixa também têm animais de estimação. Embora gastem pouco, ás vezes têm muitos mais animais do que os ricos e, em geral, os mantêm na rua.

Grande parte da sociedade moderna transforma os bichos de estimação em membros plenos das famílias, com acesso aos mesmos direitos à alimentação, saúde, estética, alojamento e outros cuidados.  A ética deste comportamento é sem dúvida discutível, especialmente em países com grandes segmentos da sua população que não têm acesso aos mesmos cuidados. Mas, de outra parte, o mesmo raciocínio é válido para outras expressões de luxo das classes desses países. E, como frequentemente apontado, cães e gatos se converteram em importantes elementos terapêuticos ou antidepressivos para idosos e outros solitários, ademais de educativos companheiros de jogo para os meninos. O amor não tem regras, nem precisa de justificativas. Simplesmente existe.

O que fazer?

"É necessário adaptar uma política que vise a redução da população de cachorros e gatos. Em países desenvolvidos os cachorros e gatos urbanos e não indispensáveis são considerados um luxo e pagam um imposto."

Em conclusão: sob quaisquer critérios há demasiados cachorros e gatos no Brasil e boa parte deles não são adequadamente cuidados ou são martirizados; dois, a mera existência e a manutenção desses animais -- que consomem mas não produzem -- tem um impacto ambiental significativo, em especial na emissão de gases de efeito estufa e; três, sua manutenção em condições muito melhores que a que conseguem largos segmentos da população humana gera questões éticas. De outro lado: cachorros e gatos são parte das necessidades afetivas humanas e contribuem para manter a saúde mental da sociedade, e contribuem ao emprego e à economiado país através da demanda que geram por alimentos, insumos e serviços para sua criação.

Dentre as opções para equacionar esses fatos pode-se sugerir, em primeiro lugar, definir uma politica nacional de diminuição do número desses animais em paralelo a procura de melhorias substantivas das condições de sua manutenção. Por exemplo, as prefeituras deveriam ser muito mais sérias em temas como a eliminação incruenta e a castração de cães e gatos de rua, ou na obrigação desses animais carregarem um registro que demonstre, por exemplo, seu registro de vacinação. 

Tal política deveria incluir uma campanha que explique para a população as consequências ambientais da proliferação desses animais e as responsabilidades que assumem os que têm bichos de estimação.

A posse de bichos de estimação urbanos é, sob qualquer parâmetro, um luxo que gera custos elevados para o resto da sociedade. Consequentemente, como nos países desenvolvidos, esses animais deveriam estar submetidos a um imposto (caso da Alemanha) equivalente ao que se paga por artigos luxuosos. Esta medida poderia ser um desincentivo para a posse de números grandes e injustificáveis de animais por família. 

Enfim trata-se apenas de apelar para a reponsabilidade dos cidadãos pelos companheiros históricos da viagem da humanidade... E, quiçá, evitar o já popular cenário de ficção científica em que, num futuro que ninguém deseja, poderia haver milhares de cães raivosos perseguindo humanos pelas ruas, enquanto outros tantos gatos furiosos os esperam para arrematá-los nas suas residências. 

 

 

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