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Uma das lições que a Índia contemporânea oferece ao olhar do cientista social, lembrando o título de um dos livros de Samuel Huntington (Culture Matters), mesmo sem comprar sua tese do “choque das civilizações”, é a de que a cultura realmente importa. A densidade cultural da Índia, especialmente a forte presença de suas milenares tradições de religião e espiritualidade, é fundamental para entender alguns padrões de comportamento e de coesão social que se revelam quase enigmáticos. Por exemplo, como explicar que em suas enormes e caóticas cidades, com uma percentagem impressionante das mais diversas precariedades – incluindo favelização, analfabetismo, desemprego, doenças e miséria econômica – as taxas de criminalidade sejam relativamente baixas? Nas maiores cidades do Brasil, por exemplo, podemos observar taxas de 25 a 40 assassinatos por 100 mil habitantes, quando no pior caso da Índia, Nova Delhi, ela se situa em torno de 4 assassinatos. Existe um certo consenso entre os sociólogos de que a fortíssima presença da religião e dos laços de família na vida indiana, especialmente a dominância da visão hinduísta de que cada um colhe aquilo que planta através do karma das sucessivas encarnações, é um fator essencial na compreensão deste fenômeno. Para não apresentar uma visão simplista e idílica, porém, cabe lembrar que as mesmas tradições culturais, pelo menos em suas interpretações mais sectárias, são também essenciais para entender fatores perversos como a violência e opressão contra os dalits (sem-casta) e as mulheres.

Uma pergunta interessante, que alguns analistas já se fizeram, é sobre as conseqüências ambientais do mosaico cultural indiano. Pode-se dizer que, em geral, elas são consideradas positivas. Lembro que José Lutzenberger sempre mencionava o fato da religião e da cultura poderem servir como fontes de “feedback negativo” diante das atitudes destrutivas para com o mundo natural. A visão de uma natureza cheia de encantos e de sacralidade, que justificavam a existência de tabus e interdições à ação modificadora do homem, esteve presente em inúmeras culturas tradicionais. A modernidade ocidental, no entanto, como bem analisou Max Weber, tem como um dos seus eixos centrais o “desencantamento do mundo”, a imagem de uma natureza totalmente objetiva e passível de manipulação. A cultura secularizada do mercado global, por outro lado, serve de fato como um “feedback positivo” para a destruição, na medida em que incentiva o consumismo, o individualismo, o imediatismo e a lógica do descartável.

A Índia atual, neste sentido, vive em um ambíguo e complexo estado de disputa entre a força das tradições e as exigências da modernização capitalista. Em seu livro Os Navegantes e o Sonho: Presença do Oriente na História do Brasil, já comentado na coluna anterior, Victor Leonardi chamou atenção para o fato de um país com mais de 1 bilhão de habitantes, em um território de 3,2 milhões de km2 (menos da metade do Brasil), com cinco mil anos de vida urbana, ainda possuir “tigres em quantidade, elefantes em estado selvagem, leões, leopardos e rinocerontes”. Mais ainda, “a poucos quilômetros de uma cidade como Calcutá...há tigres em absoluta liberdade, em estado selvagem”. Ou então, “nas árvores do centro de Nova Delhi...há papagaios soltos em grande quantidade”. Em diversos lugares, diz o autor, “vi macacos soltos, em bandos numerosos, correndo livres pelos muros e telhados”. No contexto de uma sociedade hoje tão marcada pela subnutrição, o analfabetismo e o pauperismo, é forçoso lançar mão de antigos fatores civilizacionais e culturais para entender essa convivência relativamente tolerante com a vida selvagem.

Tolerância com a vida selvagem

De fato, a investigação histórico-ambiental contemporânea vem procurando sugerir explicações para tal fenômeno. Um passo importante nesta direção é o de superar a unificação de variadas experiências nacionais em uma geléia geral chamada “Oriente”. O caso da China, por exemplo, foi bastante diferente. Um excelente livro de Mark Elvin, lançado em 2004, se chama justamente The Retreat of the Elephants: an Environmental History of China. O trabalho mostra como o avanço da fronteira agrícola, pelo menos desde a dinastia Han (séculos III aC-III dC), expulsou aqueles grandes animais para as partes mais distantes da fronteira com a Índia. Vários outros componentes da fauna, como os tigres, vieram sendo exterminados da China ao longo deste processo, inclusive de maneira radical e consciente nos períodos mais recentes, como relata o espantoso livro Mao’s War Against Nature de Judith Shapiro. Entre as causas complexas da sobrevivência dos elefantes na Índia, ao longo dos séculos, os historiadores mencionam o seu forte uso militar, que ocorreu em muito menor escala na China, gerador de incentivos para a manutenção das populações selvagens em paralelo com as domesticadas. E também o sistema de reservas estabelecido, por diferentes motivos, por aristocratas locais (reservas de caça), pelo sistema colonial inglês e pela república independente pós-1947. De toda forma, a relação de respeito e relativa tolerância dos camponeses indianos para com os animais selvagens, apesar das enormes dificuldades práticas que isso significa, é apontada por vários autores.

É bastante óbvio, contudo, que não se pode falar da Índia atual com base apenas nas suas tradições históricas. É muito diferente pensar um continente indiano com cerca de 140 milhões de pessoas, como nos séculos XV e XVI, quando os europeus por lá chegaram, e a realidade pós-colonial que hoje se observa, profundamente caótica e desequilibrada, representada por uma população de mais de 1,1 bilhão de pessoas onde a taxa de analfabetismo é de 40% (11% no Brasil), a esperança de vida não passa de 64 anos (71 no Brasil), a mortalidade infantil é de 62 por mil (32 no Brasil) e o déficit habitacional urbano pode chegar a 37%.

É chocante observar como muitos analistas econômicos internacionais, ignorando solenemente os gigantescos dilemas e riscos estruturais que a realidade concreta apresenta - seja nos aspectos geoeconômicos, ambientais ou sociais - incensam a Índia de hoje como um exemplo de desenvolvimento. A obsessão por indicadores isolados, como a taxa de crescimento econômico, e mais que tudo o interesse imediatista pelas oportunidades de negócios e lucros que os períodos de expansão sempre propiciam, especialmente em uma sociedade tão grande e tradicionalmente carente de infra-estrutura e bens de consumo, ajudam a eclipsar o impressionante drama de insustentabilidade que já está presente e tende a se agravar no futuro próximo.

Para começo de conversa, a Índia e a China simplesmente não podem replicar o modelo ocidental de desenvolvimento, baseado na radical urbanização da população (em níveis de 85-95%). Não é por acaso que as populações rurais dos dois países permanecem altíssimas (70% na Índia e 65% na China). As projeções para o futuro próximo não mudam muito este quadro, exceto por uma certa redução da população rural da China, para algo em torno de 50%. Os governantes locais sabem que uma reviravolta neste padrão geraria crises sociais, econômicas e ecológicas de dimensão imprevisível. Na ordem autoritária chinesa, inclusive, é simplesmente proibido migrar para as cidades sem autorização estatal. Assim como é proibido que cada família tenha mais de um filho. Medidas ditatoriais de sobrevivência que, além de seus muitos problemas concretos de aplicação, não poderiam ser adotadas no contexto da democracia indiana. Na verdade, por incrível que pareça, a elite política da Índia costuma manifestar seu orgulho pelo crescimento demográfico desequilibrado e insustentável do país....

O fato da esmagadora maioria da população viver no contexto das aldeias camponesas, com seu baixo padrão de consumo material, associado às tradições culturais acima mencionadas, serve para abrandar, ao menos por enquanto, o potencial impacto ambiental planetário da sociedade indiana. A própria China, neste particular, tem sido proporcionalmente mais aberta ao modo de vida urbano-industrial. As emissões de dióxido de carbono por habitante na Índia, por exemplo, são de 1,2 toneladas métricas, contra 3, 2 toneladas na China e 21 toneladas nos Estados Unidos! Por quanto tempo mais, no entanto, indicadores deste tipo continuarão vigentes, na medida em que a cultura ocidental e os padrões de consumo urbano-industriais penetram no país ? O projeto do Mahatma Gandhi, de promover uma melhoria crescente dos padrões de vida da população a partir do desenvolvimento endógeno centrado no nível local, no universo das aldeias, já foi totalmente esquecido em favor de uma modernização desigual e empírica que, apesar de gerar grandes lucros para setores minoritários, não consegue enfrentar os enormes dilemas que se colocam para o conjunto da população. O mundialmente famoso e festejado setor da informática, por exemplo, emprega apenas 1 milhão de pessoas, “uma gota no Oceano Índico” (usando uma imagem de Martin Wolf). O atual modelo indiano, de fato, está criando um monstro com uma pequena cabeça de altíssima qualificação e uma gigantesca massa disforme que se debate com os problemas mais básicos da existência. Será este um exemplo para o mundo?

Tudo fica ainda mais grave se avaliamos a situação do ponto de vista ambiental. A equação população / território é desastrosa, como já vimos. Apesar da maior parte do espaço indiano ser tropical, com boa biodiversidade e oferta de terras cultiváveis, cerca de 50% do território (contra 10% na China), é preciso considerar o desgaste milenar dos solos, agravado com o descontrole demográfico moderno (fonte de erosão e desflorestamento). O fator água, neste sentido, é crucial. A Índia detém cerca de 5% das reservas de água doce do planeta para uma fatia de 17% da população humana (em contraste com o Brasil, que possui 20% das reservas para cerca de 3% da população mundial). A região formada pelos estados do Haryana, Punjab, Rajasthan e Gujarat, por exemplo, que é considerada o celeiro da Índia, está tecnicamente situada no semi-árido! A pergunta é clara: como satisfazer as necessidades básicas, ou mais ainda proporcionar condições decentes de vida, para uma população tão gigantesca em um território ecologicamente limitado e degradado ? Qual será a base material e energética disponível para incluir grandes setores da população nos padrões de consumo do modelo capitalista ocidental ? Um modelo, como costuma dizer Leonardo Boff, onde apenas os desejos são realmente socializados e democratizados...

Quais serão os resultados, dentro deste contexto sócio-ecológico, da dissolução dos laços culturais e familiares tradicionais que a própria difusão do modelo ocidental tende a produzir (apesar da força de permanência das antigas culturas) ? Como evitar que uma modernização urbano-industrial rápida, empírica, desigual e pouco planejada, ao menos em termos ecológicos, continue afogando a população indiana em um mar de poluição do ar, dos solos e das águas, através de atividades industriais agressivas e mal fiscalizadas (para mais detalhes ver o sítio) ? Quantos casos ao estilo de Bophal ainda teremos pela frente ?

Questões deste tipo deveriam estar presentes na mente dos analistas econômicos que irresponsavelmente apontam a Índia como exemplo a ser seguido. São questões que certamente afligem todos aqueles que se preocupam com o futuro da humanidade, especialmente os amigos e admiradores daquele povo caloroso e daquela cultura extraordinária.

**Os dados e argumentos contidos neste artigo se beneficiaram enormemente do diálogo pessoal com meu amigo Mahesh Rangarajan, notável historiador e analista ambiental residente em Nova Delhi. Sou grato a ele por me fornecer alguns fios condutores no complexo labirinto da Índia contemporânea.