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Em maio está completando quatro anos que chegamos no Canadá. Ou quatro anos que saímos do Brasil. Muita coisa aconteceu neste período e eu diria que, além do fato de ter mudado de país, cultura, língua, temperatura etc, a maior mudança foi o nascimento do meu filho, o Ian, um pequeno canadense que já começa a falar inglês e português, sem muita distinção entre elas.

Mas se o Ian tivesse nascido no Brasil, eu também viveria estas mudanças, certo? Errado. Estou, sem muito choque cultural e sem perceber as nuances, aprendendo e me adaptando a uma nova cultura quando aprendo a educar meu filho seguindo o que os canadenses acreditam e usufruindo do que o país tem a me oferecer – e tem muita coisa. Gratuita, a maioria delas.

Nosso primeiro destino foi Calgary, uma cidade ‘grande’, de mais de um milhão de habitantes, e a fama de ser uma ótima cidade para se morar. Não é. Situada na primeira porção de pradarias  depois das Rochosas Canadenses, Calgary se espalhou tanto que eh possível andar mais de 50 km entre uma ponta e outra da cidade. Só ida. Fazer mais de 100 km em um dia não é difícil, e isto sem contar o trânsito, sinais, engarrafamentos etc. Viver lá tinha se tornado quase uma tortura, guiada pelos horários definidos de rush. A vantagem? Estar no lugar mais ‘quente’ do Canadá em relação a empregos. Milhares de empregos eram oferecidos diariamente e dinheiro não faltava em Alberta, que é considerada uma das províncias mais ricas do Canadá, por causa de todo o petróleo que existe no norte da província (estes números mudaram muito e uma manchete do Calgary Herald de março diz que “Alberta perdeu 24 mil empregos em Fevereiro. Taxa de desemprego, a 5.4%, é mais alta que Saskatchewan”, a província vizinha, para o leste) .

Outra vantagem é que Calgary recebe o Chinook constantemente, um vento quente que sopra do Pacífico e, se não deixa a temperatura chegar aos trópicos, alivia bastante o gelado e longo inverno canadense. Sair de –20oC para zero em questão de horas é muito bom. Mesmo.

Fora estas poucas vantagens, Calgary é uma cidade feia e começa a demonstrar todos os problemas de quem cresce muito e rápido: violência, falta de cortesia no trânsito e um dos custos mais caros da América do Norte para se estacionar no centro de uma cidade (ganhando um nada honroso terceiro lugar, depois de Nova York e Boston)! Há dois anos, as notícias eram de que 25% das pessoas que não tinham uma casa pra morar, tinham emprego fixo! Muitos moravam em carros, já que não conseguiam lugar para alugar ou não conseguiam pagar os altos preços dos aluguéis e financiamentos para se comprar a casa própria.

Mas isso mudou. A crise chegou aqui também e a antes toda-poderosa indústria do petróleo está sofrendo, demitindo aos milhares e encerrando ou colocando em stand-by muitos projetos. As casas caíram de preço – ouvi falar em mais de 40% se comparado um determinado mês de 2007 com o mesmo mês de 2008. Não é pouco.

Em apenas quatro anos, vi a ascensão e queda deste enorme e inchado mercado de Calgary. Procurei casas por 180 mil em 2005 e ainda as encontrava. Hoje, volto a encontrá-las, depois de achar que jamais compraria uma casa! Mudei de cidade, indo morar no coração do vale do rio Bow, em Banff, uma cidadezinha de 7.500 habitantes situada dentro do Parque Nacional de Banff, e recebendo o assustador número de mais de 4.5 milhões de visitantes por ano. Temos visitantes passeando pela rua principal qualquer época do ano e dia da semana. Sem contar a quantidade de animais selvagens que vemos da janela – tanto da casa quanto do carro! É, sem dúvida, fascinante morar em um parque nacional...

Mas tem coisas ainda mais interessantes que venho descobrindo desde que me mudei para este canto do mundo. Lembro, ainda, da sensação que tive quando percorri o trajeto que ligava o aeroporto de Calgary ao bed & breakfast que nos acolheu nos 9 primeiros dias da nossa nova vida. Com passagem só de vinda e a escolha por uma cidade que não conhecia, olhava pela janela e tentava, desesperadamente, achar alguma coisa familiar naquela paisagem ainda gelada da primavera canadense. Não encontrei. No torpor do cansaço de 24 horas de viagem, eu só queria uma razão por ter deixado tanta coisa para trás e me mudado de mala e cuia para este país tão distante!

Levei mais de dois anos e meio para conseguir me mudar para uma cidade bonita e que me agradava e quase quatro anos para encontrar a razão. Lembrava do medo do desconhecido e do meu comentário ainda no Brasil, quando não achava nada de errado na minha vida – eu fazia o que gostava, morava em uma cidade que adorava, no meio das montanhas, em uma casa, e era reconhecida pelo meu trabalho. Então, por quê largar tudo e começar tudinho de novo? Demorei para conseguir responder esta pergunta e quase desisti de tudo no primeiro inverno, quando o trabalho braçal em um mega estoque de loja de produtos esportivos me deixava  ver o sol no máximo por cerca de meia hora por dia. Foi uma tortura...

Mas este tempo passou. E me peguei viajando para a Europa em novembro passado, rodando de carro pela França e impressionada em ver tanto carro na rua, tanta gente em todo lugar, tanta cidadezinha, postos de gasolina etc. Percebi, então, como aprendi a amar os espaços vazios canadenses. Fiz outra viagem, em janeiro, para a Califórnia, e me assustei com tantas rodovias, carros, trânsito etc. Também me fascinei com a visão do mar e de árvores frondosas e verdes, em pleno inverno. Nem parecia que eu era brasileira! Mas voltei para casa feliz, em ambas as viagens. Perceberam o que eu acabei de falar?

Pois é... casa é, para mim, esta imensidão branca, verde (de pinheiros!), e azuis e turquesas dos inúmeros lagos das montanhas canadenses.