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O resgate de Yossi Ghinsberg

O resgate de Yossi Ghinsberg

Quando Yossi Ghinsberg, jovem israelense de 22 anos, chegou à Bolívia no começo da década de 80, em busca de aventura, jamais imaginou que estaria perdido e sozinho no meio da floresta por três semanas. Sem treinamento, num lugar desconhecido, teve que improvisar refúgios, alimentar-se de frutas e ovos, e fazer até o inimaginável para permanecer com vida.

Parecia mais uma viagem de mochileiros na América do Sul, na que Yossi Ghinsberg, de Israel, Marcus Stamm, da Suíça, Kevin Wallace, dos Estados Unidos e Karl, da Áustria, se conheceram ao acaso na Bolívia.

Mas eles não eram viajantes comuns. Eram intrépidos aventureiros que planejaram a aventura de seus sonhos, que os levaria ao coração da floresta amazônica boliviana, conhecendo paisagens naturais virgens, vistos só por alguns antigos missionários e exploradores. Parte do plano era chegar até uma remota aldeia da etnia Tacana, onde segundo Karl, eles achariam ouro.

Eles saíram de La Paz até a cidade amazônica de Rurrenabaque, de onde continuaram navegando em bote pelo caudaloso rio Beni. No trajeto puderam observar exuberantes paisagens, com uma grande variedade de animais selvagens, como macacos, capivaras, jacuguaçus e queixadas.

Seguindo o mapa de Karl, eles percorreram trilhas e comunidades de camponeses, onde se abasteciam de alimentos. Quando sabiam da rota deles, os habitantes lhes advertiam do perigo do trajeto. Mas a emoção de estar vivendo uma aventura real no meio da floresta entusiasmava os turistas para continuar.

Após vários dias de intensa caminhada, não chegar à aldeia Tacana gerou tensão no grupo. Finalmente, por suas diferenças decidiram se separar. Marcus e Karl resolveram continuar o trajeto; Yossi e Kevin optaram por navegar no rio Tuichi até o rio Beni, e chegar a Rurrenabaque. Apesar da tensão, a promessa foi de se reencontrar antes do Natal em La Paz, e esquecer-se dos problemas.

Porém, nada aconteceu do jeito que planejaram. Um acidente no rio fez Yossi se separar de Kevin. Os dois se perderam, ficando cada um por sua conta na floresta. Para Kevin, a angústia durou pouco, pois foi resgatado por pescadores após cinco dias perdido. Yossi não teve a mesma sorte. Ficou 21 dias sozinho no coração da floresta, em pleno dezembro, sob as chuvas torrenciais dessa época do ano.

Suportou insetos e sanguessugas, teve abrigo destruído pela intensidade da chuva, passou fome e conseguiu se livrar, ileso, de um encontro com uma onça, que afirma ter afugentado com a ajuda de um spray e um isqueiro.

“Ouvi esse rugido de novo... perto demais para ignorá-lo, peguei minha lanterna e coloquei a cabeça fora da rede, e ai me encontrei cara a cara com a onça...“
(Lost in the Jungle, Yossi Ghinsberg, 2008).

De acordo com o relato de Yossi em seu livro, houve vários momentos em que o desespero se apoderou dele. Uma vez ele optou por colocar em cima do corpo uma colônia de formigas vermelhas, e aguentar a dor das picadas para se esquecer de uma dor pior, a de seus pés, que estavam sendo carcomidos por um fungo.

Na tarde do dia 21, já sem esperanças, Yossi pediu a Deus que o deixasse descansar em paz. Debilitado, desorientado e sem forças, simplesmente se deitou no chão para esperar a morte. Pouco tempo depois, acordou com o ruído de um motor, e com as poucas forças que ainda tinha foi ao rio, onde viu seu amigo Kevin e outras pessoas em um bote. Entre eles estava Abelardo ‘Tico’ Tudela, um caçador e explorador experiente, que ajudou a organizar o resgate.

Incrédulos e histéricos pelo encontro, Yossi e Kevin se abraçaram e choraram desconsoladamente. “Agora, definitivamente acredito em milagres, só de pensar que justo no lugar onde eles haviam decidido voltar e cancelar a busca, era precisamente onde eu estava deitado, moribundo, é algo verdadeiramente inexplicável!”, exclama Yossi à sua audiência, já que agora é um reconhecido orador motivacional e escritor.

Marcus e Karl nunca mais foram encontrados, apesar de várias operações de busca, todas em vão. Simplesmente desapareceram no meio da floresta, para sempre.

Madidi, o legado de Rosa Maria

Rosa María Ruíz

Rosa María Ruíz

Rosa Maria Ruiz não é uma mulher comum, atrás de seu sorriso se esconde o vigor de uma verdadeira amante da natureza. Teimosa e ermitã, como ela mesma se define, Ruiz dedicou sua vida à conservação da Amazônia boliviana. Ela foi uma das impulsoras da criação do Parque Nacional Madidi, uma das joias em biodiversidade da Amazônia e do mundo e o local onde em 1982, Yossi Ghinsberg se perdeu.

Desde os anos noventa, Rosa Maria liderou um processo de consulta com as aldeias indígenas – que teve que percorrer a pé, em mula e em canoa – para obter seu apoio na iniciativa da criação do parque.

Estudos biológicos de organizações como Wildlife Conservation Society e Conservação Internacional revelaram a importância e a necessidade de preservação deste ecossistema e foram o grande impulso e apoio para a iniciativa. A pressão dos indígenas e ativistas teve sucesso e no ano 1995 conseguiu o apoio do governo boliviano para a criação do Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Madidi.

O parque é um reservatório natural com 19 mil quilômetros quadrados, com uma alta taxa de biodiversidade. Em seu território são encontradas mais de mil espécies de aves, quando em toda a Europa, só existem 700.

A variedade de estratos ecológicos do Madidi vai desde picos nevados de 6.000 metros de altitude e glaciares, até a planície amazônica, abrigando várias etnias, como os Tacana, Araona, Moxenho e Yuracaré. Já na questão da fauna, se encontram desde onças e araras, até pumas e condores. Inclusive, acredita-se que existem áreas na zona ocidental onde nenhum ser humano chegou.

A National Geographic declarou o Madidi como uma das áreas com maior biodiversidade do mundo e um dos 20 lugares de maior interesse turístico em nível mundial. Desta forma, o parque foi catapultado no âmbito turístico, atraindo visitantes de todas as partes, e gerando assim benefícios econômicos para a população.

“Vocês têm sorte de viver entre condores, viscacha e ursos-de-óculos”, diz Rosa Maria a umas crianças índias, “se vocês os cuidam, os turistas virão e vocês vão ter trabalho quando crescerem”.

Retratos do Madidi

Hoje, pela primeira vez vim para explorar este maravilhoso ecossistema, cativado pelas histórias de aventura e conservação de Yossi e Rosa Maria, o primeiro foi resgatado da floresta e a outra resgatou a selva da ameaça humana.

Meu objetivo principal foi retratar uma amostra da sua fascinante biodiversidade. É inevitável não apreciá-la desde o momento em se navega pelos rios, se caminha pela floresta e se ouve o canto das aves, enquanto você está no colo da úmida e escura penumbra, perguntando se seus filhos serão testemunhas de tanta beleza.

“Quando alguém puxa de só um fio na natureza, encontra que ele está unido ao resto do mundo”.
John Muir, conservacionista americano