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Amoboró também tem vulcões. (Crédito: Eduardo Franco Berton)

Amoboró também tem vulcões. (Crédito: Eduardo Franco Berton)

Caminhando pelo meio de uma das dez florestas mais biodiversas do mundo observamos uma família de macacos-prego se alimentando dos frutos de um pé de achachairu (Garcinia humilis, fruta amazônica). Três quilômetros de caminhada pela floresta densa dá sensação física de dez. Subimos de 400 metros até 1100 sobre o nível do mar, a resistência física em teste máximo, todos visivelmente esgotados quando finalmente chegamos a nosso destino: o mirante do Parque Nacional Amboró.

O Parque Nacional Amboró foi criado em 1973 e é parte das 22 áreas protegidas nacionais do Sistema Nacional de Áreas Protegidas da Bolívia (SNAP). Está localizado nas ladeiras dos Andes tropicais bolivianos, a oeste de Santa Cruz. Abrange nove municípios e quatro províncias e é conhecido como o “Codo dos Andes” (Cotovelo dos Andes, em português), por ser um lugar onde a cordilheira ocidental muda de rumo em direção sul criando paisagens singulares de montanhas subandinas que dão nascimento a uma beleza exuberante e de grande refúgio natural da biodiversidade.

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Incrível biodiversidade
Este maravilhoso e frágil ecossistema abriga em seus 637 mil hectares aproximadamente 10% (o equivalente a 820 espécies, quantidade similar a dos Estados Unidos e Canadá) das aves existentes no planeta, entre as quais o pavão mutum (Pauxi unicornis), uma das mais ameaçadas do lugar pela caça ilegal, além de colibris, águias e uma grande variedade de araras como as araras-canindé (Ara ararauna), araras-vermelhas (Ara chloroptera) e as araras-militares (Ara militaris).

Em suas florestas também existem cerca de 120 espécies de mamíferos. O Amboró também é lar de mais de três mil espécies de plantas, entre elas as samambaias gigantes (Cyathea sp., Alsophyla sp.)  que chegam a medir até mais de quatro metros de altura e viver até 100 anos. Também podemos encontrar ao redor de 500 espécies de orquídeas, como a Chondrorhyncha luerorum e a Kefersteinia ricii.

A biodiversidade do Amboró é evidente e é possível contemplá-la a cada passo dado em seu interior. Dentro dele vemos uma variedade de plantas com aves cantando sobre elas, diferentes tipos de insetos dançando sobre as flores e lagartas de aspecto estranho se arrastando sobre cogumelos, o que me faz lembrar a obra “A origem das espécies”, de Charles Darwin, e sua teoria sobre a relação intrínseca, de interdependência, que existe entre todas as formas de vida. Apesar desta riqueza toda, só 50% do parque foi pesquisado, o que me faz pensar sobre a infinidade de espécies silvestres que ainda precisam ser descobertas pela ciência.
 

A importância do parque não se limita à sua biodiversidade, mas também à sua riqueza hidrológica. Pesquisas identificaram que as florestas do Amboró oferecem um serviço ambiental hídrico de grande importância à cidade de Santa Cruz de la Sierra, já que são das principais fontes de recarga hídrica dos aquíferos subterrâneos que abastecem a cidade.

Todas essas características fazem do Amboró um lugar ideal para promover pesquisas científicas, recreação na natureza, educação ambiental e atividades de ecoturismo que contribuam com o desenvolvimento e bem-estar local das comunidades, caso do albergue “Vila Amboró”, que hoje recebe um número importante de turistas de variadas nacionalidades.

De volta à cidade grande, a vida cotidiana passa rapidamente frente ao místico e longevo olhar das montanhas do Amboró, visível desde a cidade como um sábio vigilante e protetor de seu apreciado legado natural, tão vital para Santa Cruz, como para a Bolívia e toda a humanidade.

Ameaças

Lamentavelmente, o parque não está livre de ameaças. Os 15 guarda-parques atualmente no parque são insuficientes para patrulhar 637 mil hectares. Por isso, ficam expostos a caçadores e madeireiros ilegais. Só nos últimos 25 anos foram perdidos aproximadamente 100 mil hectares na zona de amortecimento devido a desmatamento, queimadas, colonização e produção agrícola, ignorando o fato de esta área ser oficialmente protegida. Outra grande ameaça tem sido a extração ilegal de madeira de espécies como o mogno (Swietenia macrophylla) e a nogueira (Juglans boliviana).
 


Saiba mais:
Vídeo - A fábrica d’água
 

Eduardo Franco Berton é assessor jurídico da Natura Bolívia, organização apoiada pela Fundação Avina, com atuação na Amazônia e membro da Aliança Regional Amazônica (ARA).


*Atualizado em 10 de maio de 2012 às 10h02.