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Família na Índia, um dos países mais populosos do planeta (foto: Verônica Theulen)

O ano de 2010 terminou como o recordista em desastres naturais e, em pouco mais de uma quinzena de 2011, percebe-se que o novo ano pretende disputar, palmo a palmo, essa triste liderança. Dados coligidos pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e por instituições fora do âmbito da ONU confirmam o aumento de frequência desses desastres. As tragédias ambientais que compõem esse quadro vão de secas extremas, recordes de calor e frio, queimadas, chuvas torrenciais, a furacões e tornados.

No total, 950 catástrofes naturais foram registradas no ano passado, 90% das quais relacionadas ao clima. Isto faz de 2010 o ano com o segundo maior número de catástrofes naturais desde 1980, marcadamente excedendo a média anual para os últimos 10 anos (785 eventos anuais).

Não há dúvida que o termostato do clima global encontra-se desregulado e que, devido à velocidade que isso ocorreu, a intervenção humana é a principal causa. As provas cientificas e factuais são mais do que suficientes, as discussões que remanescem são puramente políticas ou tentam esconder mesquinhos interesses empresariais e pessoais.

O ano de 2010 foi escolhido, na ONU, como o Ano Internacional da Biodiversidade. Em 2002, 183 nações comprometeram-se a alcançar, por volta do ano passado, uma redução significativa da taxa anual de eliminação de seres vivos em caráter nacional, regional e global “como uma contribuição para reduzir a miséria e para o benefício de todas as formas de vida na Terra.” Os dados tornados públicos no congresso, realizado no Japão, revelaram o que já se sabia: o mundo fracassou redondamente em realizar os compromissos dos Objetivos da Biodiversidade 2010, como ficou conhecido.

Percebe-se, no entanto, que há uma assunção progressiva do debate por parte de sociólogos e antropólogos, os quais tentam – para meu espanto – culpar qualquer coisa pela degradação ambiental, exceto o número de humanos. 

Bem, e o que o aumento demográfico tem a ver com todos esses fatos? Tem tudo a ver. O tamanho da população humana é uma das principais alavancas da degradação ambiental, um fator que age diretamente na Natureza, transformando-a, tentando controlá-la e, mais que tudo, detonando-a. Dirão alguns que o crescimento da economia, ainda mais exponencial do que o demográfico, tem um peso maior nessa equação. Sim, é verdade, mas a expansão do consumo é estimulada e sustentada pela enorme massa de consumidores reais e potenciais, ávidos por comprar qualquer inutilidade oferecida pela indústria. O tamanho da população é o combustível da economia.

Lá pelo final deste ano, o planeta vai “celebrar” a qualidade do meio ambiente recebendo o sétimo bilionésimo humano... Em apenas cinco décadas, um instante histórico, a Terra passou a abrigar mais 4,5 bilhões de pessoas do que o fazia em 1950. Esse surplus corresponde à população global existente em 1981 (que levou desde os primórdios do Homo sapiens até 1981 para atingir esse montante).

É verdade que a explosão demográfica mundial está em queda. Diversas partes dos continentes mais pobres tendem rapidamente para a fecundidade de substituição (2,1 filhos por casal, em média). Ainda assim, não veloz o suficiente para estabilizar a população em uma ou duas décadas.

Não apenas as pessoas estão vivendo mais, como uma quantidade sem precedentes de mulheres – nada menos que 1,8 bilhão! – encontra-se em idade de reprodução. Mesmo considerando que tenham menos filhos que as gerações que as precederam, o número total de seres humanos pode alcançar 10,5 bilhões em 2050, ou oito bilhões antes disso – a diferença é de cerca de um filho por mulher (Divisão de População da ONU).

A opção intermediária das avaliações da ONU, mais prudente, indica que a população mundial deverá somar nove bilhões de indivíduos antes de 2050, em 2045. Mesmo se as novas gerações tiverem não mais que duas crianças por casal, haverá uma convivência de cerca de quatro gerações por família. Essa convivência de gerações obviamente engorda a massa populacional.

Apesar da subnutrição ter diminuído desde a década de 1950, ela cresceu em termos absolutos nos últimos anos. Mais de 900 milhões de indivíduos sofrem de fome crônica. Com o número de humanos aumentando em 78 milhões/ano, em mais algumas décadas a frente teremos mais dois bilhões de bocas a alimentar.

Haverá, assim, 2 bilhões de pessoas ajudando a reduzir a produtividade do solo, a devastar os mares, e a consumir mais água, que é usada majoritariamente na agricultura. Serão também mais 2 bilhões desejando – e obviamente tendo o direito – de sair da miséria. Some-se a eles os pobres, mas não miseráveis, que desejam mais conforto material, os não tão pobres, os razoavelmente ricos e até mesmo os ricos que desejam cada vez mais dinheiro e consumo. As consequências da cultura da riqueza são óbvias e não são novas, mas estão se acelerando muito com a pressão demográfica: destruição de florestas e de outros ecossistemas terrestres e litorâneos, eliminação de populações animais, queima de combustíveis fósseis poluentes e não renováveis, mais barragens hidroelétricas, uso crescente e danoso de fertilizantes químicos e pesticidas, aumento da poluição atmosférica urbana e de fontes de água doce etc., etc.

A taxa atual de aumento populacional global encontra-se em torno de 1,15% ao ano (a.a.). Na esmagadora maioria da história humana, ela era quase desprezível, mas para focarmos apenas nos tempos recentes, a Era Cristã, do ano zero ao ano 1000 a taxa média de crescimento foi de aproximadamente 0,006% ao ano (a.a.). Já em uma época de aceleração da expansão demográfica, entre 1750 e 1950, p. ex., esse índice ficou em torno de 0,52% a.a., em média. O índice atual é 2,2 vezes maior do que o do período exemplificado e incide sobre uma base numérica muito maior.

A titulo de ilustração, consideremos a população de 1,3 bilhão de pessoas, ocorrida em uma ano qualquer ao longo do século XIX, e apliquemos sobre ela a taxa de 0,52% citada acima. A população global cresceu naquele ano em 6.760.000 indivíduos. Atualmente, esse aumento é de 78 milhões, 11,6 vezes superior ao do ano em que a Terra abrigava um bilhão e trezentos milhões de pessoas. Isso chama-se crescimento exponencial. É explosivo e insustentável.

Por que será que esse assunto praticamente desapareceu das pautas, tanto nacional como internacionalmente? É incompreensível... no entanto, podemos especular que pressões religiosas e políticas tenham, nos últimos anos, auxiliado a tirar o foco do tema. Mas isso não explica tudo, pois tais pressões sempre existiram. Percebe-se, no entanto, que há uma assunção progressiva do debate por parte de sociólogos e antropólogos, os quais tentam – para meu espanto – culpar qualquer coisa pela degradação ambiental, exceto o número de humanos. Além disso, a carência de bons líderes internacionais talvez complete a receita de indiferença em relação ao assunto reinante no mundo. Lamentável.

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