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Lavouras se estendem por áreas naturais no MT. (Andreia Fanzeres)

Lavouras se estendem por áreas naturais no MT. (Andreia Fanzeres)

Questões como segurança alimentar e de que forma iremos dar de comer a cerca de nove bilhões de seres humanos em meados deste século encontram-se no centro dos debates sobre o futuro do planeta e o da nossa espécie. A produção de alimentos e as razões da fome renitente são temas mais complexos do que podem parecer à primeira vista. As duas principais dúvidas que afligem os interessados do assunto são as seguintes:
1) A produção mundial de comida é suficiente para alimentar a população global?

Atualmente sim. A Revolução Verde permitiu, desde a década de cinquenta, um aumento excepcional na produção agrícola, impulsionada por novas tecnologias, o que superou o também impressionante crescimento da população humana. Com o auxílio da eficiência crescente da pesca oceânica comercial – que está devastando os mares – e da expansão da pecuária (notadamente de animais confinados), praticamente o mundo todo come uma quantidade maior de alimentos per capita do que fazia há 50 anos.

Em que pese o aumento demográfico, todos os continentes conheceram, entre 1961 e 2003, um aumento da quantidade média de calorias ingeridas diariamente por seus habitantes, incluindo a África ao sul do Saara. Nesse continente, o progresso foi de apenas 6,1% contra a média de 38,8% do conjunto de países em desenvolvimento (dados da FAO). O mundo, como um todo, passou a ter à sua disposição praticamente 25% a mais de energia alimentar per capita nesse período. Claro, essa média esconde as disparidades (3.739 kcal/pessoa-dia na América do Norte versus 2.272 kcal/pessoa-dia na África, p. ex.). Mas, o fato é que em todos os continentes, as pessoas passaram a comer mais desde o início dos anos 1960.

O número relativo de pessoas subnutridas no planeta está em queda, embora em ritmo que se mostrou, nos últimos anos, insuficiente para reduzir o total dos famintos em valor absoluto. No início da década de setenta, 920 milhões tinham fome crônica, ou quase 25% da população global. Em 2003-2005, essa porcentagem havia declinado até 13%, equivalente a um pouco menos de 840 milhões de indivíduos (FAO). Dados deste ano indicam que os subnutridos, algo complexo de definir, somariam 925 milhões (World Food Programme), mas ainda abaixo de 14% da população mundial.

2) Quais são as projeções de aumento da produção alimentar em comparação com a da população humana?

Toda e qualquer projeção está obviamente sujeita a erros. As que se referem ao crescimento da produção de alimentos apresentam margens de incerteza ainda maiores. Mas elas são indispensáveis para o planejamento, tanto de políticas públicas quanto de empresas.

Como citado anteriormente, o consumo de cereais – base da alimentação global – cresceu acentuadamente desde os anos cinquenta. Entre 1961 e 1991, p. ex., esse aumento foi de 109% contra 74% de aumento do número de seres humanos. No entanto, desde meados dos anos oitenta, aproximadamente, ora a produção cresce mais que a população, ora cresce bem menos. Entre 1985 e 2000, a produção de cereais deu um salto de 19,6%, mas o da população foi ainda maior: 26%. Outro exemplo: no período 1995-2004, o consumo de cereais subiu 9,6% versus 12,6% do aumento demográfico mundial.

Contudo, a produção mundial de cereais em geral (grãos, à exceção de soja) conheceu uma expansão excepcional em 2008, liderada pelas colheitas de arroz e trigo, o segundo e terceiro grãos mais plantados (milho é o primeiro). A colheita de grãos, 2,287 bilhões t, cresceu acima de 7% em relação ao ano anterior (2007), um recorde histórico.

Será que o crescimento da produção agrícola acima da expansão demográfica se mantém? E por quanto tempo? A verdade é que limites físicos já restringem e, obviamente, restringirão ainda mais a expansão alimentar. Erosão e compactação do solo, poluição, redução dos recursos hídricos, perda de matéria orgânica do solo, inundação e salinização de terras irrigadas, exploração excessiva dos recursos pesqueiros e poluição dos mares representam barreiras para uma oferta crescente de comida.

Como a agricultura é responsável por cerca 70% do consumo humano de água, há a tendência inescapável de agravamento do conflito entre a agricultura e as cidades (além do setor industrial) no uso desse recurso natural. Some-se a isso os impactos das mudanças climáticas no ciclo da água e torna-se claro que a irrigação, um dos principais fatores do aumento da produção agrícola, encontrará um gargalo muito estreito para se expandir.

Nos últimos anos, políticos, representantes do agronegócio e alguns especialistas têm afirmado que haverá a necessidade de crescer a produção global de alimentos em 50% por volta de 2030 e dobrá-la em meados do século para atender a demanda futura. Embora seja óbvio que a agropecuária não crescerá indefinidamente, essas estimativas parecem exageradas pelos seguintes motivos: (parte baseada no texto Food figures need a pinch of salt, de Isobel Tomlinson):

A – Se desejarmos alimentar uma população de cerca de 9 bilhões por volta de 2050, teremos que abrir mão de uma dieta voltada cada vez mais para o consumo de produtos animais, como leite, ovos e principalmente carne. Em um mundo em processo de aburguesamento, as pessoas desejam crescentemente tais produtos. A par dos danos causados à saúde por esse modelo de dieta (obesidade, diabetes, doenças cardíacas e alguns tipos de cânceres), a perda de energia alimentar é inevitavelmente muito elevada. Boa parte da pecuária é alimentada com grãos, representando um desperdício expressivo de energia contida nesses vegetais. Portanto, a redução per capita de consumo de produtos animais poderá aumentar muito a disponibilidade de alimentos aos mais pobres.

B – Tais projeções assumem que o mundo em desenvolvimento continuará a importar grandes quantidades de alimentos básicos, quando o necessário é que se promova o incremento da produção local no objetivo de se garantir a segurança alimentar. Uma forma eficaz e ambientalmente recomendável de contribuir para o aumento da produção de comida em países pobres é através do plantio de alimentos em áreas urbanas.

C – Apesar de diversos especialistas afirmarem que a agricultura orgânica não poderá jamais substituir a agricultura convencional por apresentar um rendimento inferior, um estudo recente oferece argumentos consistentes para justificar que essa agricultura “ecológica” provavelmente conseguirá alimentar os nove bilhões de pessoas que habitarão a Terra em 2050. Mas, para tanto será inevitável padrões dietéticos relativamente mais modestos e uma distribuição mais justa de comida para se evitar a subnutrição.

Tanto a agricultura convencional, a da Revolução Verde, como a orgânica têm ainda um espaço para aumentar a eficiência, principalmente a última. A produtividade agrícola cresceu 146% entre 1963 e 2009, de acordo com a FAO, e deverá continuar crescendo, principalmente nos países em desenvolvimento. Isto e mais as medidas consideradas acima – todas factíveis – deverão evitar a contínua expansão da agropecuária, sempre às custas de habitats naturais, que são essenciais para o bom funcionamento do sistema Terra.

A tendência demográfica, vital nesta e em outras questões, ainda é espantosamente negligenciada no Brasil e no mundo. Dispensa argumentos a afirmação de que o desafio de alimentar os humanos em meados deste século (ou em qualquer época), preservando tanto quanto possível o ambiente natural, seria razoavelmente mais fácil se o mundo tivesse, por exemplo, um bilhão de pessoas a menos.

Os debates em torno do futuro da alimentação são acalorados e controvertidos. Isso é compreensível, porque além de ser um tema complexo e vital para a espécie humana, trata-se, de certa forma, de futurologia, em que pese extrapolações e técnicas refinadas de projeções. Contudo, mesmo os mais otimistas e os fiéis sectários da tecnologia sabem que – no intuito de se afastar ao máximo o risco de um colapso futuro - a boa precaução indica a imprescindibilidade de uma reforma na alimentação moderna, reduzindo a dependência de produtos animais, e de uma queda brusca na taxa de crescimento da população mundial.